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'O Abutre', estreia de Daniel Gilroy na direção, discute a ética da imprensa

No filme, Jake Gyllenhaal cria com convicção o personagem sinistro Lou e é favorito para o Globo de Ouro e também para o Oscar

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

30 Dezembro 2014 | 03h00

Dan, Johnny, Tony – toda a família Gilroy se faz presente em O Abutre, que marca a estreia na direção de Daniel (Dan) Gilroy. O irmão Tony produz e o outro irmão, John, assina a montagem. A relação de parentesco vai além. Dan é casado com Rene Russo e oferece à mulher o papel de sua maturidade como atriz. Rene era bela e sexy formando dupla com Mel Gibson na série Máquina Mortífera, mesmo que, lá, a dupla de verdade fosse formada por Mel e Danny Glover.

Com o tempo, Rene foi sendo deslocada para os papéis de coadjuvante – a mãe de Thor e Loki. Ela é forte agora como diretora de jornalismo de uma emissora de TV que aposta em sangue e violência para faturar alguns pontos no ibope. 

Rene impressiona em O Abutre, mas o filme é dominado pela presença de Jake Gyllenhaal. Ele já foi indicado para o Globo de Ouro como melhor ator de drama, pelo papel. Em todas as listas de prognósticos, é um dos cinco favoritos também para o Oscar da Academia.

Quando o filme começa, Jake, como Lou, é um mero ladrãozinho. Rouba cobre para vender. Torna-se agressivo. Meio por acaso, ao parar na freeway para ver as vítimas de um acidente, ele descobre sua vocação. Lou fica fascinado com o cinegrafista que documenta aquelas imagens. Resolve investir numa ‘carreira’. Compra câmera, arranja um assistente. Tendo feito um curso na internet, Lou repete metas, que transforma em palavras de ordem. E não tem nenhum limite ético. Se antes roubava, agora não tem pudor em deslocar um cadáver para melhorar a cena do crime, ou invadir as casas das ocorrências. Num galopante de ambição e comportamento antiético, provoca acidente com o concorrente, atrai o próprio funcionário a uma cilada e chantageia a diretora de jornalismo, com a qual, e por status, também quer ir para a cama.

Em filmes nos quais colaborou como roteirista – Conduta de Risco e O Legado Bourne –, Dan Gilroy participou da visão desmistificadora do heroísmo de seu irmão Tony. Agora como diretor, Dan radicaliza. Lou, em O Abutre, é cria do Kirk Douglas de A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder, para citar um exemplo ilustre. Como filme, é muito bem feito e confronta o público com questões pertinentes sobre a ética da imprensa em tempos de internet. Mas não é agradável de ‘ver’. 

Jake Gyllenhaal passou por uma transformação física – e por isso está cotado para o Oscar. Magro, seus olhos parecem saltar na cara encovada, como se fossem extensões da câmera, uma ideia que Michelangelo Antonioni já utilizou em Blow-Up, Depois Daquele Beijo, com David Hemmings. Por desagradável que seja a experiência, é necessária. Gyllenhaal já disse que não faz filmes por prêmios. Mas admite que se os prêmios ajudam a atrair o público, tudo bem. A homossexualidade em O Segredo de Brokeback Mountain, a ética em O Abutre clamam por reflexão.

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