O cinema de Walter Lima Jr.

Walter Lima Jr. conversa com a reportagem sobre seus novos projetos. Ele escolheu um lugar tradicional do Rio para a entrevista - a Cinelândia. "Aqui passava o bonde", aponta para o espaço exíguo entre o bar e a praça em frente. "Aquilo ali foi um cenário de cinema" e aponta para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que Alfred Hitchcock recriou em estúdio, em Hollywood, para abrigar cenas do cult Interlúdio (Notorious, no original). Walter Lima Jr. não é só um diretor importante do cinema brasileiro. É um cinéfilo.Aproveita a sexta-feira anterior à eleição para conversar. Na quinta ainda estava em São Paulo, integrando o comando da campanha da candidata petista Marta Suplicy. "Dirigia o programa dela de televisão." Na época, Lima Jr. já sabia que Marta iria para o segundo turno, mas ainda não sabia se continuaria integrado à campanha. Não está mais. Disse que, se fosse paulistano, votaria tranqüilamente em Marta, a quem não poupa elogios. "É séria, é competente, tem clareza de idéias e objetivos." Tem o título de eleitor no Rio, mas não votou no PT. Não gosta do PT do Rio. É mais o Partido Verde.Cinema e política estiveram sempre misturados na vida e na carreira de Lima Jr. Ele pertence a uma geração, a do Cinema Novo, que sonhava mudar o mundo. Debruça-se sobre o próprio passado no novo filme. Chama-se Os Desafinados e será uma produção de R$ 3 milhões, estrelada por Murilo Benício. Lima Jr. pretende rodar no ano que vem. Explica o custo dizendo que o projeto inclui filme e CD. É um filme no qual a música desempenha um papel muito importante. Conta a história de cinco amigos. Quatro são músicos."É a história da minha geração", diz Lima Jr., que pretende fazer o inventário dos sonhos de quem viveu o mítico 68 e, antes disso, já estava engajado em movimentos de transformação social e estética. Mas ele promete não fazer nada nostálgico. "Não vou chorar o tempo perdido." Sua geração não conseguiu mudar o mundo? "É, não mudou, mas pelo menos alguns de nós conseguimos mudar, o que já é alguma coisa", observa. Tem entusiasmo de viver. Pretende colocar isso no filme.Os Desafinados é só um dos projetos que absorvem Lima Jr. Ele também deve dirigir o piloto de uma série de telefilmes que a empresa americana Columbia pretende fazer no Brasil, com apoios da Itália e dos EUA, para exibição nos três mercados. Lima Jr. fez, recentemente, uma sitcom na Band. A série vai se chamar O Filho Predileto (The Favourite Son). Conta a história de uma médica que adota uma criança brasileira, leva-a para os Estados Unidos e descobre que a menina possui uma doença rara. Começa a pesquisar as origens da menina em busca das raízes da doença. Um detetive participa da sua procura. É o personagem central da série.Um filme, uma série. Tudo mais ou menos embaralhado, a série já em pré-produção, com rodagem prevista para 21 de novembro, o filme ainda preso à questão do patrocínio, que anda difícil no cinema brasileiro. Lima Jr. avalia o momento. "Há grandes projetos, mas não existe mercado." Cita o caso do novo filme de André Klotzel, adaptado de Machado de Assis, Brás Cubas. "Possui grandes qualidades, mas dificilmente conseguirá o circuito que merece". Se for lançado pela Riofilme que tem boa vontade mas não tem cacife com os exibidores, ganhará um circuito mínimo.Obra reavaliada - Há mais projetos envolvendo o nome de Walter Lima Jr. neste momento. O Centro Cultural Banco do Brasil do Rio, realiza no mês que vem uma retrospectiva da obra completa do diretor. Inclui todos os filmes que ele realizou e mais alguma coisa dos seis anos em que Lima Jr. trabalhou no Globo Repórter. A retrospectiva, que ocorre de 16 a 30 e tem o título Inocência e Delírio, vai abrigar o lançamento de um documentário sobre o diretor - walter.doc, de Beth Formaggini e Luís Felipe Sá. E será seguida de um livro do crítico Carlos Alberto Mattos, que pretende dissecar o homem e o artista, misturando biografia e análise da obra. O Laboratório Cinema, ex-Líder, juntou-se ao CCBB para patrocinar a restauração dos filmes. É um trabalho delicado. Menino de Engenho, por exemplo, estava em condições precaríssimas. Está tendo de ser restaurado quadro a quadro, um trabalho delicado.Lira do Delírio, Inocência, Ele o Boto e Joana Angélica - Lima Jr. depositou os negativos de seus filmes na Cinemateca Brasileira. Reclama das condições da conservação dos filmes no País. No Rio, eles são conservados num subsolo no aterro. A umidade é prejudicial. Por isso mesmo, títulos fundamentais, a começar por Menino de Engenho, a bela adaptação que Lima Jr. fez do romance de José Lins do Rego, estão tendo de ser recuperados. Lima Jr. pertence a uma geração que acreditava no cinema como instrumento de transformação da sociedade. Mas seus melhores filmes desenvolvem uma vertente lírica. Até pelas características do projeto - esse voltar-se sobre si mesmo, sobre os sonhos de uma geração que acreditou tanto na política -, essa última promete ser muito importante em Os Desafinados. Mas o diretor não pretende fazer diferente do que sempre faz.Acha que o conceito de autor no cinema é vago. Fala que muitos grandes autores o são à revelia. "No meu caso, sempre tive em mente a diversidade." Para ele, os caminhos do cinema são múltiplos. Sempre quis para si mesmo essa multiplicidade, a possibilidade de mudar, de filme para filme, de ousar, de experimentar. Lembra que a música foi sempre fundamental em sua vida. A mãe tocava piano, a família era toda musical. Analisando seus filmes, no geral, diz que foram construídos a partir da música. No caso de Os Desafinados, escreveu o roteiro e pretende filmar em função da música. Chico Buarque, Dori Caymmi e Ivan Lins são alguns dos compositores que, com certeza, vai usar. E vai incluir os standards da bossa nova - Samba de uma Nota Só, Os Desafinados.Quando fala sobre música, inflama-se. Faz a ponte de Debussy e Ravel até Cole Porter e George Gershwin, para chegar a Tom Jobim e à bossa nova. Diz que há uma nítida evolução, uma transformação e assimilação de linhas melódicas. Aproveita para dizer que viu o show de Diana Krall em São Paulo e apaixonou-se pela releitura que a diva faz de clássicos do jazz e da bossa nova. Não por acaso, o disco dela com Rosemary Clooney e John Pizzarelli chama-se Brazil. E segue falando sobre música. Lembra que Brasil Ano 2000 incorporou o tropicalismo não só na música, mas também no tratamento visual, por meio da cor e da cenografia.Integração rara - Ainda procura os atores que farão os músicos de Os Desafinados. Explica sua dificuldade. "Basta ir a um show para ver que há um tipo de integração rara entre os músicos." Eles não precisam mais que um olhar para se comunicar. A música os envolve e leva numa viagem. Quer atores que sejam músicos, mas não desdenha o inverso - músicos que sejam atores. "O importante é que tenham capacidade de passar essa coisa tão essencial." Enquanto não começa a filmar, continua dando novos tratamentos ao roteiro. Já está no quarto. O terceiro foi feito por Elena Soárez, a roteirista de Eu Tu Eles.Ele alia a todas essas atividades a de professor. Faz cursos de preparação de atores e diretores na Fundição Progresso e na Casa da Gávea, no Rio. Durante 20 dias esteve em Porto Alegre, promovendo uma oficina de atores. Trabalhava com grupos pequenos, adorou a experiência. Repetiu-a no Festival de Recife, mas lá, além do tempo ser menor, as classes eram mais numerosas - tinham até 40 alunos. Entusiasma-se com esse tipo de experiência. Acha que o enriquece. Vai participar de um encontro com o público durante a retrospectiva no CCBB. "A troca é necessária", avalia.

Agencia Estado,

16 de outubro de 2000 | 18h08

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.