Paramount Pictures
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Novo 'Poderoso Chefão', que Coppola reeditou e melhorou, chega aos cinemas e plataformas

'O Poderoso Chefão – Desfecho: A Morte de Michael Corleone' é a terceira parte da saga da família Corleone revisitada 30 anos depois de seu fracasso; veja trailer e vídeo com Coppola

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

02 de dezembro de 2020 | 14h00

No início do ano, quando os estúdios Paramount anunciaram que o diretor Francis Ford Coppola retrabalharia o filme O Poderoso Chefão III, criou-se uma grande expectativa. Afinal, o longa rodado em 1990 é considerado o pior da trilogia sobre a família Corleone, muito aquém das duas primeiras partes que são obras-primas. Desde a pálida atuação da filha do diretor, Sofia Coppola (hoje, uma renomada cineasta), até o desfecho insatisfatório, o filme deixava a desejar.

Não mais – a partir desta quinta, 3, quando O Poderoso Chefão – Desfecho: A Morte de Michael Corleone estreia nas salas de cinema (e, no dia 8, chega às plataformas digitais NET NOW Claro, Sky, Apple TV, Google Play, Vivo, Oi, Xbox Video, PlayStation Store), Coppola não apenas recupera seu trabalho como finalmente oferece o longa que desejava. O próprio diretor, aliás, aparece antes do início da projeção, explicando suas escolhas. “Graças à gentileza da Paramount Pictures de me deixar revisitar este projeto, eu o reeditei e dei a ele um título que não é exatamente novo, mas é o título original”, comenta.

Coppola foi, na verdade, diplomático ao se referir à bondade do estúdio – a produção foi acidentada e a Paramount não aceitou que o longa tivesse como subtítulo A Morte de Michael Corleone, como desejavam Coppola e o roteirista Mario Puzo. O estúdio também ofereceu um salário minguado para Robert Duvall, excelente como o conselheiro da família Corleone, Tom Hagen – naquelas condições, o ator não aceitou participar do filme. Assim, era inevitável a fraca recepção (se comparada às sequências anteriores) e ao fracasso no Oscar: apesar de sete indicações, não venceu em nenhuma.

No título original, consta a palavra “coda” que, em português, se transformou em “desfecho”. “Em termos musicais, uma coda é uma espécie de desfecho. É um resumo. E era isso que gostaríamos que esse filme fosse. Você verá um filme com um começo diferente, um final diferente. Muitas cenas foram reposicionadas e penso que o filme ganhou uma nova vida. O que, de fato, serve para elucidar o que os dois primeiros filmes significaram”, continua o diretor, quase irreconhecível, pois está mais magro, com a barba grisalha.

De fato, comparada ao longa que estreou em 1990, a nova versão começa exatamente com a cena que, na anterior, surge quando já foram transcorridos 40 minutos de projeção. Com isso, Coppola foca precisamente na relação insidiosa entre o poder da Igreja e o dinheiro corrompido. Se, os minutos iniciais antes reforçavam a importância da família e da religião para os Corleone até chegar naquele ponto, o cineasta, que hoje está com 81 anos, torna a relação o ponto central da trama.

É curioso como Coppola não escondeu, ao longo dos anos, sua insatisfação com as decisões unilaterais do estúdio em relação ao título do filme e também com a forma com que a trama é inicialmente narrada – em comentários que figuram em versões em DVD de O Poderoso Chefão III, o diretor explicita sua decepção com a falta de liberdade criativa (“naquela época, meu poder de decisão estava em baixa”) e revela que pretendia iniciar a narrativa com a cena que ora figura na nova versão, “em que o arcebispo Gilday (Donal Donnelly) relata a Michael Corleone (Al Pacino) como o Vaticano teria se metido em dificuldades financeiras”.

Coppola conta que seu colaborador Walter Murch, porém, sugeriu que seria melhor tratar antes da vida familiar e particular e depois entrar nos negócios. “Ao invés de dizer ‘não é nada pessoal, são apenas negócios’, é como se dissesse ‘não são negócios, mas assuntos pessoais’, o que definiria melhor a postura de Don Corleone. Então, decidimos começar com a cerimônia em que Michael é condecorado pela Igreja pelas generosas doações.” 

Com o novo formato, o longa que, ao longo dos anos, foi criticado pelo desenvolvimento lento e que mais parecia uma recauchutagem de seus predecessores imaculados, ganhou mais agilidade e precisão. E, ao reposicionar a cena (que, de uma certa forma, remete ao início do pioneiro O Poderoso Chefão), Coppola acerta ao deixar às claras a intenção do mafioso: Michael está saldando a dívida da Igreja Católica para legitimar os negócios da família Corleone e, não à toa, se tornar um dos homens mais ricos do mundo. Por ser um filme pródigo em excelentes diálogos, a cena termina com Gilday se lamentando: “Parece que, no mundo de hoje, o poder de absolver dívidas é maior que o poder de perdoar”. Ao que Michael retruca: “Nunca subestime o poder do perdão”.

Naquela fase da vida, Michael é um homem atormentado e em crise – exatamente como Coppola, no início dos anos 1990, quando acumulava fracassos e despertava a desconfiança da crítica, que previa encerrado seu talento. “Foi um momento em que me sentia como ele, tentando entender o que era mais importante que fama e dinheiro, e, ao decidir fazer o terceiro filme, só poderia ser com um Michael Corleone mais velho. Naquela época, eu já sabia, como ele, que a realização é ver os filhos e a família prosperarem.”

É em busca disso que Michael luta, no final da existência. Para isso, aceita a contragosto a carreira de cantor de ópera do filho Tony (Franc D’Ambrosio) e concede à filha Mary (Sofia Coppola) a presidência do instituto beneficente da família. Depois de uma vida cumprida à risca as regras de um jogo de poder (em que se sentiu obrigado até a matar um de seus irmãos), Michael busca a expiação e, quem sabe, paz.

Coppola também alterou o final do filme, que não convém aqui revelar. Apenas não foi possível “melhorar” a interpretação de Sofia. Em sua defesa, porém, a atriz Diane Keaton, que vive Kay, ex-mulher de Michael, disse, ao ver a nova montagem: “Mary tem como pai o líder de uma organização criminosa. É insegura, quieta, um tanto assombrada. Sofia foi fantástica”.

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