Jake Giles Netter/Universal
Jake Giles Netter/Universal

Novo filme da franquia 'Uma Noite de Crime' mostra o horror presente em extremismos

Dirigido por Everardo Tout, Uma Noite de Crime - A Fronteira é mais um filme que explora situação do mundo nas era dos fundamentalismos

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

06 de setembro de 2021 | 20h00

Aos 71 anos (nasceu em 1950), Everardo Valerio Tout - às vezes, somente Everardo Tout - é um diretor mexicano premiado, mas conhecido principalmente por séries e longas com títulos como The Terror, Mars e Dias de Gracia. Antecede de mais de dez anos a geração de autores do México que venceram o Oscar - Alfonso Cuarón, Alejandro González-Iñárritu e Guillermo Del Toro. Provavelmente, nunca chegará lá, mas assina o melhor e mais impactante filme da franquia Uma Noite de Crime, iniciada por James DeMonaco em 2013. 

Nestes oito anos surgiram o 2, o 3, a origem de tudo - A Primeira Noite de Crime - e, agora, A Fronteira. A série nasceu com o objetivo de colocar na tela um movimento que culminou com a eleição de Donald Trump para presidente. Os novos pais da América representam o pensamento interiorano de direita nos EUA. Ódio ao outro, principalmente negros e imigrantes mexicanos. Na fantasia de DeMonaco, uma vez por ano, e durante 12 horas, a população tem permissão para matar. Foi assim nos quatro episódios precedentes, mas, no quinto, a coisa muda de figura. De cara, estabelece-se o conflito. Uma fazenda de criação de cavalos pertencente a uma família wasp

O antagonismo é imediato entre o filho do dono, que não admite não ser o melhor na doma de cavalos selvagens, e o mexicano que parece possuir o dom de falar com os animais. Não são necessários mais do que dez ou 15 minutos para estabelecer o drama. É o fim de semana do ‘purge’, o grande expurgo, os wasps isolam-se em casa, armados até os dentes, e os mexicanos vão para uma associação comunitária. Passam-se as 12 horas, lá e cá as pessoas comemoram por haver sobreivido, mas aí a TV começa a mostrar imagens perturbadoras. 

Em todos os EUA, a matança continua. A palavra de ordem - Purge Forever, Expurgo total, até que o último inimigo da ‘América’ seja morto - viraliza nas redes. Só resta a Josh Lucas, o wasp, e Tenoch Huerta, o mexicano, unirem-se para sobreviver no caos. A mulher de Josh está grávida, prestes a parir. A de Tenoch, interpretada por Ana de La Riguera, pega em armas com o marido. Ao ranger que lhe pergunta onde adquiriu essa destreza, Ana responde que integrava um grupo de mulheres unidas contra os carteis, no México. 

O novo Uma Noite de Crime não se chama A Fronteira por acaso. Não é de hoje que o horror adquiriu dimensão política em Hollywood. Talvez tenha tido sempre, porque nos anos 1930 os diretores do gênero já incluíam temas fortes e até proibidos pelo código da indústria nos filmes de Drácula e Frankenstein. Nos 60, George A. Romero incluiu o movimento por direitos civis dos negros em A Noite dos Mortos Vivos e nunca mais parou, a cada dez anos, de recorrer aos zumbis para refletir sobre o que se passava em seu país. Mais recentemente, Jordan Peele virou emblema das vidas negras que importam e até ganhou o Oscar - feito raríssimo no cinema de gênero - por seus filmes que espelhavam a era Trump, Corra! e Nós

Na ficção de Uma Noite de Crime 5, a ação decola na fronteira, separada por um muro. Os mexicanos que querem entrar nos EUA, como Ana e o marido, precisam atravessar um cano de esgoto. Tudo isso adquire valor simbólico porque agora, face ao expurgo total, o México abre suas fronteiras não apenas para o retorno de seus cidadãos, mas também para a entrada de norte-americanos que estão sendo caçados por supremacistas. Em sua entrevista ao Estado, Samir, o diretor de Bagdá Vive em Mim, refletindo dobre o fundamentalismo e as guerras religiosas, disse que as mulheres são vítimas preferenciais dessa barbárie. O líder dos supremacistas chama sua mulher de mãe e a mexicana de vadia. 

Na contramão de Trump, que queria fechar as fronteiras para os mexicanos, Tout as abre em sentido inverso, mas por um número limitado de horas, como sempre foi o próprio expurgo. O tempo vai passando. Cinco horas até o fechamento da fronteira, depois três, duas horas e meia. A violência corre solta. Preso no carro de polícia, o supremacista identifica, só pelo barulho, as armas que estão sendo usadas lá fora. 

Armamento pesado - Arthur Penn dizia que os norte-americanos só conseguem resolver seus conflitos pela violência. A Associação do Rifle sempre defendeu o direito deles de portar armas. Vale lembrar que esse cenário de selvageria é o que o presidente Jair Bolsonaro desenha para o Brasil. Uma Noite de Crime - A Fronteira é muito bem filmado e editado. Integra-se nesse (novo?) horror que reflete a situação do mundo nas era dos fundamentalismos. No universo sombrio mostrado por Everardo Valerio Tout, só a união com os povos originários, detentores do segredo da vida, garantem a sobrevivência.

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