"O Auto da Compadecida" vira filme

Adaptar a peça O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, para a televisão era um antigo desejo do diretor Guel Arraes. A cúpula da Rede Globo aprovou o projeto para que a peça fosse transformada em minissérie. O trabalho foi filmado em película com uma câmera 35 mm, sugestão de Daniel Filho. Secretamente, Guel foi amadurecendo a idéia de transformar a série em um longa-metragem. Depois de editar o trabalho para a versão televisiva, montou uma nova versão para o cinema que mostrou apenas para os amigos.Em 1999, quando foi ao ar, a minissérie fez bastante sucesso. Apesar disso, Guel demorou para conseguir negociar a história para o cinema. Marluce Dias, da Rede Globo, gostou da idéia do diretor e emprestou o dinheiro que faltava. Agora, mais um sonho de Guel Arraes está se concretizando. O Auto da Compadecida chega às telas do cinema trazendo o mesmo material da minissérie exibida na tevê, mas em formato reduzido. Serão lançadas mais de 90 cópias em todo o Brasil, exceto no Sul do País.A série custou R$ 2 milhões e foram necessários mais R$ 400 mil para a transformação em longa-metragem. Guel Arraes adorou a experiência de uma produção de TV poder ser utilizada também no cinema ."Para mim, essa tabelinha é o ideal. A televisão permite que você tenha mais trabalhos, diferente de fazer cinema, por isso seria ótimo poder juntar sempre o útil ao agradável", conta. Guel está esperando a estréia do filme para sentir a recepção do público. Se tudo der certo, a série A Invenção do Brasil, exibida esse ano na Globo, deve ser a próxima a virar filme.A peça O Auto Compadecida foi escrita em 1955 e encenada pela primeira vez no Recife, em setembro de 1956. Para o cinema foi adaptada primeiramente pelo cineasta George Jonas, em 1969. Em 1987, Os Trapalhões também fizeram um filme. A história narra as aventuras de dois amigos, João Grilo e Chicó. O primeiro é esperto e o segundo medroso. Mas os dois usam a mentira como um meio de sobrevivência. Depois de enganar o bispo, o padre e seus patrões do vilarejo de Taperoá, Grilo tenta enganar também o líder de um bando de cangaceiros. Sua artimanha quase dá certo mas ele acaba morrendo junto com todas as pessoas que enganou. Chegando no purgatório, Grilo convoca Nossa Senhora para tentar se safar do inferno, já que o Diabo quer levá-lo. Ariano Suassuna aprovou a adaptação de Guel Arraes, tanto a do cinema como a da televisão. O teatrólogo é conhecido por sua exigência mas sempre confiou no talento de Guel para fazer uma nova adaptação. "O Ariano me conhece desde garoto. Há uns dez anos comentei que gostaria de fazer o Auto. Ele me disse "está reservada, é sua". O que parecia uma brincadeira de nordestino acabou sendo verdade", contou o diretor.Guel Arraes acrescentou personagens e histórias que não fazem parte do texto original. Foram utilizados também trechos de outras peças de Ariano Suassuna como Torturas de um Coração, O Santo e a Porca e A Farsa da Boa Preguiça. O elenco traz grandes nomes como: Marco Nanini (Severino), Fernanda Montenegro (Nossa Senhora, a Compadecida), Diogo Vilela (Padeiro), Rogério Cardoso (Padre João), Paulo Goulart (Major Antônio Moraes), Luís Melo (Diabo), Lima Duarte (Bispo), Denise Fraga (Dora), Maurício Gonçalves (Jesus Cristo), entre outros. Coube a Matheus Nachtergaele e Selton Mello personificarem a dupla de protagonistas, João Grilo e Chicó respectivamente. A interpretação de Matheus o consagrou como um dos melhores atores de sua geração. "Uma das minhas preocupações era que o João Grilo fosse um super-comediante e tivesse um típico físico específico. Ele tinha que ser franzino, não podia ser forte. O Matheus foi a salvação da lavoura", confessou Guel Arraes.O Auto da Compadecida é uma das peças mais encenadas no Brasil. A versão para a televisão agradou a um público muito abrangente, inclusive às crianças. Guel Arraes acredita que o público do cinema será composto pelas pessoas que perderam algum capítulo ou mesmo àquelas que querem ver de novo. Para o diretor, o texto de Ariano Suassuna atrai público em todos os formatos. "A peça tem uma enfoque muito popular. Por isso, ela funciona muito bem na televisão, no cinema, em todos os veículos de massa".

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