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Nova versão do thriller ‘Os Inocentes’, ‘Os Órfãos’ chega aos cinemas

A atriz canadense Mackenzie Davis integra o elenco do filme

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2020 | 08h00

Há um culto a Os Inocentes, o thriller gótico que o inglês Jack Clayton realizou em 1962, baseado no romance A Volta do Parafuso (ou A Outra Volta do Parafuso), de Henry James. O livro foi lançado com ambos os títulos no Brasil. Rememorando - Deborah Kerr faz a tutora contratada para cuidar de duas crianças numa mansão fantasmagórica. Truman Capote coassina o roteiro e a fotografia em preto e branco de Freddie Francis é decisiva na criação do clima. Como Clayton não se preocupa em oferecer respostas definitivas para os mistérios de seu filme - em especial se os fantasmas que perseguem Deborah são ou não reais -, outro diretor tentou fechar o círculo. Em 1970, Michael Winner fez The Nightcomers/Os Que Chegam com a Noite, com Marlon Brando no papel do caseiro que perseguia a governanta anterior e assombra Deborah.

Os que chegam com a noite estão de volta - estreou na quinta, 30, uma nova versão do livro de James. Chama-se The Turning, no original - aqui, ficou sendo Os Órfãos. Entre as duas houve uma perfeitamente dispensável, em 1992, com direção de Rusty Lemorande e com Patsy Kensit como a governanta. E não se pode negligenciar Os Outros, de Alejandro Amenábar, com Nicole Kidman, que também tinha a casa isolada e a mulher e as crianças perseguidas - pelo quê? Os Órfãos mantém a casa com seu arsenal gótico, mas traz a trama para a contemporaneidade e, de cara, Mackenzie Davis está tentando fugir da mansão, que mais parece uma armadilha. Mackenzie é a atriz de O Exterminador do Futuro - Destino Sombrio. Tudo o que ocorre em Os Órfãos é filtrado pelo olhar dela. E como se trata de uma narradora pouco confiável, que parece estar mergulhando na loucura - a exemplo de sua mãe, recolhida ao manicômio -, o que a diretora Floria Sigismondi espera, ou propõe, é que o público reavalie tudo o que viu anteriormente. Fica um filme em aberto, que só se resolve no imaginário do espectador que fizer o esforço de repensar a trama.


É um filme de poucos personagens - Kate/Mackenzie, a amiga de quem ela se despede no começo, as crianças, interpretadas por Brooklynn Prince e Finn Wolfhard, a velha governanta e o misterioso serviçal que se matou, e cujo espírito pode ter se apossado do garoto. Pois Finn, de cara, força o antagonismo com Kate e deixa o espectador de sobreaviso, pois foi dispensado da escola por conta de um ato de violência contra um colega. O menino pode ser endiabrado - e exerce profunda influência sobre a irmã -, mas o grande problema da nova abordagem é a vulnerabilidade de Kate. Talvez pelo histórico familiar - o pai ausente, a mãe interna -, ela se coloca à mercê do garoto, incapaz de vencer os próprios medos. Uma das primeiras coisas que Finn percebe é que Kate só dorme de luz acesa, e ele tira partido disso. Os fantasmas do passado existem? O romance proibido que culminou em assassinato é a resposta para tudo? De onde vem a violência que amedronta Kate? São perguntas que o espectador deve responder para reformular, minimamente, no inconsciente, o final que, de outro modo, parece não fazer muito sentido.

Floria Sigismondi veio do videoclipe e isso se percebe. A casa é a personagem que mais lhe interessa, pela possibilidade que oferece de criar tensão visual. Fotografia, iluminação, cenografia, tudo fica a serviço, não da criação de clima, mas daquilo que se convencionou chamar de ‘jamp scares’ - os famosos sustos que fazem o público pular da poltrona nos filmes de terror. Como filme de casa mal-assombrada, Os Órfãos não se furta a seguir o receituário, e até com habilidade. Mas não vai muito além, como fazia Jack Clayton em seu clássico. Nesse sentido, o pouco que o filme deve a Henry James está no mesmo nível que a antecipada influência do livro sobre a segunda temporada da série da Netflix A Maldição da Residência Hill. O mais curioso, nessa história toda, termina sendo o elenco. Mackenzie Davis é uma atriz canadense conhecida do público de séries - Halt and Catch Fire, Black Mirror. No cinema, fez Blade Runner 2049 e o último (ao que tudo indica) Terminator, no papel da supersoldada Grace Harper. O que ela tinha de forte, Kate tem de fraca, física e emocionalmente. Deve ter sido isso que atraiu Mackenzie para o remake - a possibilidade de criar uma personagem tão diferente da que fez anteriormente.

E há o garoto, Finn Wolfhard. Ele também veio das séries (Stranger Things) e, no cinema, fez It - A Coisa. Finn tem algo de Timothée Chalamet - se o ator de Me Chame pelo Seu Nome enveredasse pelo terror, ou pelo universo das mentes (precocemente) sombrias. Em definitivo, Os Órfãos está longe de ser bom, mas não deixa de ser curioso, por tantas qualidades visuais colocadas a serviço de algo tão inconclusivo.

A versão de Clayton, obra-prima

Poucos filmes conseguem ser mais assustadores que Os Inocentes. Para ser mais exato - mais inquietantes. Pois o diretor Jack Clayton procura não abusar no arsenal de truques do cinema fantástico ao abordar o tema da casa mal-assombrada. Afinal, o que aterroriza Deborah Kerr no filme é real, ou produto da imaginação dela? Clayton não fornece resposta, mas as imagens em preto e branco, a cargo de um gênio - Freddie Francis -, causam incômodo, ao mesmo tempo que admiração, em face de tanta beleza. 

Clayton iniciou-se como produtor associado de John Huston em Moulin Rouge. Em 1958, causou comoção com Almas em Leilão, pelo qual Simone Signoret ganhou o Oscar. Depois, veio Os Inocentes. Parecia que ele seria um dos maiores diretores do mundo. Do nada, Clayton perdeu o rumo. Tornou-se bissexto, filmando cada vez menos. E o que é pior - com menos e menos repercussão.

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