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'Nove Dias’, do brasileiro Edson Oda, apresenta uma ode à vida

Filme processa suicídio de tio do cineasta ao valorizar os pequenos momentos em produção americana

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

20 de dezembro de 2021 | 05h00

“Você não pode se esconder atrás da arte”, diz o cineasta brasileiro Edson Oda. Ele levou seu pensamento a sério em seu primeiro longa-metragem, Nove Dias, que recebeu prêmio em Sundance. O filme está em cartaz no cinema. 

Nove Dias surgiu de uma premissa – pessoas disputando para nascer – e de sentimentos pessoais que Oda estava vivendo na época. Ele tinha largado a carreira de publicidade no Brasil para estudar cinema em Los Angeles. Tinha as lembranças de seu tio, que se suicidou quando Oda tinha 12 anos. “Eu me lembrava que ele era muito bom, bom demais para este mundo. Porque o mundo pode ser muito cruel. Tinha essa noção dele de que às vezes você não pode ser bom demais. Não pode ser vulnerável demais”, contou em entrevista ao Estadão

Escolhido para desenvolver seu roteiro no Sundance Institute, foi cada vez mais incentivado a se colocar em sua história. “As obras de arte mais interessantes são as que revelam um pouco o que o artista é. E eu tinha essa conexão, ou falta de conexão, com meu tio. Fui vendo o quanto éramos parecidos e em muitos aspectos a mesma pessoa. E acho que abraçando isso e me relacionando com ele e com o que ele fez disso surgiu essa conexão.”

Assim surgiu a história de Will (Winston Duke), um homem duro, que tenta manter as emoções contidas. Ele é responsável por escolher as almas que vão ganhar vida e depois acompanhá-las em sua existência na Terra. Quando uma de suas preferidas morre em uma batida de carro inexplicável, que pode não ter sido um acidente, ele precisa escolher um novo candidato, com o apoio de seu assistente Kyo (Benedict Wong). O maior medo de Will é escolher alguém fraco. “Não quero que ele pareça injusto. Mas, quando Will acha alguém fraco, está se vendo naquela pessoa”, disse o diretor. Will tem razões para ser como é e para temer mandar alguém para sofrer na Terra.

Os candidatos que se apresentam não poderiam ser mais diferentes entre si. Há o sensível Mike (David Rysdahl) e a doce Maria (Arianna Ortiz), que acaba confundindo seus sentimentos. Alexander (Tony Hale) só quer se divertir. Kane (Bill Skarsgaard) pensa em se dar bem e sobreviver. E Emma (Zazie Beetz) parece a ser a candidata perfeita: sensível, disposta a viver o agora e a celebrar a beleza das grandes e pequenas coisas. Mas ela também confronta Will em suas convicções. 

O elenco diverso, tão destacado pela imprensa americana, foi intencional. “Eu sou nipo-brasileiro. Nos EUA, quando digo que sou brasileiro, sempre me falam que eu não pareço brasileiro”, disse o cineasta. “E a casa é uma reprodução do mundo, não tinha como não ter diferentes nacionalidades, raças e credos.”

A casa em questão fica no meio de um não-lugar, essa zona antes da vida. É uma casa meio nostálgica e cada candidato tem até nove dias para demonstrar por que merece ganhar um passaporte para a Terra. Will, apesar de parecer frio, é generoso: cada alma descartada tem o direito de escolher um momento para viver. 

São esses alguns dos trechos mais emocionantes de um filme que celebra as pequenas alegrias, felicidades e belezas da vida. “Muitas das cenas foram filmadas aí (Brasil): a praia, o passeio de bicicleta. Eu queria preservar essa coisa da nostalgia, e o Brasil é isso para mim”, disse Oda.

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