Nouvelle vague volta ao cartaz com Godard e Rohmer

Houve outras ondas no cinema francês, mas a nouvelle vague continua sendo marco e referência para cinéfilos de todo o mundo. O termo designa o movimento de renovação do cinema da França, no fim dos anos 1950. Foi inicialmente aplicado para indicar um estado de espírito generalizado da cultura francesa da época. Terminou associado ao cinema, por meio da obra de diretores como Jean-Luc Godard, François Truffaut e Claude Chabrol. São os mais conhecidos entre os autores revelados pela nouvelle vague. Houve outros. Eric Rohmer, por exemplo.Reestréia hoje, em cópia nova, um dos filmes famosos do começo da carreira de Godard. Uma Mulher É uma Mulher foi o terceiro longa que ele fez, em 1961, após Acossado (À Bout de Souffle), de 1959, e O Pequeno Soldado, rodado em 1960, mas que estreou só três anos mais tarde. Godard tratava nesse filme de um tema polêmico: a presença francesa na Argélia. A bem da verdade, esse é o seu filme que os críticos adoram odiar e usam para dizer que ele evoluiu de um anarquismo de direita para o radicalismo de esquerda de seus trabalhos no fim daquela década, como A Chinesa e Week-End à Francesa. Uma Mulher É uma Mulher é puro Godard nouvelle vague. Conto de Verão, que estréia hoje, é de um autor ligado ao movimento (Rohmer), mas foi feito muito mais tarde, em 1996, quando a nouvelle vague já era uma página importante, mas virada, do cinema francês.O que queriam os jovens franceses, por volta de 1960? Queriam destruir o cinema de regras fixas praticado pela geração anterior. Truffaut, em especial, num célebre artigo na revista Cahiers du Cinéma, investiu contra o cinema de qualidade praticado por Claude Autant-Lara, Julien Duvivier, Christian Jacque e outros cineastas via de regra hostilizados nas páginas de Cahiers. Contra aquele cinema velho, de regras fixas, os autores da nova onda propunham um cinema feito com liberdade de método e estilo. Valendo-se das novas tecnologias - a câmera portátil Arriflex, o gravador Nagra -, transformaram o travelling na expressão da liberdade que buscavam. E ainda conferiram aos movimentos de câmera uma função (ou dimensão) moral.Godard, por ter sido o mais radical, foi (e ainda é) o maior de todos os nouvelle-vaguistas, se é que se pode usar a expressão. Foi sempre o cineasta da ruptura, da desconstrução. Truffaut, o romântico que desconfiava do romantismo, fez obras preciosas, mas no fim da vida dele os críticos se perguntavam se não teria se transformado num cineasta de regras fixas, como aqueles que adorava fustigar. E Chabrol teve tantas fases em sua carreira, incluindo filmes abertamente comerciais, que a sua atração pelos temas das aparências e das máscaras talvez seja metáfora para a própria evolução do autor.Ao contrário de Godard, Rohmer, mesmo tendo participado da revolução da nouvelle vague, foi sempre o mais discreto de seus diretores. E nem se pode dizer, mesmo hoje, quando ele já passou dos 80 anos (nasceu em 1920), que tenha virado uma unanimidade. Quando Conto de Verão estreou na França, há sete anos, os espectadores não se entusiasmaram muito. Alguns até acharam que Rohmer colocava na tela o que as pessoas não precisavam pagar para ver, pois já estava ao alcance delas, na rua. Rohmer não se interessa em ser uma celebridade na mídia. Defende a vantagem do anonimato, valioso num trabalho de observação como é o seu cinema.Diante de Acossado, era possível dizer - e efetivamente muitos críticos disseram - que Godard desconstruía os gêneros clássicos, fazendo um filme que era ao mesmo tempo um western urbano, um musical sem canto nem dança e um policial B que implodia as convenções do cinema de ação. O musical e a comédia americana foram as grandes fontes de referência de Uma Mulher É uma Mulher. A história nunca foi o mais importante para Godard, mas a trama desse filme fornece ingredientes que vale reter. Angelá, a personagem de Anna Karina, quer ter um filho. Seu amante, Émile (Jean-Claude Brialy), não quer. Albert (Jean-Paul Belmondo), que deseja Angelá, oferece-se para ser o pai.Duas cenas ilustram o que Godard quer dizer. Seu filme é um comentário sobre as relações entre homens e mulheres e como os sexos se vêem no mundo moderno. Numa cena, Angelá, que é bailarina numa boate, dança para homens que desconstroem seus movimentos por meio do olhar. Querem fazer dela um objeto para ver e consumir. Angelá não quer ser um objeto e, por isso, precisa do filho, para criar um valor. O tema é interessante de ser discutido neste fim de semana de Dia das Mães. Na outra cena, Émile desconstrói o movimento de uma segunda dançarina e aí fica claro que, para Godard, o homem moderno tem medo da descendência. Entra a astúcia de Albert, que ele desenvolve para realizar seu desejo por Angelá.Conto de Verão pertence à série dos contos das estações, que Rohmer desenvolveu após outras duas séries: contos morais e comédias e provérbios. Mostra Melvil Popaul como o rapaz que acha sua vida em Paris um tédio e vai para a praia, onde se envolve com três mulheres. Com outro diretor, talvez fosse um filme bobo. A arte de Rohmer consiste em retirar encanto e beleza das coisas simples da vida. É uma arte feita de sutileza. A nouvelle vague refletiu-se em todos os novos cinemas dos anos 1960. No Brasil, filtrada pela influência do neo-realismo, produziu o Cinema Novo.

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