Pagu Pictures
Pagu Pictures

'O Caravaggio Roubado’ parte de furto de obra pela Máfia para contar história de crime

Filme acompanha secretária, que também escreve roteiros, que recebe informações sobre o sumiço da tela 'Natividade', de 1609, levada da Itália em 1969, e passa a ser perseguida pela Máfia; veja o trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

24 de maio de 2019 | 03h00

Roberto Andò conversa com a reportagem do Estado pelo telefone. O bom manual da redação jornalística diz que o leitor só se interessa pelo resultado, não pelas dificuldades que o repórter possa ter enfrentado. Mas revela um pouco da personalidade do entrevistado dizer que ele estava num trem, rumo a Roma. A ligação, pelo celular, caía a cada dois, três minutos. Ele chamava o Brasil, o repórter chamava a Itália. “Jamais vamos terminar.” 

LEIA TAMBÉM >Viva a Liberdade

Seu filme, O Caravaggio Roubado, estreou na quinta, 23, nos cinemas brasileiros. Basato su una storia vera, afirmam os créditos. Mas a história real é só o roubo do Caravaggio pela Máfia e a incrível negociação, envolvendo policiais, políticos e magistrados corruptos, para que o Estado italiano pagasse uma fortuna pelo patrimônio recuperado – porque a Máfia assim o quis. Para lavar dinheiro?

“O Caravaggio está no centro dessa história, mas meu filme é outra coisa. É sobre o cinema e a arte de escrever (roteiros), é sobre o reencontro de um pai e uma filha”, diz o diretor. Embora a origem seja real, é tudo ficção. A personagem de Micaela Ramazzotti (Valeria), por exemplo.

Mulher do cineasta Paolo Virzi (na vida), ela cria essa mulher que trabalha na empresa produtora para a qual seu amado tem de apresentar um projeto. Ele, Alessandro Pes (vivido pelo ator Alessandro Gassman) é roteirista, mas há anos não consegue conceber uma linha. Micaela escreve para ele, é ghost-writer, e lhe dá o crédito. Uma mulher à sombra. Por amor? Um estranho lhe fornece o ponto de partida. O Caravaggio roubado. Entre os produtores, está um testa de ferro da Máfia. 

Quando a história começa a aparecer nos jornais, com o anúncio do próximo filme, a Máfia inquieta-se. O roteirista é agredido, fica em coma, mas as páginas do roteiro continuam a aparecer. A Máfia põe seus espiões – seus assassinos – e da produtora, no set de filmagem – na Sicília.

“A Sicília é uma personagem importante desse filme – como Micaela e o Caravaggio. A tragédia histórica da Sicília é a Máfia, que sustentou estruturas arcaicas de poder”, reflete Andò. Em filmes como Viva a Liberdade e As Confissões, ambos com Toni Servillo, ele tem criticado o poder. “Vivemos numa sociedade do espetáculo, com um poder débil que só serve para enganar as pessoas. O verdadeiro poder é oculto, e seus tentáculos estão em toda parte.” 

O filme busca iluminar o que está escuro. O informante de Micaela sabe de tudo, sabe demais. Logo, ela também está ameaçada. “O filme não é só minha homenagem, ou reflexão, sobre o cinema. É também sobre o cinema policial que amo, cheio de reviravoltas que devem surpreender o público e mantê-lo ligado. Na Itália, estreou em Veneza, com sucesso de crítica. Foi muito bem nos cinemas, mas poderia ter ido melhor. Estreou em dezembro, e a combinação frio e Natal não é a melhor para colocar as pessoas nas salas.”

Andò admite que deu plena liberdade à imaginação. “O letreiro final informa o que ocorreu com alguns dos implicados reais, mas eu fantasiei sobre um certo mafioso que se deu bem em seu país, o Brasil”, informa o diretor.

O repórter comenta que, justamente agora, Marco Bellocchio concorrer no Festival de Cannes com O Traidor, sobre um mafioso que se escondeu em São Paulo. Andò conhece a história? “Como não, Marco é um amigo e eu li o roteiro. Mais que isso – minha mulher foi fotógrafa de cena e comentava o trabalho comigo. Estou torcendo por ele (na Palma de Ouro).”

E o informante? Com o cuidado de evitar spoiler, o diretor observa. “Sua relação com Micaela é muito bonita, muito intensa. As revelações que se sucedem propiciam laços muito fortes, inesperados. Aqui, a minha homenagem não é ao cinema, mas à literatura. Esse personagem remete a um amigo querido (Leonardo) Sciascia. Seus romances foram sempre inspiradores para mim, como cidadão, pela voltagem política, e como escritor e cineasta por sua riqueza estrutural e de linguagem. E Leonardo conhecia a Sicília, desde o interior, como poucos. Faz falta (morreu em 1989).”

No original, em italiano, o título é Una Storia Senza Nome. Parece uma coisa abstrata, Uma História sem Nome (sem título?). “A ideia era justamente abrir para as múltiplas possibilidades de investigação, porque o caso, embora resolvido, ainda possui áreas nebulosas.” 

O Caravaggio Roubado não é muito factual? “Sem dúvida, mas o nome Máfia atrai o público em todo o mundo. Nesse caso, a história tem nome, não creio que seja apelativo.” Micaela? “Esse é meu primeiro filme com ela. Una brava donna. Nesse momento de afirmação das mulheres, ela cria uma personagem, cuja aparente fraqueza, o amor pelo escritor, revela-se a sua força.

O filme também é sobre a força das mulheres. A mãe é outra atriz maravilhosa, Laura Morante, mas você sabe disso, não?”

E Jerzy Skolimowski? “Queria que o diretor do filme dentro do filme fosse um vero regista. Conheço Jerzy do festival de Veneza. Ele gostou do papel e fez um diretor melhor do que consigo ser”, acrescenta Roberto Andò.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.