Karolina Wojtasik/HBO Max/EFE
Karolina Wojtasik/HBO Max/EFE

Nova versão de 'Gossip Girl' chega na HBO Max

Uma nova versão do drama adolescente chega refletindo uma mudança de atitude em relação à riqueza e aos privilégios

Alexis Soloski, The New York Times

13 de julho de 2021 | 10h00

Numa manhã abafada de junho, um pequeno batalhão de operadores de câmera, assistentes de produção e profissionais de cabelo e maquiagem surgiu da entrada de um metrô no Upper West Side de Manhattan. Um diretor assistente gritou uma ordem e de repente os passageiros comuns desapareceram, substituídos por pedestres glamourosos, vestidos no mais chique estilo do outono. Sapatos brilharam, dentes brilharam, rabos de cavalo brilharam. De um instante para o outro, o canteiro central se transformou num espaço livre de suores e cheio de escândalos e possibilidades. Gossip Girl está de volta na 72 com a Broadway.

Gossip Girl, uma novela adolescente surpreendentemente refinada, estreou em 2007 e se encerrou em 2012. Situada entre a ultra-elite das escolas particulares do Upper East Side, a série nunca teve grandes avaliações. (Circulou só no 1%, em mais de um sentido). Muitos críticos achavam que estava abaixo de sua dignidade. “‘Gossip Girl’ não era TV de qualidade”, sentenciou uma nota de despedida no New York Times, em 2012. “Longe disso”.

Mas a arrogância da série, protagonizada por estrelas como Blake Lively, Leighton Meester e Penn Badgley, fez dela a favorita das páginas de moda. Seu hedonismo impenitente - os adolescentes fazem sexo, os adolescentes usam drogas, os adolescentes logo se transformam em membros de uma pequena realeza - e suas tramas que queimavam na história como um flash paper pareciam feitos sob medida para jovens travessas, mesmo quando uma nova geração a descobriu pelos serviços de streaming. Gossip Girl pavimentou o caminho, provavelmente com cristais Swarovski, para as séries adolescentes picantes que vieram depois: Pretty Little Liars, Riverdale, Euphoria.

Depois de um hiato de nove anos, uma continuação chega na quinta-feira na HBO Max. (Não é um reboot, enfatizaram os criadores, porque existe no mesmo universo que a original). É um mundo um pouco diferente - transformado pelo #MeToo e pelo Black Lives Matter, com uma atitude diferente em relação à riqueza e aos privilégios. Então, essa Gossip Girl também está diferente.

“Cada geração tem a ‘Gossip Girl’ que merece”, disse Joshua Safran, showrunner desta nova série.

Desde 2012, Josh Schwartz e Stephanie Savage, que criaram Gossip Girl, receberam várias ofertas para estendê-la e expandi-la. Embora tenham concordado com algumas extensões de franquia (‘Gossip Girl: Acapulco’, sim, existe), eles nunca encontraram um motivo convincente para reformulá-la.

Nem Safran (de Smash, Soundtrack), produtor executivo da série original. Mas, então, um belo dia, três anos atrás, ele mudou de ideia. Safran, que cresceu no Upper East Side e frequentou a elegante e às vezes escandalosa escola particular Horace Mann, tinha um punhado de amigos que davam aulas em escolas particulares por salários extremamente baixos. Eles descreveram um mundo em que os professores se sentiam cada vez mais impotentes, sujeitos tanto às demandas dos pais quanto ao desprezo dos alunos.

Os professores eram quase sempre invisíveis na série original. Aquela fã de Shakespeare com quem Dan Humphrey (Badgley) transou? O professor inglês que Serena van der Woodsen (Lively) namorou? Raras exceções.

Nessa nova versão, sugeriu Safran, os professores poderiam ter voz. Uma voz familiar - Kristen Bell, que faz a narração em off para cada postagem da Gossip Girl, antes e agora. No primeiro episódio, são os professores, liderados por Kate (Tavi Gevinson), que ressuscitam a Gossip Girl como forma de intimidar seus alunos, uma forma extremamente online de controle social.“Os professores têm a mesma idade de muitas pessoas que assistiram à série na primeira vez”, disse Gevinson. “Eles são uma forma de entrar na história”.

A primeira série chegou na infância das redes sociais. Nesta nova versão, a internet cresceu. Agora, a Gossip Girl posta no Instagram, abrindo caminho entre as identidades perfeitas que projetamos online e as pessoas bem mais confusas que somos offline. “Eu posso ver você”, declara um post anterior. “Não o você que você selecionou com tanto cuidado - o verdadeiro você, aquele que se esconde do lado de fora da moldura. Bom, está na hora de reenquadrar a imagem”.

O cenário das redes sociais é traiçoeiro, sugere a série, e semanas antes de esta nova Gossip Girl ir ao ar, ela já havia atraído indignação online. Em meados de maio, preso na fila de uma farmácia, Safran se ofereceu para fazer uma breve sessão de AMA (“pergunte-me qualquer coisa”) no Twitter. Uma pessoa perguntou se a nova versão incluiria slut-shaming e barracos entre garotas. “Nada disso”, respondeu ele. “Acredito que esse tipo de coisa não deve estar nesta série, se ela quiser ser divertida. Se qualquer série quiser ser divertida”. Suas declarações bombaram na internet, com algumas pessoas se recusando a acreditar que uma série sem maldades de garotas contra garotas ainda poderia ser interessante.

Quando a Variety publicou um artigo sugerindo que esses novos personagens teriam algum conhecimento básico da desigualdade de riqueza, as pessoas perderam a cabeça, de novo. Naquele set de filmagens da estação de metrô, vi Safran franzindo a testa para o celular. J.D. Vance tinha acabado de fazer uma trolagem com ele. “A cultura Woke vai deixar tudo chato e feio”, Vance, o autor de Hillbilly Elegy [algo como “Elegia caipira”, em tradução livre], tuitara, junto com o artigo da Variety. (Vance recentemente anunciou sua candidatura ao Senado dos Estados Unidos. Será que os fãs originais de ‘Gossip Girl’ constituem um grupo demográfico importante?).

Qualquer pessoa que venha a assistir ao primeiro episódio da HBO Max irá notar imediatamente que nada é chato e, claro, ninguém é feio. A Nova York que Gossip Girl apresenta ainda é uma fantasia, embora, em contraste com a original, seja uma fantasia mais diversa. Esta versão gira em torno de duas jovens não brancas, as meias-irmãs Julien (Jordan Alexander) e Zoya (Whitney Peak) e seu grupo de amigos multirraciais, um aprimoramento necessário em relação à série original.

“A série original meio que evitava completamente a consciência da discriminação”, disse Peak, que fizera uma maratona para assisti-la online. “Era só gente rica e problema de gente rica”.

Mas é claro que existia discriminação, mesmo nos ambientes mais ricos. Em 2019, enquanto os primeiros episódios da nova Gossip Girl estavam sendo escritos, ex-alunas negras de muitas das principais escolas particulares da cidade - Brearley, Chapin, Spence - foram ao Instagram para falar sobre suas experiências. Essas postagens sugeriram a necessidade de mais conversas sobre preconceito e equidade.

Era uma conversa que Karena Evans, que dirigiu o piloto da nova série, estava ansiosa para ter. Evans (‘P-Valley’) adorava a série original. Mas, como mulher negra, nunca tinha visto uma personagem que se parecesse com ela na história. Desta vez, ela queria mostrar aos telespectadores, principalmente às jovens não brancas, que todas elas pertenciam a este mundo.

“No fundo, é a ‘Gossip Girl’ que você ama”, disse ela. “Mas a novidade é que ela está mais inclusiva, mais diversificada, mais queer, mais autoconsciente”.

Sobre essa autoconsciência: sim, a série agora reconhece que nem todo mundo voa de jatinho particular. Um jovem personagem até explica que “o privilégio ignora a realidade dos problemas sistêmicos”. O que é fofo. Mas a decadência abunda. Os personagens adolescentes pertencem a um clube privado. Eles assistem e participam de um desfile de Christopher John Rogers. Fazem noitadas íntimas no Webster Hall.

Conforme estabelece o primeiro episódio, o visual da série está mais ousado agora, menos higienizado. “O olho de Karena é uma coisa suntuosa e linda, ao mesmo tempo que mostra a podridão nas bordas”, disse Safran. “Você pega o doce e a dor de dente vem depois”.

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Este artigo foi originalmente publicado no New York Times / Tradução de Renato Prelorentzou.

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