O ator Ralph Fiennes conta sobre a filmagem

Ao contrário do que o próprio Fernando Meirelles conta, Ralph Fiennes nega que tivesse poder de veto sobre o nome do diretor em O Jardineiro Fiel. "Não vi o caso desta maneira", explicou numa entrevista realizada no Rio, no Hotel Le Meridien. "Quando o produtor Simon Channing Williams me anunciou que poderíamos mudar de diretor, nem me passou pela cabeça impor qualquer tipo de condição ou restrição a Fernando. Ele é o diretor de City of God (Cidade de Deus). O que mais poderia querer?" O mais curioso é que o diretor originalmente apontado para adaptar o livro de John Le Carré, Mike Newell, assina o outro filme com Ralph Fiennes (pronuncia-se Reif Fáines) que estréia em novembro, Harry Potter e o Cálice de Fogo. Depois da belíssima história de amor de Fim de Caso, que Neil Jordan adaptou do romance de Graham Greene, Fiennes encarna outro herói romântico. Para ele, O Jardineiro Fiel é o que se pode definir como "caso de amor retrospectivo". Justin Quayle, o diplomata que interpreta, só descobre o quanto amava a mulher, Tessa - e também o quanto ela retribuía esse amor -, ao perdê-la. Tessa quer denunciar, por meio de uma ONG, as atividades criminosas de um grande laboratório na África. Ela é assassinada.O crime vem acompanhado de uma sugestão para desestabilizar o marido - Tessa estaria tendo um caso com o motorista do carro em que viajava. Tudo isso é muito traumático para Justin, mas, ao descobrir a verdade sobre a mulher, Justin leva adiante sua luta, mesmo com risco da própria vida. São dois filmes em um, diz o ator. "Há de um lado o suspense político sobre corrupção, desonestidade e manipulação corporativa. E há a história da relação entre Justin e Tessa e as descobertas que ele faz após a morte da mulher. As duas pontas da narrativa são igualmente importantes e conferem ao filme a sua densidade." A denúncia das grandes corporações e da indústria farmacêutica que usam os pobres da África como cobaias calaram fundo no ator, que acredita na responsabilidade social do artista. "Na vida, vivemos sempre fazendo escolhas. Tento pautar as minhas pela ética. Faço os filmes nos quais acredito." O próprio Meirelles acreditava haver feito um filme comercial de boa qualidade e, por isso, surpreendeu-se com o tratamento nobre dado pela crítica a O Jardineiro Fiel."Os críticos puseram o filme em outro compartimento", disse o diretor. Fiennes não sabe o que acrescentar - "Quanto mais eu filmo, menos consigo antecipar a reação do público. No caso de O Cálice de Fogo, posso prever que será um sucesso, mas, no geral, o desempenho de um filme na bilheteria é sempre uma incógnita para mim. Não sei o que as pessoas gostam nem por quê. Faço minhas escolhas e não me preocupo com o resto." Seus filmes não são do tipo que arrebentam a bilheteria, mas nada disso arranha seu prestígio como intérprete. Ele sabe. Mais difícil é explicar seu método de trabalho. "Quando leio o roteiro, sei o que me estimula e o que poderei fazer. No caso de O Jardineiro Fiel, tivemos uma temporada de ensaios com o Fernando, que me deram segurança sobre o personagem e o enfoque dele." Na hora de filmar, Fiennes não gosta de chegar excessivamente preparado ao set. Tenta manter a cabeça fresca. Ocorre de filmar uma cena e, mais tarde, pensar nela, chegando à conclusão de que poderia ter feito diferente. "Um certo número de repetição de takes é sempre normal, mas os produtores e diretores não gostam de voltar atrás, porque isso encarece e atrasa o cronograma de produção." Lembra que Rachel Weisz, que faz Tessa, insistiu tanto em repetir uma cena que quase levou Meirelles e Simon Channing Williams à loucura. "Ela não sossegou enquanto não repetiu a cena filmada dias antes. Não é sempre que isso acontece. "Fiennes admite a química com Rachel. "Funcionamos muito bem como dupla." Conta que Meirelles lhe forneceu alguns materiais para a preparação do personagem, incluindo o programa Dying for Drugs, da TV britânica, que foi sua Bíblia. "O programa do Channel 4 detalha as práticas da indústria farmacêutica nos países em desenvolvimento." Fiennes conta que ouviu histórias de arrepiar, que fortaleceram nele a entrega ao personagem e ao filme. A África o impressiona. "Já havia filmado lá O Paciente Inglês, mas o Quênia é especial, com suas belas paisagens e aquela pobreza toda concentrada no bairro de Kibera, em Nairóbi." Irmão de ator (Joseph Fiennes) e de diretora (Martha Fiennes), ele credita aos pais, um escritor e uma fotógrafa, esse talento da família para as artes. "Sempre nos estimularam a buscar uma forma de expressão." Adorou fazer Paixão Perdida, baseado em Eugene Onegin, de Púchikin, sob a direção de Martha, quando conversou pelo telefone com o repórter do Estado. "Ah, era você!", exclama. Havia descoberto o personagem quando ainda era estudante de arte dramática. Eugene Onegin o toca muito. Fez outro filme com Martha, Chromotherapy. "Foi mais discutido. Há quem goste muito e há quem odeie. Eu gosto." Às vezes se cansa de só lhe oferecerem papéis de homens atormentados, mas adora os heróis românticos de O Paciente Inglês e Fim de Caso. Está mais próximo deles do que do nazista de A Lista de Schindler, embora, ´in the end of the day´ (no final de tudo), como diz, ele acredite que o ator trabalha mais com a imaginação do que com suas experiências pessoais ao interpretar. O vilão do filme de Spielberg representa o mal. "Não é difícil de fazer, só é preciso ter o cuidado de não exagerar", diz Fiennes. Faz agora outra representação do mal em Harry Potter e o Cálice de Fogo,o mais recente exemplar da série com o pequeno bruxo. Ainda não viu o filme adaptado do livro famoso de J.K. Rowling. Assistiu apenas às cenas com seu personagem. "É bem assustador", confidencia, mas isso você terá de esperar até o fim de novembro para conferir.

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