O Carandiru sem ficção

Quatro anos depois do massacre do Carandiru (1992) e três antes de Drauzio Varella dar voz aos presos em seu livro sobre a Casa de Detenção (1999), o cineasta paulista Paulo Sacramento se interessou pelo maior presídio da América Latina. Sentiu curiosidade de conhecer melhor aquele lugar que os telejornais retratavam de maneira superficial e sensacionalista. "Era um assunto tão presente e, ao mesmo tempo, tão ausente, que eu tive a idéia de fazer um documentário investigando como era de fato a rotina dos presos", contou ele. Assim nasceu O Prisioneiro da Grade de Ferro (auto-retratos), um dos destaques da competição brasileira do 8º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade. Sacramento começou a fazer o filme em 1996, usando inicialmente apenas recursos próprios. Como a tecnologia do vídeo ainda não permitia transferência para película com boa qualidade, optou por captar as imagens com uma câmera leve de bitola 16 mm. Reuniu uma equipe e foi a campo. Trabalhou durante quase um ano, tendo como referência um roteiro que, segundo ele mesmo, era "quase uma tese antropológica". Gastou muito tempo e dinheiro para não usar nem um minuto desse material. Em 1998, com o surgimento e a popularização do Dogma, o manifesto estético dos cineastas nórdicos, liderado por Lars von Trier e Thomas Vinterberg, as possibilidades se ampliaram. "A transferência do vídeo para película havia melhorado bastante e se abriu uma nova forma de encarar o projeto", conta ele. Neste período, o filme começou a ganhar o formato que tem hoje, em que material da equipe de produção e dos próprios presos se misturam, formando um retrato que mostra a real dimensão do que era sobreviver naquele presídio. Nessa segunda fase, que começa em janeiro de 2001, Sacramento promoveu uma oficina de vídeo para os presos, selecionando candidatos de quase todos os pavilhões. Ensinou a eles noções básicas de cinema, pediu que pensassem em projetos viáveis, lhes emprestou câmeras digitais e os ajudou a dar forma às suas idéias. Enquanto isso, registrou todo o processo e fez as próprias imagens, entrevistando presos e investigando aspectos da vida no cárcere pouco conhecidos. Tudo isso resultou em 170 horas de material, das quais saiu o documentário que ele agora apresenta.Leia a íntegra da matéria no site do Estado

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