"O Americano Tranqüilo" fala dos EUA que tiram a paz do mundo

Há um momento muito forte em O Americano Tranqüilo, o filme que Phillip Noyce adaptou do romance de Graham Greene (e estréia hoje com 18 cópias em diversas capitais brasileiras e algumas salas do interior de São Paulo). É quando o assistente de Michael Caine diz ao repórter do London Times que, às vezes, para permanecer humano, é preciso agir. Esse homem é um comunista e a ação que ele cometerá mais tarde será decisiva não apenas no desenvolvimento da trama, mas também na afirmação desse humanismo. Isso situa O Americano Tranqüilo na contracorrente do cinema que Hollywood pratica hoje e que tem estado em sintonia com a era George W. Bush, principalmente após o ataque ao World Trade Center, no trágico 11 de setembro de 2001. Na segunda metade dos anos 1950, Joseph L. Mankiewicz adaptou o mesmo livro de Graham Greene. Mankiewicz, o cineasta da palavra, fez O Americano Tranqüilo no calor da hora. Seu filme, como o livro, refere-se a acontecimentos recentes daquela época, quando o Vietnã ainda era Indochina. Michael Redgrave era o jornalista inglês que diz que não toma partido - apenas relata os fatos - e Audie Murphy, o jovem americano que chega ao Vietnã cheio de boa vontade ou, pelo menos, assim parece, no momento em que os franceses estão sendo expulsos de Saigon. A própria escolha dos atores já revelava uma intenção de Mankiewicz: Michael Redgrave, o pai de Vanessa, grande nome do teatro e cinema ingleses. Murphy, o soldado americano mais condecorado na 2.ª Guerra Mundial e que foi catapultado por isso, e não pelo talento dramático, à condição de astro em Hollywood. Mankiewicz, como Greene, critica o neocolonialismo americano no Sudeste Asiático, mostra o que ocorre num mundo em que as paixões governam os atos políticos, mas em 1957 nem ele nem o escritor podiam prever o que seria o envolvimento dos EUA naquela região do mundo, nos anos seguintes. A década de 1960 assistiu ao progressivo envolvimento americano na Guerra do Vietnã - uma guerra que o Exército do império perdeu na realidade e Hollywood venceu na ficção, por meio das aventuras de heróis como os interpretados por Sylvester Stallone e Chuck Norris, nas séries com Rambo e Braddock. Noyce realiza seu filme com um distanciamento crítico impossível para Mankiewicz. Há uma espécie de epílogo, na sua versão, que mostra justamente a escalada dos EUA no Vietnã, naqueles anos de fogo. A guerra, o direito de intervenção dos americanos nos outros países, fornece a discussão no filme de Noyce. Nada mais atual, neste momento em que o presidente Bush enfrenta a oposição mundial por sua disposição de ir à guerra contra o Iraque (em parte por causa do terrorismo que Saddam Hussein apoiaria, mas também e principalmente por causa do petróleo, no que é rico o país). O jovem americano interpretado por Brendan Fraser - o Indiana Jones dos pobres da série A Múmia - chega a Saigon em missão aparentemente humanitária. Na verdade, é um homem de uma nova agência do governo dos EUA, que estava sendo implantada, a CIA. Não é um grande filme e até nem é tão difícil de demolir, pois tem os defeitos comuns a boa parte da produção hollywoodiana espetacular. O próprio triângulo formado por Caine, Fraser e a bela vietnamita por quem ambos estão apaixonados faz com que a estrutura romanesca volta e meia predomine sobre a política, criando certa ambigüidade no discurso do diretor. Mas há elementos que fazem a diferença em O Americano Tranqüilo. Michael Caine foi indicado para o Oscar de melhor ator e está realmente muito bem. Duas vezes vencedor do prêmio de melhor coadjuvante - por Hannah e Suas Irmãs, de Woody Allen, e Regras da Vida, de Lasse Hallstrom -, Caine está realmente muito bem no papel, mas enfrenta concorrentes de peso na disputa pelo prêmio da academia na categoria principal. Nicolas Cage (Adaptação), Daniel Day-Lewis (Gangues de Nova York) e Jack Nicholson (As Confissões de Schmidt) são pesos pesados em Hollywood. Adrian Brody, que talvez seja o azarão, tem a credenciá-lo o César de melhor ator que recebeu, no sábado passado, por O Pianista, de Roman Polanski. Michael Caine faz a diferença, num filme que já é diferente por ir contra o sentimento guerreiro que contamina a América atual. Mas o que realmente diferencia O Americano Tranqüilo na própria produção do diretor Noyce é outro detalhe, nem um pouco irrelevante. Diretor australiano integrado à máquina do cinemão, Noyce celebrou Harrison Ford no papel do agente Jack Ryan, da CIA, em dois filmes: Jogos Patrióticos e Perigo Real e Imediato. Nem tudo está perdido. Ele dá agora a marcha à ré e discute justamente a CIA e seu papel no intervencionismo americano. Cita o caso do Vietnã, poderia citar o Chile de Salvador Allende e quantos países mais? Com todos os defeitos que possa ter, O Americano Tranqüilo faz pensar.

Agencia Estado,

28 de fevereiro de 2003 | 13h46

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