Nova York terá homenagem a diretores de 1968

Godard e Glauber Rocha estão entre os festejados diretores de cinema nos 40 anos do turbulento ano

A. O. SCOTT, The New York Times

08 de abril de 2028 | 20h34

Pelo menos segundo a lenda, "maio de 1968" - as greves e distúrbios que convulcionaram a França na primavera desse ano - começou no cinema. Em 9 de fevereiro, Henri Langlois, presidente do National Cinémathèque Française em Paris e um dos "pais" da Nouvelle Vague francesa, foi removido de seu posto por André Malraux, o ministro da Cultura durante o governo de Charles de Gaulle. Jovens cinéfilos reagiram e seus protestos se juntaram a uma onda de descontentamentos políticos e sociais que rapidamente inundaram a sociedade.  Três meses depois, o país estava repleto de motins, greves e manifestações de massas. Algumas das tradições e intituições mais veneráveis da França pareciam estar sob ataque, e o Festival de Cannes, o glamuroso evento da primavera, não estava imune. O Festival chegou a um impasse em 19 de maio, depois que um grupo de diretores, incluindo Jean-Luc Godard e François Truffaut, professando solidariedade ao grupo insurgente de trabalhadores e estudantes foram ao Palais des Festivals e seguraram as cortinas, impedindo que as projeções agendadas ocorressem. No mês que vem, alguns nomeados do abortado 21° Festival de Cannes serão apresentados na 61° edição do Festival. Essa é só uma das muitas comemorações do mundo dos filmes do 40° aniversário desse ano singular e tumultuado.  Novaiorquinos poderão marcar a ocasião com dois programas vastos que pretendem capturar, nas telas, o espírito daquela época. Um, no Film Forum, devotado a Godard na década de 1960, quando ele esteve no auge de sua influência, produtividade e poder criativo. Outro, no Lincoln Center, aborda geografia, tempo e gênero: de Paris e Chicago à Hungria, Japão e Brasil; de documentários jornalísticos ao agitprop e teatro experimental. Essas comemorações oferecem uma oportunidade olhar para a história e reviver debates perenes: sobre o imperialismo ocidental e a resistência do terceiro mundo; sobre sexo, drogas e rock n'roll. Mas há muito mais acontecendo nesse momento global.  Mais que uma outra forma de arte, o cinema de 40 anos atrás capturava a energia, a verdade, do seu tempo. Em uma extensão raramente atingida desde então, diretores não gravavam simplesmente os sobressaltos e crises de seu tempo; eles eram participantes e catalíticos deles. Nenhum mais que Godard. Parece claro por que o Film Forum e o Lincoln Center têm em suas listas, ambos, 'A Chinesa', um dos muitos filmes que o diretor começou, terminou ou lançou em 1968. Uma das frases emblemáticas do diretor proclama que com idéias vagas, precisamos de imagens claras.  Contemplando 1968 depois de 40 anos, parece que temos um pouco dos dois: uma crescente distorcida e sentimental noção dos "anos 60" acompanhada por imagens nítidas e dramáticas de eventos exemplares, como a morte de Martin Luther King Jr. e do Senador Robert F. Kennedy. Entre eles, os eventos franceses e a sublevação dos estudantes da Universidade de Columbia.  O que é mais impactante em retrospecto - e que parece mais estranho e, de alguma forma, mais tocante, sobre os filmes dessa época, em suas evocações à revolta e a motins - é o espírito de ascetismo, de seriedade apaixonada e grave, na condução da experimentação transgressora. Retornando à Godard por um momento: seus filmes de 1968 são divertidos, mas também dão muito trabalho para assistir. Para assistir esses filmes temos que ter uma atenção ativa e de auto-negação, que pode ser melhor descrita como uma disciplina revolucionária. A experiência é rigorosa e muitas vezes pune o espectador, que muitas vezes é colocado na posição de quem divide uma opinião com o diretor, menos que uma mera testemunha do que acontece na tela.

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