JOHNNY EGGITT/AFP
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Nunca faltaram papéis nem vilões para Christopher Lee

Ator que morreu neste domingo consagrou-se desde sua memorável série de Dráculas dos anos 1950 e 60

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

11 de junho de 2015 | 16h45

Cabelos esvoaçantes, olhos enlouquecidos, a imensa bata branca. Foi assim que Christopher Lee irrompeu no imaginário de toda uma nova geração de espectadores - como o o maléfico Saruman da série O Senhor dos Anéis, que o neozelandês Peter Jackson adaptou da saga mítica de JRR Tolkien. Saruman opunha-se ao Gandalf de Ian McKellen, os dois sires do império britânico, consagrados pela Rainha Elizabeth II. Na Terra-Média de Tolkien, Gandalf era o aliado de Frodo na sua jornada épica para destruir o anel. Saruman, pelo contrário, convocava todas as forças - e todos os exércitos - para impedir que isso ocorresse. Saruman veio numa etapa bem avançada da vida de Christopher Lee, quando ele já era considerado uma lenda do horror.

Christopher Lee detestava ser identificado assim. Dizia que lenda do horror, se alguma havia, era Boris Karloff e, antes dele, Bela Lugosi. Mas ele era do mesmo calibre, e bem antes do seu Saruman. Lee deve sua fama à memorável série de Dráculas que interpretou sob a direção de Terence Fisher na empresa britânica Hammer, nos anos 1950 e 60. Já entronizado como ícone do horror, foi vilão na série James Bond e teve, como o Conde Dookan, uma passagem, por outra série pop - Star Wars. Lee dizia que só tinha um desejo na vida. Nunca parar de trabalhar. Mais que um ofício, ser ator era o seu prazer. A aposentadoria, achava, seria fatal. Christopher Lee chegou bem perto de concretizar seu desejo. Nos últimos tempos, ele andava debilitado e teve de abrir mão de algumas participações em filmes. No domingo, 7, morreu num hospital de Londres, onde estava há três semanas, recuperando-se de complicações respiratórias e cardíacas. Tinha 93 anos. O anúncio foi feito somente nesta quinta-feira, 11, pela família, para garantir a privacidade dos ritos fúnebres.

No biênio 1939/40, foi voluntário em apoio ao exército Finlandês durante a chamada Guerra de Inverno, contra a antiga URSS. Chegou a ser condecorado. Em meados dos anos 1950, já era um ator conhecido na Inglaterra, mas a popularidade aumentou muito a partir da asssociação com o diretor Terence Fisher. Com ele, ou para ele, Lee interpretou o príncipe das trevas numa série de adaptações de Drácula, de Bram Stocker. Vale refletir um pouco sobre aqueles filmes. Nos anos 1940, o produtor norte-americano Val Lewton fizera escola com uma série de filmes em que o horror era apenas sugerido. Após a 2.ª Guerra e a descoberta do horror nazista, o gênero, para funcionar, nmecessitava mais do que apenas sugestão. A Hammer iniciou umas revolução incorporando cor e sexo aos filmes. Com a cor, veio o vermelho do sangue e a intensificação do sexo deu contornos mais explícitos ao subtexto erótico do ato de sugare o sangue e cravar os caninos no pescoço das vítimas.

Foram muitas as vezes em que Christopher Lee interpretou Drácula em filmes de Terence Fisher, sempre, ou quase sempre, caçado pelo implacável Van Helsing e quem fazia o papel também era sempre o mesmo ator, Peter Cushing. Transformado em 'lenda do horror', Lee diversificou os personagens - fez A Múmia e uma bela, também de Fisher, versão de O Cão dos Baskervilles, uma das mais famosas aventuras de Sherlock Holmes, criadas pelo escritor Arthur Conan Doyle. Embora fosse primo de outro escritor, Ian Fleming, não foi o parentesco que o levou a ser chamado para fazer um dos mais notórios vilões da série James Bond, Scaramanga (em 007 Contra o Homem da Pistola de Ouro, de 1974). Ao se opor a Roger Moore, Lee já era há muito consdiderado a personificação do mal.

Nunca lhe faltaram papéis - nem vilões. Foi Richelieu nos Três Mosqueteiros de Richard Lester e teve papel destacado no antológico Star Trek - A Ira de Khan. Em 2001, foi nomeado Comandante da Ordem do Império Britânico por seu trabalho de ator. Em 2009, foi feito Cavaleiro. Em 2011, ganhou um Bafta honorário por sua carreira. O Bafta é o Oscar inglês. Consagrado, mitificado, Christopher Lee dizia detestar ser um ídolo. Mas queria, até o fim, ser ator. Pense nele e virão todos aqueles personagens. E o detalhe é que Christopher Lee também cantava. Gravou vários discos e, já nos anos 2000, foi para o hit parade dos EUA. Fez história como o mais velho cantor a liderar as paradas. Claro que não poderia ser nada banal. A música, Jingle Hell, era uma paródia do natalino Jingle Bell. 

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