Palari Films
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'Num contexto ditatorial, a noção de bem e mal é maniqueísta', diz o diretor Edwin

Vencedor no festival de Locarno, cineasta indonésio conta como crescer numa ditadura inspirou seus filmes

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estadão

19 de agosto de 2021 | 16h25

Integrante de uma geração de artistas que nasceu em uma Indonésia controlada por uma ditadura militar, o cineasta Edwin, diretor de 43 anos que conquistou o Leopardo de Ouro no 74º Festival de Locarno, cresceu às voltas com filmes de artes marciais. Não adianta perguntar seu sobrenome, pois em Surabaya, onde ele nasceu, é comum os artistas assinarem suas obras só com uma palavra. Em uma conversa com o Estadão, na cidade suíça que hospeda uma das mais prestigiadas mostras competitivas do cinema mundial, ele diz que “a assinatura que mais conta é a estética, e esta é um reflexo de nossas andanças por narrativas, ficcionais e documentais”. Por isso, o divertido Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash, que deu a ele o troféu mais disputado de Locarno, é um somatório de suas recordações sobre mulheres guerreiras, jovens espadachins e mestres de kung fu. 

“A televisão fez da cultura popular dos anos 1980 e 90 uma fixação, um fetiche. Essa cultura tinha chance de escapar do crivo dos censores, por ser considerada imune à subversão. Era assim na Indonésia e acredito ter sido assim também no Brasil, pois vocês viveram sob um regime militar no mesmo tempo em que a gente. O cinema de Hong Kong estava ao nosso lado e também tínhamos filmes de luta. O ponto é que eu era criança nessa época e via as histórias de lutadoras e lutadores destemidos como a maior diversão da gente. Uma diversão que nos inspirava, pois todos esses filmes falavam de injustiças sociais, de pobres oprimidos. Havia um lado político nisso que a gente não entendia. A idade e a liberdade do meu país me deram um novo entendimento”, diz Edwin.

Baseado no livro homônimo de Eka Kurniawan, também roteirista, Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash espatifa toxicidades nas representações do masculino logo de cara, ao revelar que um de seus protagonistas, o feroz lutador Ajo Kawir (Marthino Lio), sofre de impotência sexual. Ninguém ganha de Kawir na briga, mas ele anda emocionalmente alquebrado por sua baixa de libido.

Sua reputação de mau é alimentada por serviços para um criminoso local, trabalhando como cobrador de dívidas ou mesmo como matador. Eis que, em um serviço, ele tromba com uma jovem igualmente furiosa e letal: Iteung (Ladya Cheryl). Os dois têm uma luta mortífera da qual Kawir sai todo quebrado, mas vencedor. Obcecado pela mulher que quase o derrotou, ele vai atrás dela e os dois se apaixonam e se casam, apesar de o problema dele persistir.

“Vivemos hoje uma onda de mulheres guerreiras no cinemão e a presença delas, mais do que necessária, está levando as narrativas pop para um outro lugar, inclusivo e menos machista. Mas seria importante que esse debate alcançasse também uma outra vertente do cinema, mais preocupada com questões estéticas e políticas”, disse Edwin, que rodou o filme com cerca de US$ 1 milhão, fruto de fundos de financiamento. “O ponto central aqui é discutir a ideia do heroísmo e mesmo do anti-heroísmo clássico, com figuras eticamente tortas”, diz Edwin. “Num contexto ditatorial, como foi o da Indonésia dos anos 1980 e 90, a noção de bem e de mal, de herói e de vilão, é totalmente maniqueísta, é opressor e oprimido. O que eu tentei fazer aqui foi dar um colorido sociológico”.

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