Novo 'Planeta dos Macacos' mostra preocupações com o futuro do cinema

Andy Serkis, que interpreta o personagem principal com auxílio da tecnologia, é um dos pontos altos do filme de Matt Reeves; veja trailer

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2014 | 16h37

Beneath (De Volta), Escape from (Fuga), Conquest of the (A Conquista) e Battle for the (A Batalha) – a série O Planeta dos Macacos teve cinco filmes entre 1968 e 73. Tudo começou com a a adaptação que o produtor Arthur Jacobs fez do livro de Pierre Boulle, autor de A Ponte do Rio Kwai, que virou clássico de David Lean. Num ano emblemático também para a ficção científica – foi em 1968 que estreou 2001, Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick –, Jacobs encomendou à dupla de roteiristas Rod Serling e Michael Wilson o relato a ser retirado do livro futurista de Boulle. Nos antípodas da investigação (meta) linguística e filosófica de Kubrick, Serlind e Wilson teceram uma aventuras eletrizante, mas não destituída de elementos para uma discussão coerente sobre os rumos da humanidade.

O sucesso do Planeta gerou todas aquelas sequências – além de um humorístico que fez história na Globo, O Planetas dos Homens. Das sequências, a mais impactante (melhor?) foi a última, em que J. Lee Thompson mostrou a revolução dos macacos contra os humanos. Quase meio século depois, Hollywood resolveu dar marcha a ré e, em Planeta Dos Macacos – A Origem, mostrou como tudo começou. Agora, propõe Planeta dos Macacos – O Confronto. O longa que estreia dia 24 começa com uma armação de guerra e uma caçada muito bem filmada, mas não é uma caça ao homem. O que se segue é o confronto. A humanidade foi dizimada pela febre símia, quando o vírus criado em laboratório se espalhou pelo mundo. César e seus comandados continuam refugiados nas florestas ao redor de San Francisco e os últimos homens minguam num local improvisado de quarentena.

A busca por energia, no que os sobreviventes humanos sabem ser uma represa na floresta, coloca frente a frente macacos e homens. De ambos os lados há um movimento de paz, nas lideranças de César e Malcolm, interpretado por Jason Clark. Mas de ambos os lados também há desconfiança e preconceito, e Kobe vai ferir o mandamento inicial da nova escritura, segundo o qual macaco não mata macaco. Kobe, pressentindo o que considera a fraqueza de César, vai tentar matá-lo, e envolver o filho do próprio César. Em ambos os grupos em confronto existem famílias divididas. Malcolm e César são homens de família. Até nisso macacos e homens são mais próximos do que talvez queiram admitir.

Existem várias maneiras de ver Planeta dos Macacos – O Confronto. Ação, aventura, drama. Em todas elas o filme de Matt Reeves se sustenta, mesmo que, no final da exibição para a imprensa, na manhã desta segunda-feira, 14, alguns críticos tenham reclamado do bla-bla-blá, achando que A Origem tinha mais ação. É discutível, e O Confronto ainda oferece uma outra possibilidade de fruição. Você pode fechar os olhos – não nas cenas de ação mais intensa – e fruir, inclusive nos créditos finais, a deslumbrante trilha sinfônica de Michael Giacchino. O compositor (de JJ Abrams e de Ratatouille) trabalhou sobre a partitura original de Jerry Goldsmith, propondo uma releitura tão e até mais fascinante que o próprio filme. Uma recomendação – fique até o final dos créditos, mas não à espera de uma pirueta que não virá. Fique pela música, que nos últimos momentos abre uma nova linha melódica – à espera de um novo filme, quem sabe.

Homens e homens, macacos e macacos, macacos e homens – todos repetindo os erros que levaram a humanidade a um ponto de (não?) retorno. Nestes 46 anos, a técnica evoluiu tanto que as velhas mácaras e maquiagens que valeram a Rick Chambers o Oscar da categoria em 1968 foram substituídas por técnicas de CGI, que permitiram ‘modelar’ o personagem a partir do corpo e dos olhos do ator Andy Serkis que, em outro tour de force digitalizado encarnou, e continua encarnando, o Gollum para Peter Jackson nas séries O Senhor dos Aneis e O Hobbit. Andy Serkis é um ator para o novo século e as novas tecnologias, a chamada ‘motion capture’. É extraordinário. César tem expressão, tem alma. Sem ele, o filme de Matt Reeves, como Planeta dos Macacos – A Origem, de Rupert Wyatt, não faria sentido. Reeves é cria de JJ Abrams, que produziu seu longa Cloverfield. Mesmo quando filma a fantasia, ou o terror, Reeves está preocupado com o humano, e o futuro do cinema. E isso você pode ver em Planeta dos Macacos – O Confronto.

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