SIM CHI YIN| The New York Times
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Nostalgia e surrealismo permeiam a obra de Zhang Xiaotao

Em seus filmes, artista chinês tenta mostrar o que a pressão intensa para alcançar riqueza e sucesso faz com a alma

Jane Perlez, The New York Times

19 Janeiro 2016 | 10h23

CHONGQING, CHINA – Zhang Xiaotao, um dos principais artistas de animação da China, cresceu em um vilarejo no oeste do país onde a ferocidade da Revolução Cultural deixou marcas indeléveis em todos. Seu pai, um líder da Guarda Vermelha local, é uma figura abatida pelo que viu e fez.

Mas não são essas as lembranças de infância de Zhang. Em vez da violência, ele se recorda da imponente igreja católica perto de sua casa, 48 quilômetros ao norte daqui, construída por missionários franceses, na virada do século 20, de suas amplas varandas e colunas, incrustadas de musgo nos meses úmidos do verão, que permaneceram após a violência, e dos altos bambuzais forneciam sombra.

Zhang, de 45 anos, se lembra nitidamente da igreja porque costumava brincar em seu jardim. E, aos 10 anos, quando seus pais o abandonaram para procurar trabalho longe, ela se tornou um lugar onírico para onde levava seu caderno e pintava.

As lembranças desse grande edifício caiado permeiam vários filmes premiados de animação digital de Zhang, que exploram a ânsia chinesa pela modernização. De formas às vezes surreais, os filmes tentam mostrar o que a pressão intensa para alcançar riqueza e sucesso faz com a alma.

Não é tanto a estrutura física da igreja que aparece em sua obra, embora isso também ocorra; é a calma que o edifício passa que, segundo ele, contrasta com a intensidade quase intolerável da China urbana contemporânea.

"Tenho memórias profundas dela. Quando brincava lá, via gente rezando e sentia um forte clima religioso", disse ele em seu estúdio no Instituto de Belas Artes de Sichuan, onde estudou na juventude e agora lidera o novo departamento de Mídia. À sua volta, dezenas de jovens artistas digitais trabalhavam em telas de computador para ajudar a completar uma de suas novas obras.

Não havia padres nem freiras. A Igreja oficial havia sido expulsa da China há muito tempo. Havia apenas homens e mulheres velhos demais para serem arrastados para a loucura da Revolução Cultural, que usavam a igreja da aldeia como um lugar de consolo, assim como Zhang faz hoje.

O trabalho mais recente de Zhang, Primavera em Huangjueping, é um filme de animação digital de duas horas que entrou para o Festival Internacional de Berlim de 2016. Ele estava exultante, pois o filme havia passado pelo primeiro corte do júri.

Ele diz que a ideia do filme é traçar paralelos entre a Revolução Cultural e o período sombrio quase 20 anos depois, quando tentou ingressar no Instituto. Em três ocasiões, foi reprovado no exame de admissão, uma experiência que ainda o persegue.

O filme foi feito com figuras desenhadas no estilo de quadrinhos: jovens estudantes magrelos da época de Zhang usam camisetas e calças básicas, enquanto que os integrantes da Guarda Vermelha aparecem em monótonos uniformes verde-oliva e portando rifles. A paisagem se assemelha às áreas mais duras da cidade industrial de Chongqing e seus arredores em Huangjueping, onde ficam o instituto de arte e seu estúdio.

"O exame difícil de acesso à faculdade e as crenças frenéticas da geração do meu pai: a que ponto essas duas questões se parecem?" Muito, ele conclui.

Durante a infância, Zhang mostrou um talento especial de ganhar dinheiro para bancar sua pintura, uma habilidade que agora o ajuda na animação, uma das formas mais caras de arte contemporânea.

"Comprava revistas em quadrinhos e as alugava para os colegas. E, desde o sexto ano, quando morava sozinho porque meus pais haviam ido embora, meu negócio cresceu; de 50 revistas alugadas, passei para mil."

Quando finalmente passou no exame e entrou para o instituto, encontrou o tumulto da cena de arte dos anos 90, quando artistas chineses eram o mais novo modismo no Ocidente. Na época, o departamento de pintura a óleo, cujos graduados incluem Zhang Xiaogang, hoje um dos mais conceituados pintores contemporâneos da China, era um cadinho de experimentação.

No final dos anos 90, Meg Maggio, advogada americana que dirigia uma galeria de arte contemporânea em Pequim, conheceu Zhang quando ele mostrava seu trabalho na capital, Xangai e Hong Kong.

"Ele produzia pinturas surreais com preservativos coloridos. Mais tarde, ficou conhecido por pintar uma longa série de morangos maduros, ligeiramente podres, alguns mofados", disse Meg, que ainda representa Zhang através de sua galeria Pékin Fine Arts, em Pequim. Em 2006, ela vendeu algumas de suas pinturas para o colecionador britânico Charles Saatchi, incluindo uma de um rato se afogando, de 1,8 metro.

Mas Zhang estava deixando a pintura a óleo. Estudou fotografia por um tempo na Europa, e depois, em 2000, em San Francisco, acabou indo para a animação. "Mudou minha vida", contou. Ele rapidamente se adaptou às habilidades de animação e embora se sentisse tentado a se estabelecer em Nova York, cidade que acha emocionante, decidiu voltar para a China para abrir sua própria empresa.

Seu filme seguinte, Sakya, que, juntamente com Mist, foi apresentado na Bienal de Veneza em 2013, recebeu o nome de um mosteiro budista no Tibete. Ele usa software de modelagem 3D de para criar um clima celestial de peregrinos e mandalas tibetanas e foi elogiado por explorar as limitações à liberdade religiosa.

Para sua próxima aventura, Zhang planeja sair do Instituto de Belas Artes de Sichuan e assumir o comando de uma galeria em Pequim, o Centro de Arte Contemporânea Kylin. Lá, pretende mostrar a arte de todo o mundo e divulgar a arte chinesa no exterior.

Porém, acima de tudo, diz que seu maior desejo é passar mais tempo com o filho, Liang-liang. "Meus pais não passaram muito tempo comigo. Sinto-me culpado por não ver meu filho o suficiente e sinto falta dele. Prometi levá-lo a Nova York para ver a grande arte." 

 

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