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De longe, De Niro, Pacino e Scorsese até parecem um grupo de titãs, durante cena de ‘O Irlandês’ Netflix

Novo filme de Scorsese com Al Pacino e Robert De Niro fala sobre máfia e envelhecimento

Durante entrevista, os dois atores aproveitaram o reencontro para falar sobre trabalho, Oscar e de 'O Irlandês', nova produção original da Netflix

Dave Itzkoff, The New York Times

14 de novembro de 2019 | 06h00

LONDRES - Não há placa comemorativa do encontro, e nenhum de seus protagonistas sabe dizer exatamente a data em que ocorreu, mas foi em algum lugar da 14th Street, no East Village, de Manhattan, que, no final da década de 1960, dois atores novatos chamados Robert De Niro e Al Pacino se cruzaram pela primeira vez. Eles estavam começando, desfrutavam os primeiros sabores do trabalho e da visibilidade mais constantes e se conheciam por nome e reputação. Compararam seus currículos, mediram-se um pelo outro – Pacino ainda se lembra de achar que De Niro tinha “um visual incomum e uma certa energia” – e cada um foi embora para seu lado, imaginando o que o futuro reservava para si mesmo e para o homem que acabara de conhecer.

Meio século depois, os dois entraram em uma suíte de hotel de luxo no rio Tâmisa para falar sobre seu novo filme, O Irlandês, com essas incertezas há muito superadas. De Niro e Pacino conquistaram praticamente tudo o que um ator pode almejar. Foram muito além das aspirações mais exageradas que tinham quando jovens. Presentearam o cinema com alguns de seus personagens mais hipnotizantes e explosivos em clássicos como – vamos falar de uma vez – Taxi Driver, Scarface, Touro Indomável e a série O Poderoso Chefão.

Nisso, suas trajetórias acabaram se entrelaçando de maneira inesperada. Eles não são apenas colegas e colaboradores ocasionais, mas amigos de verdade, que às vezes arranjam um tempo para pôr o papo em dia, vislumbrar possíveis projetos e tirar sarro um do outro.

“A gente se encontra, conversa, troca ideias”, explicou De Niro. “Mas não temos muita saudade. Só um pouco.” O mais surpreendente de tudo talvez seja que, no momento em que eles poderiam apenas se deitar sobre os louros da vitória – e já foram acusados disso –, Pacino, 79 anos, e De Niro, 76 anos, continuam se dedicando inteiramente ao ofício.

O Irlandês é dirigido por Martin Scorsese e coloca os dois atores juntos na tela pela terceira vez. O filme, um drama policial de amplo alcance e muita ambição, tem os olhos voltados para o passado e plena consciência de que, mais cedo ou mais tarde, tudo chega ao fim. Esse tema encontra forte ressonância tanto em Pacino, que interpreta Jimmy Hoffa, o irredutível presidente da International Brotherhood of Teamsters (uma liga de sindicatos dos Estados Unidos) quanto em De Niro, que é produtor do filme e dá vida a seu personagem-título, Frank Sheeran, um secretário do sindicato que tinha ligações com a máfia e reivindicou a autoria do assassinato de Hoffa.

Ambos os atores sabem muito bem da importância de seus legados, e em O Irlandês oferecem atuações vitais como sempre. Agora, se já não têm mais nada a provar para o público, encontram motivação no desejo de superar seus próprios feitos e de acompanhar o ritmo um do outro. Nas raras ocasiões em que trabalham lado a lado, disse Pacino, “isso diminui o peso, e aumenta a pressão”. Eles deixaram marcas tão profundas no imaginário popular que são precedidos por caricaturas – não totalmente infundadas – de si mesmos. Pacino, com os cabelos compridos presos em um rabo de cavalo, é o mais arrebatador da dupla, e De Niro, bem vestido, é o mais reticente. Quando lhe perguntaram como ele e Scorsese trouxeram Pacino para O Irlandês, De Niro respondeu: “Falei: ‘Marty, o que você acha do Al para fazer o Hoffa?’. E ele falou: ‘Sim, ótimo”. Mas eles também compartilham uma descontração de décadas e, quando estão juntos, gostam de mexer um com o outro. Riram muito da ideia de que Pacino teria que passar por testes para conseguir seu papel em O Irlandês. “É, eu perguntei se ele poderia ler algumas falas do roteiro”, disse De Niro sarcasticamente. Logo depois levantou a mão e encerrou essa audição imaginaria de maneira um tanto abrupta: “Ah, tudo bem, já está bom”. Pacino entrou na brincadeira e, com uma voz baixa e suave, descreveu como ele lidaria com a tarefa hipotética: “Olha, estou ensaiando faz tempo, não é o seu roteiro, é uma peça de Shakespeare, vou ler uns trechinhos para você”, disse ele. Os dois riram muito e, como sempre faz quando está se divertindo de verdade, De Niro semicerrou os olhos e abriu aquele famoso sorriso de orelha a orelha.

Eles já tinham se encontrado, de maneira fugaz, mas espetacular, em 1995, no drama policial Fogo contra Fogo, de Michael Mann, filme sobre um ladrão engenhoso (De Niro) e o obstinado investigador (Pacino) que o persegue. Treze anos se passaram antes que De Niro e Pacino se reencontrassem, em As Duas Faces da Lei, um drama policial genérico do qual nenhum dos dois se lembra com muito carinho. “Fizemos”, disse De Niro, com humildade. “Fizemos, sim.”

Os atores tiveram dificuldade de explicar por que o tema velhice, discutida no filme, os atraiu. Com alguma hesitação, De Niro disse que ele e Pacino tiveram de lidar com as questões existenciais que O Irlandês suscita. “Chegamos a um ponto em que estamos mais perto de ver...”, ele fez um gesto trêmulo com a mão, enquanto procurava as palavras certas. “Não quero dizer o fim, mas o horizonte”, disse De Niro. “O começo daquilo que está do outro lado.” Pacino disse que enxergou essas ideias com mais clareza depois do término das filmagens: o que quer que eles tenham demonstrado em suas atuações, disse ele, foi o resultado da direção de Scorsese e do longo processo de gestação do filme. “Ele acessou – é uma palavra nova que estou usando muito agora, mas eu gosto –, ele acessou algo que eu nem consigo identificar, que fiquei surpreso por sentir. O que é este ponto em que estamos agora? O que estamos fazendo?”

Seria mais fácil se eles admitissem que querem que seus filmes resistam à prova do tempo. “Claro que você pensa nisso”, disse De Niro. “Você faz coisas das quais gostaria que as pessoas se lembrassem de um jeito especial, mais que especial.” O Irlandês, que recebeu algumas das críticas mais entusiasmadas que Pacino, De Niro e Scorsese já mereceram, parece pertencer a essa categoria. 

(Tradução de Renato Prelorentzou)

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Martin Scorsese volta ao universo da máfia em 'O Irlandês', que estreia hoje nos cinemas

Robert De Niro e Al Pacino, seus velhos companheiros de Hollywood, também participam do reencontro; longa é da gigante Netflix

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2019 | 06h00

Havia espectadores, cinéfilos, que esperavam há décadas pelo reencontro de Robert De Niro e Al Pacino. Estiveram juntos em O Poderoso Chefão 2, de Francis Ford Coppola. Coestrelaram Heat/Fogo Contra Fogo, thriller de Michael Mann, de 1995, que se tornou objeto de culto. Martin Scorsese considera-o um dos grandes filmes de “cops and robbers” da história de Hollywood. Foi há 20 anos. Naquela época, o início dos anos 1990, Scorsese fizera seus últimos grandes filmes – coincidentemente obras sobre a máfia. Os Bons Companheiros/Goodfellas e Cassino, ambos com De Niro e Joe Pesci. Estão agora todos de volta – Scorsese e seus atores, De Niro, Pesci, Pacino. Todos velhos – mais velhos. O dado não é irrelevante. O Irlandês começa num retiro para aposentados. A câmera vaga pelos corredores até chegar a De Niro, que vai contar a sua história.

Ele é o homem que pintava paredes. Na terminologia da máfia, trata-se de um “sinônimo” de assassino profissional. De Niro explodia cabeças com tiros à queima-roupa e “pintava paredes” com o sangue que esguichava. O Irlandês estreia nesta quinta, 14, em 19 salas selecionadas de todo o País. A produção da Netflix estreia nos cinemas antes de chegar à plataforma de streaming, na sexta da próxima semana, dia 22. Dessa forma, cumpre o rito, do lançamento nas salas, para habilitar-se a concorrer ao Oscar

Foi-se o tempo da queda de braço entre a Netflix e a Academia, ou grandes festivais como Cannes. Prêmios em festivais agregam prestígio. E a Netflix, a Amazon e outras querem desfrutar dessa fatia. Para diretores como Scorsese, e o brasileiro Fernando Meirelles, que lança no mês que vem, também pela plataforma, Dois Papas, é como um sonho. Liberdade de criação, festivais, cinemas e depois o streaming, essa nova modalidade que está revolucionando o mercado. Num recente debate em Hollywood – com Scorsese e Meirelles, entre outros –, a conclusão é que não há mais o que discutir. As novas tecnologias, o mercado, enfim, tudo mudou. Agora é assim. 

 

Máfia

No filme, o velho de O Irlandês volta-se para o próprio passado. Faz uma viagem de carro com o personagem de Pesci. Dois velhos e suas mulheres. Na primeira parada (“Olhe ali”), vem a lembrança do primeiro encontro. Como tudo começou. Steve Zaillian assina o roteiro. Foi o roteirista vencedor do Oscar por A Lista de Schindler, de Steven Spielberg. Para o novo filme, baseou-se no livro de Charles Brandt, I Heard You Paint Houses, com as memórias de Frank Sheeran, o personagem de De Niro. 

Historiadores de crimes nos EUA dizem que o livro não é confiável e que Sheeran é um mitômano. Mas a história é boa e, como dizia o mestre John Ford por meio do editor Edmund O’Brien de O Homem Que Matou o Facínora, às vezes é melhor imprimir a lenda. No centro do filme está um enigma: o desaparecimento de Jimmy Hoffa, o todo-poderoso presidente do sindicato dos caminheiros. Pacino é quem faz o papel. 

São todos amigos: Frank, Jimmy, Russell Bufalino (Pesci). Amigos, amigos, negócios à parte, como diria Billy Wilder. Hoffa prejudica negócios do crime organizado. Torna-se uma ameaça que é preciso eliminar. Impossível, diz Frank – ele é o segundo homem mais poderoso dos EUA, após o presidente. Russ/Pesci acha que nada é impossível, afinal, o próprio John Fitzgerald Kennedy foi vítima daqueles tiros em Dallas, em 22 de novembro de 1963. 

Esse filme sobre velhos, que se reúnem para validar e executar assassinatos, é sobre poder e dinheiro, amizade e lealdade. Alguém, o próprio Scorsese, ou Zaillian, já disse que é sobre laços dissolvendo-se na longa noite das almas, quando ocorrem todas as traições. 

 

Parceria

É o nono filme de Scorsese com De Niro, uma parceria que começou há muito tempo, nos anos 1970, e antes disso já vinha selada pela amizade. Você pode até achar que é brincadeira, mas tem havido, ultimamente, ciumeira. Scorsese substituiu De Niro por Leonardo DiCaprio e ganhou o Oscar – de filme e direção – por Os Infiltrados, mas, embora essa seja uma afirmação polêmica, só um louco pode achar que a fase DiCaprio é tão boa. Não é, e Scorsese há tempos deve a seu público um grande filme. Antes de ser um grande filme, O Irlandês é um filme grande até na duração (3h30). 

O terço final, de uma hora inteira, é destinado a deslindar o affair Jimmy Hoffa. Sendo um filme de velhos, é bom que o espectador preste atenção no processo de envelhecimento de Niro, Pesci e Pacino, e inversamente no rejuvenescimento do trio – e também de Harvey Keitel, que tem um papel importante no longa. 

Aliás, são tantos velhos em cena que, com todo respeito, a impressão, lá pelas tantas, é de que Scorsese liberou o asilo, fornecendo papéis a veteranos atores coadjuvantes que você nem sabia mais que estavam vivos. Trabalhando há tanto tempo juntos, chega a ser surpreendente que Scorsese – mas ele é cinéfilo, não se esqueçam – tenha pautado De Niro a fazer sua lição de casa. Ele exortou o ator a rever clássicos de gângsteres com o astro francês Jean Gabin, porque era aquele tom de interpretação que queria. Isso talvez ajude a entender por que O Irlandês é mais meditativo que os demais filmes de gângsteres do diretor, um pouco mais próximo de seus filmes religiosos (que, a bem da verdade, estão longe de ser os melhores). Olha o spoiler: a grande cena ocorre aos 45 do segundo tempo. O encontro de Frank com a filha. Tudo em O Irlandês leva até ali.

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