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O alemão 'Kreuzweg' tem chance de se tornar vencedor

A história de uma garota criada numa família de fundamentalistas cristãos

Luiz Carlos Merten, Enviado Especial a Berlim - O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2014 | 02h07

Surgiu mais um bom concorrente da Alemanha - Kreuzweg, As Estações da Cruz, de Dietrich Brüggemann. O filme é sobre uma garota criada numa família de fundamentalistas cristãos. Na cena de abertura, ela integra grupo que participa de uma aula de catecismo. O padre, jovem, acredita no que diz, mas são coisas absurdas - demoniza a Igreja Católica e o rock, vê a tentação do diabo em tudo. A menina tem um irmão que está sendo diagnosticado como autista, mas o público sabe disso mais tarde. Ela pergunta ao padre se pode doar sua vida para salvar a de outro. A partir daí, a vida da garota se identifica com a do próprio Cristo. Seguimos as 12 estações do seu calvário, acrescidas de mais duas.

O que deu nesses alemães que, de repente, (re)aprenderam a filmar tão bem? A construção dos personagens e as interpretações são brilhantes - a garota, o padre, a mãe -, a câmera é parada e o plano dura o tempo de cada uma das estações da via-crúcis da protagonista. Tanto virtuosismo na elaboração dos planos sequências talvez tenha seu preço. A metaforização da trajetória de Maria - é seu nome, transformada em estações da cruz, talvez seja excessiva, mas os aplausos que o filme recebeu no final da sessão para a imprensa dão conta de que a Alemanha pode estar cravando, após o belo Jack, de Edward Berger, outro candidato aos prêmios.

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Uma curiosidade: o ator que faz o padre que vê pecado em tudo é o pecador de ontem, o talentoso Florian Stetter é o poeta Schiller, que vive o intenso triângulo com as queridas irmãs (Die geliebten Schwestern) do filme de Dominik Graf. Mudando de filme, mas permanecendo na competição, quem vive comparando o cinema brasileiro ao argentino - para concluir que o outro é melhor - vai ter de recuar. Historia del Miedo, de Benjamín Naishtat, até que começa interessante. Pequenos incidentes isolados que vão construindo um clima não apenas de insegurança, como de tensão social. Mas bastam dez ou 15 minutos para que o espectador brasileiro, o cinéfilo que viu O Som ao Redor, se dê conta de que o filme de Naishtat tem similaridades demais com o de Kléber Mendonça Filho. Os apartamentos bem localizados, o condomínio fechado, a invasão da periferia, até os fogos de artifício - tudo é tão parecido que o filme poderia se chamar 'El Sonido Alrededor'. Mas não é tão bom. A construção dramática é falha e não tem o rigor da do filme brasileiro. Agora, após a jornada Lars von Trier, o negócio é esperar por Alain Resnais. A sessão de imprensa de Amar, Beber, Cantar foi no domingo à noite. Nesta segunda-feira, Sabine Azéma e Sandrine Kiberlain fazem o tapete vermelho. Resnais - velhinho, 91 anos - ficou em Paris, preparando o próximo filme. Isso, sim, é disposição. 

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