Novo filme de diretor tailandês aborda universo dos vampiros

Em 'Hotel Mekong', cineasta Apichatpong Weerasethakul diz que pretende 'manter as coisas misteriosas para o espectador'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

15 de maio de 2014 | 18h52

Foi em Cannes, há dois anos, que o repórter se encontrou com Apichatpong Weerasethakul para falar de Hotel Mekong. Dois anos antes, em 2010, Api, ou ‘Joe’, como é chamado, havia recebido sua Palma de Ouro por Tio Bonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas. Anos antes, ele já havia sido premiado, também aqui, por Mal dos Trópicos, e a verdade é que todos esses filmes participam do mesmo movimento. Para Joe, a essência de seu cinema - o conceito - consiste em manter as coisas misteriosas para o espectador. O que ele menos quer é elucidar.

Quem gosta de história mastigadas, com começo, meio e fim, poderá se sentir desorientado. Mas, se isso lhe serve de consolo, mesmo trabalhando com ficção, Apichatpong disse ao repórter que, mais que em qualquer outro filme que realizou, seguiu uma regra do documentário em Hotel Mekong. Confiava em seu instinto e avançava sem saber direito o que estava fazendo. O gosto da descoberta foi o que o impulsionou no filme menos convencional de sua nada convencional carreira.

A entrevista realizou-se no iate de Canal +, ancorado na baía de Cannes, ao lado do Palácio do Festival. Um barco, mesmo parado, oscila com a água, e isso tinha tudo a ver com a experiência imponderável relatada pelo diretor. Apichatpong já contou uma história de fantasmas - de vidas passadas - em Tio Bonmee. Hotel Mekong é, acima de tudo, um filme de décor - o hotel do título. E retoma um projeto mais antigo que ele abandonou - uma história de vampiros. Antes de prosseguir, convém dizer que Apichatpong, que virou uma referência do cinema autoral em todo o mundo - além de ser um artista visual de vanguarda, admirado por suas instalações -, não tem o menor pudor em dizer que adora a estética de efeitos especiais de Hollywood.

ET, de Steven Spielberg, é um de seus filmes preferidos e Apichatpong diz que ainda hoje, decorridos mais de 30 anos, o extraterrestre aponta para o futuro do cinema. O que Hollywood está fazendo com a imagem - viabilizando o imaginário de artistas visionários -, já é o futuro, ele proclama. Só tem um problema. “Hollywood tornou tão perfeita a arte dos efeitos que seria ridículo países como o meu, a Tailândia, tentarem competir com eles. Só me resta improvisar e usar a imaginação.” Hotel Mekong amplia a ideia que, anteriormente, estava sendo desenvolvida como Ecstasy Garden/Jardim do Êxtase. É sobre um espírito que, na verdade, é uma vampira e tem uma filha. A garota não sabe da natureza selvagem da mãe. Possui um namorado e ele tem o sangue jovem de que a mãe necessita para se renovar.

É um resumo muito racional da história, o público vai ter de escavar nas imagens para encontrar sua bússola. Apichatpong reside no norte da Tailândia. “Nos últimos anos, tornei-me um cidadão do mundo, sempre viajando. Mas tenho cada vez mais prazer em voltar para casa, por pequenos períodos que seja. Lá me recarrego com as histórias de minha cultura. Fantasmas fazem parte do nosso inconsciente coletivo. Não são assustadores. Ponho fantasmas numa perspectiva que não é a mesma de Hollywood. Impressiona-me ver como meus filmes, que, em princípio, seriam difíceis, atraem tanto os jovens. É um outro tempo, talvez eu busque mais maravilhar que assustar.”

Com Hotel Mekong, Apichatpong diz que viveu uma experiência única em sua carreira. Ele foi quase o Exército de um homem só, tirando o elenco, naturalmente. Escreveu, dirigiu, fotografou, montou. O mais importante de tudo - ele nunca havia vivido no próprio set. “Já filmei muito longe de casa, mas, em geral, permaneço no hotel e vou para o set. Aqui, o hotel era o set. Isso me deu uma mobilidade que nunca havia experimentado antes, e, ao mesmo tempo, eu ficava o tempo todo imerso nos ambientes, tendo ideias do quer filmar, e como filmar. Em Mal dos Trópicos, a inspiração era a floresta. Me lembro que, aqui mesmo em Cannes, as pessoas ficaram surpresas quando disse que queria que minha floresta fosse bela como Brad Pitt. Em Mekong, o terraço se abria para a água, e água é movimento, representa o tempo.”

Um desafio permanente era saber se a atriz central conseguiria dizer os textos que o diretor ia improvisando. “Fazer filmes não dá dinheiro, eu, pelo menos, não ganho. Um filme exige muito tempo, dedicação. Não sou desesperado por dinheiro, mas termino ganhando mais com as outras coisas que faço. O cinema me proporciona prazeres especiais - o trabalho com atores, a troca.” Não representa pouco num país como a Tailândia. “Penso sempre em Titanic. A impressão é de que vivo num barco que está naufragando. Tenho a sorte de viver no mundo, mas me angustia a perspectiva de que pessoas, até amigos, estão nesse barco à deriva.” Decisiva, no caso de Hotel Mekong, foi a trilha. “Não sabia direito o que estava buscando, mas imaginava que precisaria de uma linha melódica, um tema para compor o tecido, unindo os vários ‘quartos’ do hotel. Tive uma sorte incrível.”

E ele conta que, no tempo da escola, tinha um amigo guitarrista. “Cada um seguiu seu caminho, nos afastamos, mas nos reencontramos no lugar em que moro. Ele continuava com a música, a guitarra, e me proporcionou o tipo de coisa que queria. Um cinema de clima como o meu depende muito do som, da imagem, da música. São essas coisas que me permitem estimular o mistério no imaginário do público. Não existe coisa que me interesse mais no cinema nem nas artes, em geral.” 

Embora resida no norte da Tailândia, foi numa ilha do sul que Apichatpong encontrou apoio para outro projeto do seu coração. “Sou amigo de Tilda Swinton, talvez porque ela tenha começado com um diretor que, como eu, sempre gostou de experimentar - Derek Jarman. Um dia, conversamos e tivemos essa ideia de organizar um encontro, um festival. Um evento fechado, em que amigos, e amigos dos amigos, encontrariam o ambiente para desenvolver sua criatividade. E não apenas cineastas - pintores, poetas, dramaturgos, músicos. Nosso festival é uma utopia que necessita de recursos para se expandir. Mas é a coisa mais linda do mundo. Artistas criando um mundo de beleza, solidariedade. A gente quase acredita que há esperança neste mundo.”

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