Novo 'Dia em que a Terra Parou' desperdiça valor do original

Superprodução tem visual caprichado, mas uma história muito inferior à do clássico da ficção científica de 1951

Carlos Orsi, do estadao.com.br,

09 de janeiro de 2005 | 15h53

Depois de observar o planeta Terra por 70 anos, um coletivo de civilizações alienígenas decide que a espécie humana é uma praga que precisa ser exterminada impiedosamente, para o bem da biosfera terrestre. A fim de nos informar da sentença - e de executá-la - são enviados até nós um embaixador, Klaatu (Keanu Reeves), e um gigantesco robô, Gort. Depois de passar alguns dias na companhia da cientista sensível Helen Benson (Jennifer Connelly), de seu enteado malcriado Jacob (Jaden Smith) e de bater um papo com um simpático velhinho ganhador do Nobel, Karl Barnhardt (John Cleese), Klaatu decide, por fim, que o diagnóstico de seus colegas estava errado e que a humanidade merece uma segunda chance.   O parágrafo acima resume, em linhas gerais, o enredo da nova versão de O Dia em que a Terra Parou, filme dirigido por Scott Derrickson e que estréia no Brasil no próximo dia 9, sexta-feira. Em comparação, no filme original, de 1951, Klaatu (Michael Rennie) é enviado à Terra para advertir a humanidade - que havia recém-descoberto as armas atômicas e preparava-se para iniciar as viagens espaciais - de que as demais civilizações do Universo estavam prontas a nos acolher, desde que demonstrássemos boas maneiras, evitando, por exemplo, levar a guerra ao espaço. Por fim, um robô gigantesco, Gort, fica encarregado de nos observar e recebe autoridade para nos exterminar impiedosamente se nos comportarmos mal.   Se a comparação entre os argumentos dos filmes mostra alguma coisa, é que os roteiristas de filmes B de 1951 tinham mais respeito pela lógica e pela coerência de seus escritos do que os encarregados de criar as superproduções de 2008. Por exemplo, o espectador da nova versão fica sem saber para que os alienígenas querem preservar a biosfera da Terra ao preço de eliminar toda a espécie humana (eles precisam de um parque?) e por que se deram ao trabalho de estudar a humanidade por 70 anos, se bastaram algumas piscadelas dos grandes olhos lacrimejantes de Connelly para reverter a decisão crucial de acabar conosco.   O Dia em que a Terra Parou original, de Robert Wise, é um filme de idéias provocantes - robôs genocidas são mesmo a melhor maneira de preservar a paz? -, apoiado em recursos pobres: a nave de Klaatu parece uma calota de automóvel, Gort é obviamente um cara de capacete engraçado metido numa roupa de borracha. Já o novo filme tem todo o moderno arsenal dos gráficos gerados por computador à disposição, mas o que oferece, à guisa de idéias, não vai além de clichês melosos a serviço de uma mensagem que pode até ser louvável - a urgência da preservação ambiental - mas que, até por conta disso, mereceria um veículo melhor.   A despeito do roteiro frouxo, o filme dá sinais de aspirar, em alguns momentos, a uma certa sofisticação científica. Jennifer Connelly entra em cena falando sobre bactérias extremófilas, organismos capazes de sobreviver em condições letais para  a maioria das outras formas de vida conhecidas e que hoje são, de fato, objeto de estudo de cientistas que buscam entender como a vida poderia existir fora da Terra.   Além disso, a destruição desencadeada por Klaatu e Gort tem como veículo algo muito parecido com a "gosma cinzenta" temida por alguns cientistas que lidam com nanotecnologia. Trata-se de um material, ainda estritamente teórico, que seria composto por bilhões de minúsculos robôs, cada um deles capaz de devorar qualquer tipo de matéria e converter tudo o que come em cópias de si mesmo.   Mas o análogo da "gosma cinzenta" que aparece no filme é formado por partículas macroscópicas, do tamanho de insetos e, em mais uma dificuldade criada pelo roteirista David Scarpa para si mesmo, seu uso põe em dúvida as boas intenções ecológicas dos extraterrestres: afinal, como podem esperar salvar a biosfera terrestre se estão cobrindo cada centímetro quadrado do planeta com uma espessa camada de minirrobôs famintos?   O filme original tinha como inspiração um conto de 1940, Adeus ao Mestre, de Harry Bates, e que no Brasil pode ser encontrado no primeiro volume da coleção Histórias de Robôs, da editora L&PM. Os dois filmes são bastante diferentes da história de Bates, que gira mais em torno do robô Gnut (o "Gort" do cinema) que de Klaatu, mas a versão de Robert Wise ainda faz alguns acenos em direção à fonte literária. Já o novo filme sequer menciona o conto de Bates nos créditos, assumindo apenas o roteiro do filme de 1951 como inspiração.   Entre as homenagens ao filme original presentes nesta nova versão estão o visual prateado e ciclópico de Gort, a cena da lousa - na qual Klaatu corrige algumas equações do cientista terrestre Barnhardt - e a frase em "língua alienígena", "Klaatu barada nikto", usada para deter uma ação violenta iniciada por Gort.   Mas, até onde as homenagens à película de 1951 vão, a frase já havia sido muito melhor reutilizada por Sam Raimi. Em Evil Dead 3, o protagonista Ash Williams (Bruce Campbell) tem dificuldades em pronunciar a sentença corretamente, com resultados catastróficos, cômicos e muito mais memoráveis que todo o filme de Derrickson.

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