´O Bandido Giuliano´, o melhor de Rosi

Francesco Rosi é um mestre na arte de representar a História no cinema. E essa arte atinge o ápice em O Bandido Giuliano, filme de 1962. Os ingredientes todos estavam lá, dados: um personagem real, uma época convulsiva, eventos emblemáticos do modo de funcionamento do mundo das coisas e dos homens. O homem é Salvatore Giuliano, bandido siciliano que se esconde nas montanhas por ter matado um policial. A época é da liberação da Sicília, no final da guerra. Grupos separatistas acham que o momento é propício para agir e resolvem cooptar Giuliano. Este luta lado a lado com os separatistas, o movimento não prospera e fica isolado. Há depois o episódio sangrento de Portella della Ginestra, em que homens, mulheres e crianças, reunidos num comício pró-comunista foram baleados e mortos pelos homens de Giuliano. Tudo isso é reconstituído por Rosi, mas não de maneira convencional. Tudo é impactante mas também anticlimático. No começo já se vê o corpo de Giuliano, baleado num pátio de Montelepre. A história é reconstituída em flash-backs. Vai-se ao passado a partir das imagens do presente. Exatamente como faz qualquer historiador. A partir das imagens desse corpo, morto em julho de 1950, Rosi reconstrói os fatos da história recente da Sicília. E o que aparece nessa história? De modo nu e cru, um povo que sai da guerra ainda mais empobrecido do que quando havia entrado. O subdesenvolvimento no sul da Itália era uma triste realidade (a questão meridional, diziam os italianos do norte). A maior parte da população era pobre e analfabeta, mas os barões da terra eram ricos. Nesse meio, Giuliano passa de bandido a herói. Uma pessoa do povo resume a imagem que se faz dele: rouba dos ricos e dá aos pobres. Essa parece uma constante universal, em torno do mito de Robin Hood. Vai de Giuliano a Lampião, acontece em qualquer favela carioca ou periferia paulistana, e motivou um estudo do historiador Eric Hobsbawm sobre o banditismo social. Giuliano é mito e como mito é observado por Rosi. Desconstruído, desmontado camada após camada, num processo cirúrgico implacável do ponto de vista conceitual e impecável, esteticamente. As seqüências progridem com o pathos de uma tragédia grega e a elegância de um teorema matemático. Giuliano é um bandido, um marginal tão comum que nem precisa ocupar a cena de um filme que tem seu nome. De fato, pouco vemos dele durante a ação. Além do corpo morto, ele é visto de costas, ou de perfil, em cenas rápidas. Giuliano é uma ausência, um vazio, ou melhor, um emaranhado de significados. Em torno dele se organizam interesses, em especial os das classes dominantes. Quando se vê o filme não se consegue esquecer que a Sicília é a terra de Giuseppe Tommasi di Lampedusa, a terra de O Leopardo. Aquela em que tudo deve mudar para que tudo continue na mesma, conforme ensina Tancredi, o sobrinho do príncipe Salinas no romance de Lampedusa. É também aquela terra velha demais para se abrir as mudanças reais, como afirma o mesmo livro. Lá, um zé-ninguém como Giuliano pode ser usado para uma luta separatista e descartado quando ela acaba não dando certo. Há os separatistas, mas há também a máfia e os políticos. Todos, de uma maneira ou de outra, comprometidos e imbricados uns com os outros. Um sistema corrupto e inexorável. Aliás, os mesmos temas estão em O Contexto, título de um livro de outro siciliano genial, Leonardo Sciascia. Em sua intuição confusa, mas não totalmente desprovida de razão, o homem simples acerta em ver em Giuliano o seu herói. Não porque o bandido seja um Robin Hood sincero ou tenha qualquer veleidade de resgatar os miseráveis do seu destino. Nada há de convencionalmente político em Giuliano. Política é a situação em que ele surge, torna-se útil, depois descartável e finalmente incômoda. E grande é a arte de Rosi, que expõe a estrutura dessa luta pelo poder com todos os seus detalhes, em toda a sua dureza e com sua espantosa e paradoxal beleza.

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