"O Assalto" é filme noir modernizado

O amor pelo ouro é o que faz girar o mundo. Todos precisam de dinheiro. Amarguras como essas ardem na boca dos personagens de O Assalto (Heist), o nono filme escrito e dirigido pelo cineasta e dramaturgo David Mamet, que finalmente chega hoje ao circuito brasileiro. Podem soar como frase de efeito, mas no contexto criado pelo seu autor, surgem tão naturais quanto filosofias baratas numa conversa de bar. Essa é uma das grandes qualidades do diretor de 54 anos, que trouxe para os roteiros de cinema a solidez e a fluidez do texto do bom teatro, já comprovado em filmes como Os Intocáveis (roteiro), As Coisas Mudam, e Homicídio, só para começar uma longa lista de sucessos."Escrever diálogos nunca foi um mistério para mim. Escrevo com muita facilidade tanto para teatro quanto para cinema. É uma espécie de dom. Em cinema, sempre tive mais dificuldade em desenvolver tramas, porque elas exigem que você deixe o espectador surpreso e satisfeito com a possibilidade da antecipação, ao mesmo tempo", explica o sempre articulado Mamet ao Estado.A regra tem valido tanto para dramas de época, como Cadete Winslow, quanto para comédias contemporâneas, como State and Main. No caso de O Assalto, ela é aplicada ao film noir, gênero que fez a glória de Hollywood nos anos 40 e 50, inspirada particularmente pelos tough movies produzidos pela Warner Brothers, filmes sobre gângsteres e mafiosos que ajudaram a pavimentar carreiras de astros como Humphrey Bogart e James Cagney. Aqui, no entanto, a categoria ganha uma releitura moderna, colorida ("seria quase impossível encontrar um exibidor para um filme em preto-e-branco, como os noir originais"), protagonizada por durões atuais, Gene Hackman e Danny DeVito. A premissa básica daquelas produções, a do herói solitário cujo ideal é sustentado pelo amor ao dinheiro, permanece intacta."Aparentemente, os filmes de gângsteres são fundamentados no funcionamento de um determinado código. Às vezes, são os códigos de honra que regem o relacionamento entre os ladrões; outras, são as leis aplicadas contra os criminosos. Os film noir, por outro lado, contam histórias de homens que perambulam em um mundo sem um código de comportamento, no qual ele só pode confiar na própria força ou na própria inteligência. É um gênero cinematográfico típico do pós-Guerra, no sentido de que ele assume o lado corrupto e a duplicidade existente em todos", diz o diretor.Mamet é fã do antigo gênero: "Ele contém a medida certa de violência e ironia", justifica. Diz que O Grande Golpe (1956), de Stanley Kubrick, é o seu preferido. Considera até que O Assalto possa ser a sua homenagem ao diretor que já morreu. Mas a única lembrança direta dos velhos filmes de gangsters que conseguiu manter foi a imagem em preto-e-branco do logotipo da Warner que antecede os créditos de abertura do filme. "Se eu quisesse fazer uma homenagem literal, teria de ir contra as imposições do mercado. Não sou louco a esta ponto", pondera. "Mais importante para mim era falar sobre um tema que me é muito caro: a lealdade. Não há nada mais gratificante no mundo do que contar com a lealdade de alguém. Honra e lealdade são material raros na sociedade de hoje em dia, tanto no submundo quanto em qualquer outra camada dela. Não há nada pior do que ser traído. É sobre isso, basicamente, de que trata O Assalto", indica.O filme também pode ser entendido como um ensaio sobre os escrúpulos dos escroques. O centro da trama é Joe Moore (Hackman), velho mestre na arte de se apropriar da riqueza alheia, mas sempre com um mínimo de violência. É o cérebro atrás de planos caros e espetaculares, confiados a parceiros de longa data (Delroy Lindo e Ricky Jay) e à mulher (Rebecca Pdgeon, a senhora Mamet). Moore é o mais cool dos ladrões de casaca, tão cool que, quando dorme, são as ovelhinhas que o contam, como diz um de seus parceiros. Ele sonha com a aposentadoria, viajar com a mulher no veleiro decorado com peças de ouro para uma ilha tropical. A pedra no caminho de seu projeto de vida é Bergman (DeVito), o patrocinador de seus assaltos, que, para liberar o financiamento do derradeiro serviço, exige um segundo mais arriscado, e ainda impõe a presença do sobrinho (Sam Rockwell) na operação.Moore é o tal herói solitário do noir, que age seguindo apenas seus impulsos e, eventualmente, geram conseqüências inesperadas, para o bem ou para o mal. "O que acontece aos personagens tem a ver com suas escolhas que, por sua vez, são orientadas segundo a ética de cada um", entende Mamet. "O Assalto também pode ser visto como um filme sobre opções. O que mantém a ação andando são os caminhos que Moore toma para conseguir o que quer, o dinheiro que financiará a sua aposentadoria, sem pensar na questão principal, ou seja, as conseqüências de suas ações".O ponto alto do filme é o assalto a um avião de carga que transporta um carregamento de ouro suíço. A ousada operação é descrita em mínimos detalhes técnicos, envolvendo várias reviravoltas estratégicas, que surpreendem tanto o inimigo quanto o espectador. Articular tais ações em forma de rede dramática é uma das fases mais trabalhosas, com Mamet já confessou. Mas o diretor que já montou peças mais complicadas no palco afirma que não precisou recorrer à ajuda de outras fontes. "Não costumo fazer pesquisas para desenvolver meus roteiros. Eu me fio em certas convenções. O importante é manter a atenção da platéia para o que vem a seguir, com a ajuda de imagens."

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