O Brasil está em cartaz

Quem consulta os jornais, para conferir a atual grade de programação dos cinemas de sua cidade, pode notar uma coincidência peculiar entre os filmes nacionais em cartaz, isto é, Eu Tu Eles, de Andrucha Waddington, O Auto da Compadecida, de Guel Arraes e Quase Nada, de Sérgio Rezende, são produções que têm como pano de fundo, e tema central de suas histórias, o Brasil e seu povo.Felizmente, e ao contrário do que já ocorreu no passado, esses filmes têm a virtude de fugir de estereótipos e mostrar na tela o povo real, seja no sertão nordestino ou no interior do Sudeste: "Quem pensar em atender a demanda de estereótipos (do mercado estrangeiro) nunca será capaz de se ver e ao seu povo. Não estou falando aqui de cátedra. Vejamos os exemplos: quanto mais simples é um filme, quanto mais íntima é uma revelação autoral, seja a peça artística que for, mais universal ela tem sido e continuará sendo", sentencia o crítico de cinema Leon Cakoff, um entusiasta desta recente leva de filmes brasileiros.Apesar da semelhança na motivação dos filmes, cada um deles consegue um resultado bem distinto dos demais. Assim, em Eu Tu Eles, a vida do povo da caatinga e principalmente seus costumes e maneira de pensar são retratados por meio da história inusitada de uma mulher que vive com três maridos na mesma casa. A veia cômica, que funciona apenas como um tempero em Eu Tu Eles, torna-se o leme de atuação em O Auto da Compadecida, filme que narra a história de dois "malandros" nordestinos, a partir do texto homônimo para o teatro, de Ariano Suassuna. Aqui também, o jeito de ser e as crendices populares dão força à história e ganham cores reais na interpretação de Matheus Nachtergaele e Selton Mello. Finalmente, Quase Nada é um filme que aborda, com um olhar mais dramático, a cultura do interior paulista e carioca, enfocando diferentes personagens e histórias, que buscam mostrar ao espectador como se comporta esta sociedade.Alguém poderia estranhar a coincidência entre as temáticas e até o período de exibição destes filmes. Mas o crítico de cinema Leon Cakoff desfaz qualquer dúvida a respeito: "Acho que em todas as culturas, quando aumenta o cerco, a reação dos seus elementos é se refugiar em suas origens. É este fenômeno de fluxo e refluxo na história do cinema que mais nos encanta". E completa: "Com as crises econômicas, e isto afeta o nosso País, a cultura em geral é sacrificada diante da necessidade de se consumir bens mais prioritários. Por isso, nas crises, os povos não gostam de se enxergar. Se ocorre um fenômeno de reversão no momento brasileiro, vamos interpretar isso como um dado muito positivo".Portanto, nem tudo está perdido. Cakoff afirma inclusive que a iniciativa por trás de O Auto da Compadecida - ou seja, a participação das redes de televisão na produção de filmes para a telona - é a saída para o cinema, tanto nacional, quanto mundial uma vez que permite barateamento de custos e tem um potencial de público maior.Entretanto, o crítico alerta para a incompatibilidade da política cultural do governo em relação a essa alternativa: "É injusto que a legislação brasileira seja tão frouxa a ponto de deixar as televisões ignorarem o destino do cinema, não serem parceiras permanentes. O cinema europeu é tão abundante graças a leis que obrigam a investir parte - há casos de 5% - do que arrecadam com assinantes e publicidade em co-produções de filmes. E isto é muito bom para a televisão, como se prova, pois ela está adiantando dinheiro para os filmes que em breve comporão a sua programação".

Agencia Estado,

22 de outubro de 2000 | 19h25

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