Novo filme de 'O Pequeno Príncipe' chega para cativar

Novo filme de 'O Pequeno Príncipe' chega para cativar

Diretor Mark Osborne diz que foi preciso mudar para ser fiel ao livro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2015 | 06h00

Mark Osborne gosta de contar que, quando os produtores o abordaram com a proposta de adaptar O Pequeno Príncipe, sua primeira reação foi recusar o convite. “E não é porque não goste do livro de Antoine de Saint-Exupéry. Pelo contrário, tenho uma ligação próxima demais com ele. Sou um garoto de New Jersey, do outro lado de Nova York. Não venho de uma família de intelectuais. E não era nenhuma criança quando li o livro. Já namorava, e foi minha namorada quem me deu o livro. Estávamos na faculdade, e, por um motivo que não vale explicar, tivemos de passar um período afastados.

Ela me deu o livro, que tem todas aquelas ‘mensagens’. Parece banal – ‘O essencial é invisível para os olhos’, ‘Você é responsável por aquilo que cativa’, esse gênero de coisa. Mas estávamos apaixonados e eu captei a intenção. O livro virou nosso acordo secreto. Por isso vacilei. Temia estar destruindo uma coisa que havia sido tão importante para nós.”

Mas ela insistiu, e os produtores também. Queriam Mark Osborne, persuadidos de que o diretor de Kung Fu Panda poderia repetir o êxito e fazer de O Pequeno Príncipe outra adaptação bem-sucedida. Osborne convenceu-se de que a gente só se arrepende do que não faz, e que valeria tentar. Mas pediu um tempo – queria ver se achava o seu viés. Para ele, apesar da extraordinária popularidade do livro, uma versão literal de O Pequeno Príncipe corria o risco de não satisfazer o público da era da internet. Em conversas com amigos, e com o travesseiro, O Pequeno Príncipe começou a ganhar forma na imaginação de Osborne. “A metalinguagem surgiu para mim como uma revelação e uma solução. Não mais a história do Pequeno Príncipe, apenas, mas de uma garota que aprende coisas essenciais por intermédio dele.”

Desde ontem, 27, são mais de 500 salas – exatamente 530 – que apresentam O Pequeno Príncipe em todo o Brasil. O filme está sendo lançado em 2 e 3D, e em cópias dubladas (a maioria) e legendadas. Já se criou certa polêmica. As cópias com legendas são da versão francesa, que tem nomes como Marion Cotillard e Vincent Cassel. A Paris Filmes até tentou usar a versão em inglês, sendo o diretor, como é, norte-americano. Ela tem as vozes de Benicio Del Toro e James Franco – entre outros –, mas só estará liberada após a estreia nos EUA, e o filme ainda não tem distribuidor nem data por lá. A pressa de lançar favoreceu que fosse privilegiada a versão francesa. E claro que não é nada mau ouvir a voz aveludada da grande Marion Cotillard.

Osborne insiste que o livro lhe foi de muita ajuda num momento específico de sua vida. “Já estava decidido a me tornar cineasta, e buscava a minha voz. Que tipo de artista quero ser? Que tipo de artista vou ser? As perguntas me perseguiam e O Pequeno Príncipe, de alguma forma, me deu uma espécie de recuo, forçando-me a buscar uma versão infantil de mim mesmo, alguma coisa de puro. O mantra do Pequeno Príncipe está na força da imaginação. Sem ela, não há criatividade. O livro já começa com uma provocação. O desenho de um chapéu que, na verdade, é uma serpente que engoliu um elefante. Saint-Exupéry nos convida a ver o mundo de outro ângulo, e foi o que fiz, olhando o mundo e seu príncipe, pelos olhos da garota.”

Como a protagonista de Divertida Mente, olhem a coincidência, ela também muda de bairro, de cidade. Sente-se deslocada, e descobre esse vizinho que é um velho piloto e tem seu avião estacionado no quintal. Ele lhe conta a história de como caiu no deserto e encontrou o menininho vindo de um asteroide distante. Mais tarde, os dois se perdem – o piloto e a príncipe – e agora a menina vai partir em busca dele. O reencontro encerra surpresas, ou uma grande surpresa, que resume em si mesma o mundo globalizado onde a fábula de Saint-Exupéry, pesar de tudo, persiste.

Como contar visualmente essa história? Em Cannes, onde O Pequeno Príncipe teve direito a tapete vermelho e em São Paulo, onde participou com o filho – seu modelo do principezinho – no Anima Mundi (trazido pela distribuidora Paris), Osborne contou que teve uma ajuda inesperada ao descobrir que Orson Welles, no começo dos anos 1940, havia tentado adaptar o livro, inclusive escrevendo quatro versões do roteiro. “Ele queria misturar animação e live action, eu preferi misturar técnicas de animação. Usei animação digital tradicional para a história moderna, da garota, e recorri à velha ‘stop motion’ para animar quadro a quadro os desenhos de Saint-Exupéry, porque sem eles os fãs nunca aceitariam o filme. O príncipe, a rosa, a raposa, os moradores do asteroide, foram todos feitos nessa técnica. Partimos do zero. Criei um grupo de animadores que estabeleceram os nossos programas, os nossos padrões. Foi um trabalho feito com muito amor. Não creio que se pudesse adaptar O Pequeno Príncipe de outra forma.”

Quando Osborne esteve em São Paulo, em julho, Minions já havia estreado para se transformar na animação mais exitosa (de público) do ano. Havia também Divertida Mente, de Pete Docter, da Pixar, preferida pelos críticos. E estava estreando O Conto da Princesa Kaguya, do japonês Isao Takahata. Todas diferentes em técnica e ambição. Osborne achou isso ótimo. “Quantos filmes de live action estreiam por semana? Talvez nunca tenhamos o mesmo número de animações porque elas são demoradas, e caras. Mas acho salutar que o público disponha de uma oferta variada e que nós, criadores, também possamos nos mirar no espelho de outras animações, e animadores. Não existe nunca um só olhar. Vivemos num mundo plural e a animação também deve mostrar isso.”

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