REUTERS/Clodagh Kilcoyne
REUTERS/Clodagh Kilcoyne

Novo documentário com apoio de Martin Scorsese segue um padre que prega a católicos LGBT

'Building a Bridge' tem estreia prevista para o dia 15 de junho no Festival de Cinema Tribeca e acompanha a jornada do reverendo James Martin

Sarah Pulliam Bailey, The Washington Post

21 de junho de 2021 | 20h00

NOVA YORK - O tiroteio na casa noturna Pulse, de Orlando, em 2016, foi uma espécie de ponto de virada para o reverendo James Martin, um padre de Manhattan, autor e palestrante. O “capelão oficial" dos programas de comédia de Stephen Colbert se tornou uma espécie de celebridade depois que começou a pregar mais intencionalmente a católicos LGBT após o massacre que deixou 49 mortos.



Martin foi celebrado por muitos e criticado por tantos outros depois de publicar um livro intitulado Building a Bridge: How the Catholic Church and LGBT Community Can Enter into a Relationship of Respect, Compassion, and Sensitivity [Construir uma ponte: como a Igreja católica e a comunidade LGBT podem desenvolver uma relação de respeito, compaixão e sensibilidade]. Desde então, Martin palestrou em igrejas, na Conferência Mundial de Famílias Católicas e até conversou com o papa Francisco.

Um novo filme intitulado Building a Bridge, com produção executiva de Martin Scorsese, tem estreia prevista para o dia 15 de junho no Festival de Cinema Tribeca e acompanha a jornada de Martin incentivando lideranças da igreja a amarem os fiéis LGBT até sua recente crítica a uma declaração do Vaticano feita em março impedindo os padres de abençoarem uniões entre pessoas do mesmo sexo. Segue-se uma entrevista com Martin a respeito do documentário, editada por questões de espaço.


 

O documentário mostra que você se envolve em numerosos conflitos com a organização direitista Church Militant. Diria que é o maior confronto em que já se envolveu?

O Church Militant é um dentre muitos grupos que me atacaram e chegaram até a organizar campanhas contra mim. Talvez eles sejam os mais consistentes nesses ataques. E meu colega Joe lê os comentários nas redes sociais e tira prints do Instagram, Twitter e, agora, do TikTok. No começo, era muito perturbador. Já fui criticado antes, mas nada parecido com esse tipo de demonização. No fim acabamos nos acostumando. Quando pensamos em Jesus como modelo de comportamento, vemos alguém livre da necessidade de ser amado ou de receber a aprovação dos demais.


 

O filme não mostra muito os confrontos com a liderança da igreja, com exceção do bispo Joseph Strickland, em Tyler, Texas. Há muita oposição da hierarquia da igreja ao seu trabalho?

Nada é como a oposição que enfrento por parte da mídia de extrema direita. Alguns bispos me criticaram publicamente, mas em geral são palavras mais pensadas. Às vezes eles me escrevem privadamente. No geral, recebo apoio na hierarquia, e até do papa. Quando o livro foi lançado, um bispo dedicou toda a sua coluna ao ataque à obra, mas, no meio do texto, admitiu que não tinha lido o livro.


 

O filme narra uma espécie de evolução, na qual você começa defendendo o amor e a compaixão em relação a pessoas LGBT. Mostra alguns ativistas da comunidade LGBT que parecem frustrados por não terem sido procurados por você para uma parceria. Você tem algum arrependimento em relação à abordagem que usou para o assunto?

Não diria arrependimentos. Aprendi muito com a continuidade do trabalho. O livro Building a Bridge nasceu de muitas conversas que tive com pessoas LGBTQ. Um crítico, que fez o que considerei uma crítica construtiva, disse que não se trata de fato de uma via de mão dupla, por causa da abordagem da igreja institucional para essa questão. A segunda edição traz mais relatos de pessoas LGBTQ e diz que o ônus cabe à igreja. Eu esperava que o livro original servisse como recurso menor nas paróquias, e não como um manifesto nas igrejas.


 

No fim do filme, você diz que deseja apoiar lideranças LGBT na igreja. Como seriam essas lideranças? Padres e bispos declaradamente gays?

Para mim, foi uma mudança de perspectiva dizer que serem bem-vindos não é o bastante. E essa liderança já está se materializando. Pode ser vista em quase todos os níveis hierárquicos da igreja, ainda que não sejam identificados nominalmente. Temos sacerdotes que trabalham com música e associados leigos. É claro que temos padres e, provavelmente, alguns bispos.

Quando falo em padres, me refiro a quem está vivendo os votos de castidade e celibato. Se a pessoa segue seus votos, por que não deveria estar na liderança? Acho que isso também oferece um modelo de comportamento, diante do qual as pessoas podem dizer, “Essa pessoa é capaz de viver uma vida saudável e plena”. Hoje em dia, cabe principalmente aos bispos abrir as portas e permitir que isso ocorra.

Não estou questionando os ensinamentos da igreja. Padres e bispos falando a respeito da própria identidade não estão questionando nada, pois estão concordando com o celibato. Não acho que isso vai se tornar mais frequente sem a aprovação tácita dos bispos. Quando isso ocorrer, as paróquias se tornarão mais acolhedoras.


 

Muitos ativistas acreditam que as pessoas LGBT jamais serão verdadeiramente amadas pela Igreja Católica a não ser que haja uma mudança nas crenças fundamentais da instituição a respeito do casamento e da sexualidade. Você concorda?

É verdade. Muitas pessoas LGBTQ tiveram dificuldade com os ensinamentos da igreja e com o termo usado, que se refere a eles como “intrinsecamente desordenados”. Há uma comparação com o controle da natalidade, em cujo caso ninguém diz que os casais devem ser expulsos caso façam uso dele. Poucas dessas pessoas dizem, “Não sou digno de ser um sacerdote da eucaristia”.


 

Na sua opinião, há ensinamentos da igreja que deveriam mudar?

Eu gostaria que a igreja desse ouvidos a essa comunidade. Como é a sua vivência da igreja? Para eles, quem é Jesus? Para poder recebê-los, a igreja precisa ouvi-los.

O Concílio Vaticano II fala em como a igreja deseja de seus membros uma “participação ativa e plenamente consciente". É algo maravilhoso. São membros integrais da igreja. Isso inclui assumir posições de liderança em certos momentos.


 

Há um novo documentário sendo lançado que trata da terapia de conversão. Os membros da igreja comentam isso com você?

O tempo todo. Com frequência, recebo mensagens a respeito de homílias horríveis, nas quais coisas cruéis são ditas pelos padres, além da exclusão nas atividades. Sim, a terapia de conversão ainda é promovida, e a situação é ainda pior no exterior.


 

A maior parte do filme se concentra em experiências de pessoas gays, lésbicas ou bissexuais. O que você acha do tratamento que as pessoas transgênero recebem da igreja?

A linguagem usada pela igreja para se referir às pessoas transgênero é péssima. Tratar a questão como uma ideologia é uma perspectiva nociva. A melhor citação a esse respeito vem do diácono Ray Dever, da U.S. Catholic, pai de uma criança transgênero, que diz que uma pessoa que tenha conhecido em primeira mão indivíduos transgênero ficaria perplexa diante da sugestão de que se trata de uma ideologia. Acho que vemos dar ouvidos aos psicólogos, psiquiatras e biólogos, e às vivências das pessoas. Também estou aprendendo a respeito do assunto. Tento aprender com Luisa Derouen, que trabalha com indivíduos transgênero desde 1999. Os termos usados por muitas pessoas são simplesmente péssimos.


 

Quais você diria que são os próximos passos a seguir nesse aspecto?

Quero ver uma continuidade do movimento atual, com muito mais grupos de contato voltados ao público LGBTQ nas paróquias e escolas. Adoraria que a igreja começasse a dar ouvidos às pessoas LGBTQ de uma maneira mais formal, em comissões, painéis e grupos de orientação. As autoridades da igreja não deveriam emitir documentos formais sem antes consultá-las.

Gostaria que as pessoas LGBTQ deixassem de ser alvo de demissões nas escolas e paróquias. Elas não são as únicas que não respeitam integralmente os ensinamentos da igreja. É uma situação discriminatória, pois não fazemos isso com outros grupos de indivíduos. Teríamos que demitir todos que se ausentam da missa aos domingos. Também gostaria de ver a igreja se opor à criminalização da homossexualidade no mundo, algo que a igreja não teria dificuldade em fazer. Em alguns casos, temos bispos alinhados a essas políticas.

Uma das coisas difíceis de fazer é orientar uma pessoa LGBTQ distante de uma paróquia receptiva em relação ao que ela deve fazer. Durante a pandemia, elas puderam frequentar paróquias em todo o país. É escandaloso que a vivência de uma pessoa dependa tanto do local onde ela vive.

As pessoas perguntam a respeito dos ensinamentos da igreja. Esses ensinamentos vão muito além de algumas linhas de catecismo. O ensinamento da igreja é Jesus, e Jesus estendia a mão às pessoas marginalizadas, o centurião romano, o cobrador de impostos Zaqueu, a mulher samaritana no poço. Há um trecho da história de Zaqueu em que Jesus encontra o cobrador de impostos (considerado um pecador) e diz, “todos que viram a cena começaram a resmungar”. Podemos ser parte da multidão que resmunga, ou podemos oferecer nossa misericórdia.


 

A suprema corte dos EUA analisa um caso importante para os casais LGBT e a Igreja Católica conhecido como Fulton vs. Cidade da Filadélfia. A Igreja Católica deveria defender a adoção por parte de casais LGBT?

Conheço muitos casais formados por pessoas do mesmo sexo que criam seus filhos muito bem. Acho que o debate deve partir disso. Não sou um especialista em educar filhos. Vejo exemplos de casais de pessoas do mesmo sexo que adotaram crianças e parecem oferecer a elas lares cheios de amor. Isso não é melhor que um orfanato?


Tradução de Augusto Calil

 

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