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Novo Godard divide a cena com Xavier Dolan no Festival de Cannes

O enfant-terrible da Nouvelle Vague reafirma-se como um gênero no mesmo dia em que é exibido filme do canadense que é o mais jovem a concorrer à Palma

Luiz Carlos Merten, Enviado especial a Cannes - O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2014 | 18h57

E no princípio era o Verbo – Goda-art? Jean-Luc não veio a Cannes, depois de criticar a mundanidade do festival, mas enviou seu filme, Adeus à Linguagem, Adieu au Langage. De qual linguagem se trata? A do cinema, por certo, porque apos o episódio de 3X3, ele recorre de novo ao 3-D, mas o faz de um jeito que, às vezes, em vez de criar profundidade, ou texturas, ele superpõe imagens que terminam por se anular. Resta a palavra, que sempre foi decisiva em seu cinema. O que Jean-Luc Godard ainda tem a dizer sobre as pessoas, após Acossado, Uma Mulher É Uma Mulher, Viver a Vida, Pierrot le Fou, etc.?

O melhor personagem, de Adieu au Langage, é um cachorro, e posto que Jean-Luc não veio explicar pessoalmente, pode-se crer que o cachorro é dele. Os norte-americanos diriam que é um ‘thief stealer’, um ladrão de cenas. Não é a menor das surpresas do filme. Godard virou um gênero e, neste sentido, Adieu au Langage talvez proporcione mais do mesmo. Ao mesmo tempo, consegue ser novo, até na abordagem do 3-D, porque o autor não usa a linguagem como ferramenta para contar uma história e sim, para desconstruí-la. Tudo isso parece muito vaga e/ou conceitual, mas vai entender quando vir o filme. No Festival do Rio? Na Mostra?

Godard, o enfant-terrible da Nouvelle Vague, é hoje um senhor de 83 anos. No mesmo dia, a imprensa assistiu a seu filme e ao novo Xavier Dolan. Jane Campion realizou seu primeiro filme no começo dos anos 1980. Como presidente do júri, e avó, ou mãe protetora, ela pode querer premiar o canadense Dolan. É o mais jovem autor a concorrer à Palma de Ouro. François Truffaut tinha 26 quando foi premiado aqui em Cannes por Os Incompreendidos, no alvorecer da Nouvelle Vague. Aos 25, Xavier Dolan já tem uma obra. Mommy é seu quinto filme. Os demais passaram quase todos em Cannes, em diferentes seções do festival. Mommy é sua primeira entrada na competição.

Tudo conspirava contra Mommy. O filme é falado em francês canadense e permeado de gírias, o que o torna indecifrável. Os diálogos não são ditos – são gritados. A tela é menos que um quadrado – Dolan dá a impressão de abrir uma fresta, não uma janela, para que o público olhe seus personagens. E as legendas, para complicar, tinham a metade do tamanho das letras normais. Um suplício, mas então o que faz com que Mommy, afinal, seja o melhor filme do jovem diretor? É a história de um estranho triângulo, formado pela mãe e a vizinha de um garoto que sofre de TDAH, transtorno de déficit de atenção. E, pairando sobre as relações complicadas, por meio das quais as pessoas vão se descobrindo, existe uma lei selvagem do Canadá. Familiares podem internar os filhos menores sem necessidade de um diagnóstico.

O filme passa por estágios como agressão, desespero, solidariedade, abandono. Quando tudo parece perdido, o garoto... Você não perde por esperar. Dolan trabalha com suas atrizes preferidas, Anne Dorval e Suzanne Clement. Ele próprio parece tão jovem quanto seu ator, Antoine Olivier Pilon. Quando fez o primeiro longa, J'ai Tué Ma Mére, ele confessou que realmente queria matar sua mãe. Agora, de alguma forma mais maduro, é o primeiro a admitir que lhe fornece a revanche. A vingança de uma mãe.

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