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Novo filme de Spielberg dá mais atenção à palavra do que à ação

Longa 'Ponte dos Espiões' é ambientado na Guerra Fria

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2015 | 03h00

Estamos em 1957, auge da Guerra Fria, e com a paranoia anticomunista a toda nos Estados Unidos. Era época em que comunistas comiam criancinhas. Nesse clima político, um homem é detido sob acusação de praticar espionagem para a União Soviética. Trata-se de Rudolf Abel (Mark Rylance), agente russo, de origem britânica, residente nos EUA. Para todos efeitos, já está condenado. Mas é preciso mostrar que, na pátria dos direitos civis, ninguém vai para a forca ou a cadeia elétrica sem antes passar por um julgamento, justo e imparcial. Desse modo, um ótimo advogado, James Donovan (Tom Hanks), é convencido a defender o acusado. Tal é o mote inicial de Ponte dos Espiões, de Steven Spielberg.

Para começo de conversa, é bom apontar que esse filme se parece, pela atitude do diretor e por seu próprio estilo, com dois outros de sua filmografia, Munique e Lincoln. São trabalhos adultos de Spielberg e que, pode-se dizer, o mostram como cineasta maduro e não apenas como um artesão de sonhos para a infância e a juventude. Nesse sentido, em especial em Lincoln e agora em Ponte dos Espiões dão mais atenção à palavra do que à ação.

Isso não quer dizer que o filme seja monótono. Muitíssimo pelo contrário. Porém deposita todos os efeitos de tensão e ansiedade muito mais no que pode ocorrer do que em correrias, tiroteios ou atos explícitos de violência. Põe em pauta a política – e essa é, em muita medida, a administração da violência para efeitos de conquista ou manutenção de poder. Mas é também uma arte, que envolve sutileza, senso de tática e estratégica, e capacidade de pensar algumas jogadas à frente, como um bom jogador de xadrez.

Donovan revela-se um ótimo enxadrista. Capaz de, numa jogada ousada, salvar a pele do cliente. Essa mesma artimanha é a que abre caminho para a maior aventura de sua vida, que ele não desejava e para a qual não fora preparado. Trata-se de discutir o resgate e a troca de um aviador americano, Gary Powers, preso na União Soviética quando sua aeronave espiã foi abatida. De quebra, Donovan resolve incluir na negociação um estudante americano que fora detido na Alemanha Oriental e corria risco de vida.

É claro que ninguém precisa de uma lupa para detectar elementos patrióticos na obra. Eles fazem parte da visão de mundo de Spielberg. Mas não estão aqui em estado bruto. São lapidados e enfrentam uma situação em que nuances parecem bem-vindas. Por exemplo, é clara a mensagem de que os Estados Unidos dão tratamento diferente aos inimigos presos. Garante-lhes bons tratos e julgamento – mesmo que tudo isso seja apenas um prelúdio antes de despachá-los para o corredor da morte. Por outro lado, é preciso esse jogo de fachada, em que um advogado de peso é convocado para defendê-lo. O que não estava nos planos é o trabalho muito bem-feito de Donovan, que lhe vale a hostilidade nacional, pois estava defendendo inimigos da pátria. Mas o que vale é a integridade pessoal, e essa Hanks expressa com brio.

Há outra coisa também: a ideia de que nenhum soldado pode ser deixado para trás – tema de O Resgate do Soldado Ryan, com o mesmo Tom Hanks como protagonista.

Existem então esses pontos. Mas é preciso dizer que eles se dão no interior de uma narrativa sólida e sóbria, com a reconstituição de época precisa, e mais a densidade devida a grandes atores. A começar por Hanks que, ao envelhecer, depura aquela aura de dignidade, de fundamental honestidade, que caracterizava Henry Fonda, por exemplo. E, depois, pela atuação soberba do ator inglês Mark Rylance, que compõe seu Rudolf com serenidade e fatalismo cheios de nuances e sabedoria. Lapidar um espião com rosto humano, complexo e ambíguo, e fundamentalmente digno, não é das menores proezas de Spielberg em Ponte dos Espiões. Ponto para ele.

 

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