Novo filme do Woody Allen tem trama construída sobre inquietações filosóficas

Novo filme do Woody Allen tem trama construída sobre inquietações filosóficas

Longa conta a história de um professor em busca de um sentido para a vida, qualquer que seja ele

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2015 | 07h00

Há quem se queixe de os filmes “sérios” de Woody Allen serem cerebrais demais. E por que não? Deveria o homem inteligente fingir-se burro só para agradar ao gosto médio ou à parte da crítica que fica triste quando convidada a pensar? 

Quem, senão ele, iniciaria a narrativa com uma voz em off citando Kant? A frase do filósofo alemão parece bem colocada na boca do se colega contemporâneo Abe Lucas (Joaquin Phoenix). Diz que não conseguimos evitar perguntas para as quais sabemos não existir respostas. Por exemplo, quanto de nossas vidas é regido pelo acaso e quanto pela necessidade. 

Meditando sobre isso tudo, e de modo macambúzio, o professor Abe chega a um novo câmpus. E, charmoso porque pouco convencional, triste e alcoólatra, logo se torna irresistível. Em especial para a porção feminina do câmpus, como a professora Rita (Parker Posey) e a aluna Jill (Emma Stone), que passam a disputá-lo. Rita é casada, Jill está noiva de um estudante insosso. Ambas parecem dispostas a jogar a segurança no ralo por uma aventura com Abe. Que, ele próprio, não parece nem aí para as moças, o que só o faz ainda mais cobiçado.

Abe é um abúlico, sem vontade para nada. Precisa encontrar algo que dê um sentido para a vida. E esta oportunidade, como costuma acontecer, surge de onde menos se espera, da conversa entreouvida numa lanchonete. Uma mulher se queixa de estar sendo prejudicada por um juiz venal numa causa sobre a guarda dos filhos. Por que não ajudá-la, sem que ela saiba, já que a causa parece justa e insofismável? E aí temos a bifurcação dos pensamentos de Allen – até onde podem nos conduzir as melhores intenções? 

Este filme é, de uma ponta a outra, influenciado pelo pensamento filosófico, no qual um problema leva a outro, ou a outros. De modo que, encontrado o sentido para sua pobre existência, o professor Abe deverá se defrontar com outro desafio – o da consciência. Kant, ele mais uma vez, dizia que duas coisas no mundo provocam espanto e admiração: “O céu estrelado sobre nós e o senso moral dentro de nós”. Ora, o universo em expansão e as mais do que duvidosas “certezas” morais provocam angústia em Woody Allen, espírito renascentista caído num país de especialistas. Em falta de um senso moral interno, será a linda e jovial Jill a servir como superego do então já desenvolto professor. O filme é apenas brilhante. 

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