"O Cárcere e a Rua" vê a cadeia pelo ângulo feminino

Durante três anos, a diretora Liliane Sulzbach visitou a Penitenciária Madre Pelletier, a maior instituição carcerária do Rio Grande do Sul voltada só ao aprisionamento de mulheres. Liliane entrevistou cerca de cem detentas, em busca das três protagonistas do documentário que pretendia fazer. O Cárcere e a Rua, que estréia hoje, recebeu o Kikito da categoria no Festival de Gramado de 2004. Cláudia, Betânia e Daniela são as três personagens. A presidiária respeitada dentro da cadeia e que deve deixar o cárcere em breve, a que vai para o regime semi-aberto e a que aguarda julgamento. De alguma forma, Daniela busca proteção dentro da cadeia, enquanto Cláudia e Betânia enfrentam a incerteza de voltar para a rua com o estigma de terem sido presidiárias. "Em vez de se concentrar na vida da cadeia, que possui seus códigos, o filme acompanha a trajetória das três dentro e fora da prisão. E faz isso num amplo espaço de tempo, para que o espectador perceba as mudanças ocorridas na vida dessas mulheres", diz a diretora. O Cárcere e a Rua tem força. E se inscreve numa tendência maior do documentário atual. Na vertente aberta por Carandiru, de Hector Babenco, o maior êxito recente da história do cinema brasileiro, O Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento, deu instrumentos para que os próprios presos contassem sua história e apresentassem sua visão de mundo. Prosseguindo nessa trilha, outros documentários, além do de Liliana, abordam o universo feminino e o cárcere. No recente É Tudo Verdade, a mexicana Guadalupe Miranda mostrou uma cadeia de mulheres em Relatos do Cárcere. E, no Recife, Visita Íntima, de Joana Nin, focalizou o drama de mulheres cujos companheiros estão presos. Emergem, de todos esses filmes, poderosas histórias de vida. E cada um possui a sua forma. Os caminhos do documentário também são hoje, cada vez mais, os caminhos da linguagem.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.