Novo filme de Xuxa é melhor quando fica sem Xuxa

Xuxa está mais bonita em Abracadabra do que nos dois Duendes, os efeitos do filme dirigido por Moacir Góes são mais cuidados, mas não há muito mais para elogiar na aventura que estréia hoje, em 300 salas do País. O produtor Diler Trindade, da Diler & Associados, é, de qualquer maneira, um homem feliz. Não está jogando para perder. "Xuxa é uma franquia poderosa", ele disse na pré-estréia do filme, no Shopping Jardim Sul. Houve tumulto após a coletiva de imprensa, quando a estrela resolveu passear pelo parque que leva seu nome. Algumas crianças ficaram feridas. Essas coisas não respingam no mito Xuxa. "Estimo que vamos fazer no mínimo 2 milhões de espectadores. A média dos filmes de Xuxa tem sido de 2,2 a 2,4 milhões de espectadores", avalia Trindade. Abracadabra até que exibe algumas novidades em relação aos filmes anteriores de Xuxa. Ela se chama Prima Sofia - é sempre chamada assim, com o acréscimo do vínculo familiar -, mas o primo, objeto de seu desejo, a princípio não se dá conta de que ela está ali. Há aqui, nesse romance desencontrado, um elemento de sexo mais concreto, pois Márcio Garcia não é assexuado como outros galãs que tem dividido a cena com Xuxa. Existe até um diálogo espirituoso no início, quando ele diz que vai sair com uma amiga e sua filha de sete anos diz que sabe que amiga é essa - vão fazer bebê. Sempre houve um subtexto erótico na persona que Xuxa transmite às crianças. Seus produtos erotizam as meninas, fazem delas mulherzinhas. Moacir Góes assume isso. Enquanto Garcia vai para a discoteca com a tal amiga, a Prima Sofia fica em casa com as crianças, para que ele possa se divertir com a outra. Essa introdução, digamos ´realista´, é um tanto demorada e não ajuda muito o fato de Xuxa dizer ?legal? pelo menos umas 30 vezes em dez minutos. A falta de assunto e de repertório (da estrela) é evidente. A personagem de Xuxa, como sempre, é tatibitate. Como em História sem Fim, a trama prossegue com as crianças - e ela - entrando num livro onde estão todas as personagens de histórias infantis. Branca de Neve, Pinóquio, o Saci, João e Maria, todos participam da trama. Vivem na parte iluminada da floresta encantada e, naturalmente, há um vilão que quer dominar o espaço, para isso convocando tradicionais figuras do mal - o Lobisomem, a Múmia. Essa história leva a assinatura de Márcio de Souza, sendo interessante assinalar que ele, como o diretor Góes, é uma grife do teatro. Góes foi um diretor contratado, obviamente. Será que veio dele a mais insólita de todas as idéias de Abracadabra? É o primeiro filme de Xuxa que só fica interessante naquela partezinha em que ela, como a Bela Adormecida, mergulha em sono profundo, sai de cena e deixa às crianças o encargo de levar a história adiante. Você pode não gostar do filme, mas terá de reconhecer que existem boas idéias de cenografia na criação da floresta mágica, por exemplo. E mais - existem cenas que chegam a ser emocionantes. Pinóquio, quando sai da floresta encantada, vira menino de verdade e verte uma lágrima, terminando por perguntar se é feio menino chorar. São toques criativos e delicados. O restante é o resto - participações especiais de grupos musicais para vender discos, uma divertida participação de Cláudia Raia, que realiza seu sonho de interpretar a madrasta de Branca de Neve, outra de Sérgio Mamberti, no duplo papel de Tio Nick e Mago Merlino, reforços de Heloísa Perissé e Tom Cavalcanti e aquele bando de crianças e adolescentes conhecidos do público de novelas.

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