Alessandro Bianchi/Reuters
Alessandro Bianchi/Reuters

Novo filme de Robert Guédiguian investiga a exclusão na Europa

'O povo francês não pratica convivência, ele pratica a colonização', afirma o diretor de 'O Mundo de Glória' em entrevista ao 'Estadão'

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estado

18 de fevereiro de 2021 | 05h00

Muitas etnias convivem em tensão crescente nas ruas de Marselha onde nasce o bebê que dá título à aula de geopolítica em forma de filme chamada O Mundo de Glória (Gloria Mundi), o novo longa-metragem do francês Robert Guédiguian, agendado para estrear no Brasil dia 25 de fevereiro. 

Há motoristas de Uber desesperados por corridas, há vendedores de brechó que maltratam os fregueses de origem estrangeira e há Sylvie, mais experiente funcionária de uma empresa de faxina, que sua a camisa por tostões. 

Vivida por Ariane Ascaride, mulher e musa de Guédiguian desde 1975, Sylvie está empenhada em manter a família unida, sobretudo na chegada da neném, numa realidade em que ninguém tem dinheiro para poder criar uma criança. 

A personagem rendeu à Ascaride o troféu Copa Volpi de melhor interpretação na passagem do longa-metragem pela competição do Festival de Veneza, em 2019. No ano em que o Leão de Ouro ficou com Coringa, o Lido recebeu com ovação a estética marxista de Ascaride e seu marido. 

Aos 67 anos, o realizador dos cults Marie-Jo e Seus Dois Amores (2002) e As Neves do Kilimanjaro (2011) vasculha a microfísica da exclusão na Europa contemporânea. “Vira e mexe, recebo, por Facebook, um recado de brasileiros querendo discutir política ou apenas sendo carinhosos comigo”, orgulha-se o cineasta, ciente da legião de fãs que construiu na América Latina com seu estudo das formas de desagregação da empatia. 

Em janeiro, ele foi um dos diretores mais disputados do 23º Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, fórum anual da Unifrance, a instituição do governo da França dedicada à promoção e à difusão do audiovisual. Lá, em entrevista via zoom, o cineasta contou ao Estadão como se filmar a luta de classes nos novos tempos e fez uma análise sobre o dever da arte nestes tempos de intolerância.

Numa das cenas mais dolorosas de O Mundo de Glória, uma muçulmana vai a uma loja de penhores e é obrigada pela vendedora a tirar sua burca em público para ser atendida. O que esse gesto revela sobre a Europa que o senhor busca retratar?

Ali está a percepção de que a luta pela afirmação da identidade territorial infelizmente passa pela humilhação. A questão mais complexa da França hoje é que temos uma massa de imigrantes que precisam lutar duro para regularizar sua situação legal sem abrir mão daquilo que legitima suas origens, ou seja, suas práticas culturais. Mas onde deveria haver uma miscelânea de culturas há violência. O povo francês não pratica convivência, ele pratica a colonização, na mesma brutalidade do passado, só que em outras formas. A França quer colonizar quem é estrangeiro. Isso está errado. Isso gera neurose. E gera ódio. 

Onde é que Marx entra nessa sua análise geopolítica, nos impasses da convivência?

Uma frase das Ciências Políticas mudou a minha vida: “A luta de classes é o motor da História”. Marx me ensinou que os valores da solidariedade foram destruídos na imposição de que a acumulação deva ser um norte para o funcionamento da sociedade, como o capitalismo faz crer. A lógica capitalista passa um rolo compressor sobre as diferenças, em vez de celebrar as dicotomias, as distinções de olhares. O cinema que eu faço, há anos, não sai do papel sem Marx, não apenas por ele chamar atenção para a falta de empatia, mas por ele expor como as tensões de classe, ainda essenciais às dinâmicas sociais, mudam. Não é mais só a batalha entre patrão e empregado, entre burguês e proletário: há também a questão entre quem é periférico e quem se considera o eixo central de um território. É assim que se forma a marginalização. E esse meu novo filme é sobre marginalização em vários segmentos de uma mesma camada social, de pobreza.

Como é o seu processo de construção de uma dramaturgia que discute a exclusão sob essa lógica marxista, sem deixar de lado o conflito afetivo de seus personagens? E como equilibrar uma mirada realista quase documental com o melodrama?

A base é querer explorar o mundo ao nosso redor sem conceitos prévios, pesquisando vivências. Marx me serve como farol, mas não como uma tese a ser comprovada. Pierre Milon, meu fotógrafo em O Mundo de Glória e em muitos outros filmes, não é um teórico. Como eu, ele é um artista da prática, que se arisca ao buscar a luz ideal que traduza as inquietações que, a cada filme, atraem nosso olhar. Existe aí uma centelha documental, pois a câmera está nas ruas, observando atores não profissionais, entendendo as dinâmicas sociais da Europa. Mas existe uma estilização, importante ao conceito de drama que exploro, e que é defendida por atrizes e atores, como Ariane Ascaride, na qual eu busco refletir os sentimentos desse mundo, tridimensionalizando meus personagens. Existem angústias ali, na vivências deles. E essa angústia se amplia com as dificuldades econômicas. 

Ao conquistar a Copa Volpi de melhor atriz em Veneza, Ariane Ascaride, sua parceira de vida e de obra, comemorou o prêmio como sendo uma vitória coletiva de um projeto audiovisual de vocês, sempre filmando juntos, sempre acompanhados dos atores Jean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan. Como é esse exercício de trupe no cinema francês? 

Ariane e eu crescemos juntos, vivemos juntos, aprendemos dia a dia como o mundo se transforma e tentamos, em nossa sinergia, uma diária maneira de nos adaptarmos ao que vemos em nossa volta. Esse nosso grupo está junto porque sabemos nos adaptar.

Em seu longa anterior, Uma Casa À Beira Mar (2017), víamos imagens dessa trupe, hoje já grisalha, no auge de sua juventude, na década de 1980, num uso emocionante de cenas de arquivo. É um gesto de revisão crítica de sua própria obra em que o senhor revista a própria História da França, nos últimos 40 anos. O quanto o seu cinema documentou seu país? 

A questão mais urgente talvez seja “onde” ele documentou. Ele registrou a desagregação gradual da cordialidade, expondo uma mecânica em que as pessoas pensam cada vez mais em si e menos na convivência com seus pares. Em vários estágios, um pensamento de direita... de extrema direita... avançou pelo mundo e, com ele, o individualismo cresceu.

Existe lugar para o heroísmo num cinema politizado como o seu? Se sim, qual seria?

Herói é a pessoa que pensa no próximo. E essa pessoa está no povo.

Qual é a responsabilidade de se fazer cinema hoje?

Ela está na consciência de que a arte funda um povo. E liberta um povo. 

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