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O centenáro de Burt Lancaster

Em 1953, fez história ao rolar, em traje de banho, com Deborah Kerr na areia da praia de 'A Um Passo da Eternidade'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2013 | 15h04

Alto, loiro e com aquele sorriso cheio de dentes. É um momento emblemático do western, e uma cena sob medida para aqueles que vivem buscando sugestões de homoerotismo nas histórias de caubóis e pistoleiros. Burt Lancaster encara Gary Cooper e pergunta de quem gosta mais – dele ou dos cavalos? O filme é Vera Cruz, de 1954. Lancaster tinha 41 anos – nasceu em Nova York, em 2 de novembro de 1913. Morreu em 20 de outubro de 1994, às vésperas de completar 81 anos. Comemora-se, portanto, neste final de semana, o centenário de nascimento do acrobata que virou astro, e grande ator - um dos maiores do cinema.

Luchino Visconti nunca considerou a possibilidade de um ator italiano interpretar o príncipe Salinas de O Leopardo. Queria Nikolai Cherkassov, o terrível Ivan de Sergei M. Eisenstein, mas ele estava muito velho. Escolheu Burt Lancaster, que havia recebido seu Oscar, em 1960, por Entre Deus e o Pecado, de Richard Brooks. Com Lancaster veio o dinheiro norte-americano de que Visconti precisava para fazer sua suntuosa adaptação do romance de Giuseppe Tommaso di Lampedusa. Foi não apenas uma colaboração grandiosa – o filme ganhou a Palma de Ouro em 1963 – como marcou o início de uma grande amizade. Em 1974, Lancaster atendeu ao chamado do grande diretor italiano, que estava com a saúde precária, e fez o velho professor de Violência e Paixão.

São papéis definitivos, com os quais o jovem Lancaster nem podias sonhar. Ele começou fazendo acrobacias, em dupla com Nick Cravat, que foi depois seu parceiro em alguns filmes de aventuras. O duo Lancaster/Cravat durou de 1932 a 39, quando foi dissolvido por causa de um acidente. Lancaster entrou para o Exército, mas seu front era outro. Organizava espetáculos para distrair os soldados nos intervalos entre batalhas. Isso o aproximou de produtores de teatro e cinema. Um deles, Mark Hellinger, o chamou para protagonizar Os Assassinos, a primeira versão, que Robert Siodmak praticamente inventou a partir do conto de Ernest Hemingway. O filme virou clássico noir e Lancaster iniciou uma série de personagens durões, em filmes como Brutalidade, de Jules Dassin, e Baixeza, de novo com Siodmak. Simultaneamente, desenvolveu outra série explorando suas qualidades atléticas - e filmes como O Gavião e a Flecha, de Jacques Tourneur, O Pirata Sangrento, de Siodmak, e Sua Majestade, o Aventureiro, de Byron Haskin, fizeram dele um dos favoritos do público das matinês, nos anos 1950.

Em 1953, fez história ao rolar, em traje de banho, com Deborah Kerr na areia da praia de A Um Passo da Eternidade, de Fred Zinnemann. A cena tórrida desafiava as convenções do Código Hays para cenas de sexo na produção de Hollywood. Ela não só permaneceu no filme como A Um Passo da Eternidade venceu o Oscar. Naquele mesmo ano, Aldrich foi decisivo na sua evolução e, a partir de Apache/O Último Bravo, ofereceu-lhe papéis que, sem deixar de ser atléticos, exibiam uma maior complexidade dramática. Logo veio Vera Cruz e, nos anos 1970, seguiram juntos em A Vingança de Ulzana e O Último Brilho do Crepúsculo. Assim como a Visconti e Aldrich, Lancaster foi fiel a outros diretores - John Frankenheimer e Sidney Pollack. Associado a Harold Hecht e James Hill, fundou uma empresa produtora independente que lhe garantiu um status raro em Hollywood. Seu amigo (e parceiro em Sem Lei Sem Alma, western de John Sturges), Kirk Douglas, fez a mesma coisa e, por volta de 1960, ambos redefiniram as relações dos astros com os grandes estúdios.

O Oscar veio pelo pastor charlatão mas que se redime por amor em Entre Deus e o Pecado. No original, chama-se Elmer Gantry e é uma adaptação do livro de Sinclair Lewis. Com Brooks fez também, o western Os Profissionais - maravilhoso - e não se pode esquecer de sua criação como o jornalista sem escrúpulos de A Embriaguez do Sucesso, de Alexander Mackendrick. Grande ator, Lancaster só foi pequeno como diretor - Homem Até o Fim, que dirigiu em 1955, ainda exibia um charme rousseauniano, como assinala Jean Tulard no Dicionário de Cinema, mas o thriller O Homem da Meia-Noite, que codirigiu com Roland Kibbee, em 1973, era irremediavelmente medíocre. Dez anos antes, em 1963, Lancaster interrompeu a filmagem de O Trem, na França, e foi a Washington participar da grande marcha por direitos civis, aquela em, que o reverendo Martion Luther King teve um sonho. Na volta, Lancaster terminou brigando com o diretor Arthur Penn e o substituiu por Frankenheimer. Amigos e colaboradores tentaram demovê-lo. Disseram que não seria bom para sua carreira - que os negros não lhe agradeceriam e que as plateias brancas do Sul o boicotariam.

O que Lancaster disse, numa entrevista a Le Figaro Littéraire, em 21 de setembro de 1963 - há 50 anos - merece ser lembrado para definir o homem que era. "Foi-se o tempo em que bastava deixar seus filhos brincar com crianças negras para ficar em paz com a própria consciência. Tenho 50 anos. Cheguei muito mais longe, na vida e na carreira, que jamais ambicionei. Mas só por que triunfei tenho de renunciar aos sonhos da minha juventude? Aos 15, aos 20 anos, eu sonhava com liberdade e fraternidade e é por isso que vou (a Washington). Não é esperando o reconhecimento dos negros. Vou por mim, pela minha consciência, porque é preciso, porque tenho de fazê-lo." Uma fala assim é digna das melhores de seus grandes filmes. Na vida, Burt Lancaster virou herói de si mesmo.

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