Novo livro de Dan Brown está entre Kubrick e Almodóvar

Encravado na nova era das redes sociais, ‘Origem’ transforma questões viscerais em puro divertimento

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2017 | 06h00

Nos extensos agradecimentos de Origem, seu novo livro, Dan Brown agradece ao editor Jason Kaufman “por sua compreensão pelo que estou tentando realizar com essas histórias”; e à sua mulher, Blythe, pintora e historiadora de arte, que colabora na pesquisa dos livros. O que Brown está tentando realizar? É um grande escritor, inútil negar, como Ron Howard, que tem adaptado a série de Robert Langdon para o cinema, também é um grande realizador e, eventualmente, um autor. Brown é um ‘entertainer’.

Constrói sua obra por meio da abordagem dos temas da ciência e da religião, e o fato de Langdon ser um simbologista agrega ao caráter lúdico. Boa parte dos problemas que os livros levantam diz respeito à decifração de símbolos. Talvez o leitor interessado deva interromper a leitura para retomá-la depois de ler Origem.

De cara, Brown adverte. “Todas as obras de arte, toda a arquitetura, todos os locais, conceitos de ciência e organizações religiosas deste livro são reais.” Na abertura, o futurólogo (e mago digital) Edmond Kirsch reúne-se com importantes líderes – católico, judeu e islâmico – para apresentar seu projeto. Kirsch diz que resolveu o nó górdio da humanidade e poderá responder às questões essenciais – de onde viemos? Para onde vamos? –, mas que isso representará um golpe mortal nas religiões. Corte para o Museu Guggenheim, em Bilbao, onde Langdon, com milhares de outros convidados, chega para assistir à apresentação de Kirsch.

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O anúncio está sendo seguido em tempo real pela internet e a assistência planetária atinge números estratosféricos quando Kirsch é assassinado no palco e Langdon foge com a diretora do museu, Ambra Vidal, que ocorre ser a noiva do herdeiro do trono da Espanha. Ambos tentarão concluir a apresentação de Kirsch, mas forças poderosas vão impedir e os indícios apontam para o velho confessor do rei moribundo. Nas redes sociais, surge todo tipo de boataria. Há um supercomputador – quântico – nessa história. Winston, como Churchill. Entre outras lendas urbanas, conta-se como Stanley Kubrick batizou o computador de 2001 de Hal para que cada letra estivesse à frente da sigla IBM. Hal queria tomar o poder. Winston é o Hal que tomou o poder.

Como livro, é fascinante. Todas aquelas informações sobre Gaudí, sobre a Casa Milà e a Sagrada Família, peças importantes no quebra-cabeças. Mas, e as questões essenciais? Pode a ficção respondê-las? É ‘entertaining’, não acurado – todas as maquinações que a inteligência artificial é capaz de urdir. Winston, no limite, é um monstro? Nem ciência, nem religião – o homem. O mais curioso é o conceito ‘almodovariano’ de família. Brown, com certeza, viu Tudo Sobre Minha Mãe. O príncipe herdeiro é criado por um par gay – na Espanha católica! ‘Entertaining’ é pouco. Difícil vai ser, para Ron Howard, adaptar essa história com todas as letras.

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