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‘Nostalgia da Luz’ estreia sob o impacto da premiação de Patricio Guzmán em Berlim

Produção de 2010 veio antes do premiado 'El Botón de Nácar'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2015 | 03h00

Estreia nesta quinta, 26, A Nostalgia da Luz, mas, antes de começar a falar do excepcional documentário de Patricio Guzmán, é bom lembrar que, neste ano, no Festival de Berlim, não houve filme melhor que El Botón de Nácar, o novo filme, também documentário – e poético –, do autor chileno. Mesmo assim, o júri presidido por Darren Aronofsky preferiu premiar o iraniano Táxi, de Jafar Panahi. Afinal, o cineasta continua confinado no Irã e proibido de dirigir – o que faz clandestinamente. Quando o fazia entre quatro paredes, parecia mais fácil, ou crível, manter essa clandestinidade. No caso de Táxi, Panahi não só dirige como atua, e no papel do motorista do táxi, com direitos a tomadas que olham de fora para dentro do veículo. Tudo isso passou despercebido – como, num regime policialesco como o do Irã? –, mas digamos que sim, e ainda bem. É importante que Panahi siga filmando – resistindo. Mas foi injusto com Guzmán. Táxi é bom, Botón de Nácar é excepcional.

Aronofsky justificou o prêmio dizendo que a adversidade estimula a criatividade, e o próprio Panahi, num comunicado, acrescentou que filma para seguir vivendo. Patricio Guzmán vive no exílio, na França. Já pode voltar ao Chile, após a nefanda ditadura de Augusto Pinochet. E volta – para filmar. Guzmán não filma apenas para se sentir vivo, mas para honrar os mortos pela ditadura chilena. Como Botón de Nácar tem texto do diretor, e se trata de um texto poético, Aronofsky e seus jurados acharam que, na partilha dos prêmios, estaria bem dar o prêmio de roteiro para o documentário de Guzmán. É quase sempre assim – júris não sabem como reagir diante de documentários, a menos que sejam festivais específicos.

Botón de Nácar conta uma história da água e, quando o espectador se dá conta, do oceano Pacífico emergem os signos evidentes da ditadura de Pinochet. O botão de nácar é um deles. Em A Nostalgia da Luz, Guzmán não vai ao mar, mas ao deserto. O Atacama, o lugar mais seco da Terra. Ali foi construído o maior e mais potente telescópio do mundo para perscrutar o universo. A visibilidade, mesmo a olho nu, é impressionante. Deitar-se, à noite, no Atacama, e olhar para cima é descobrir uma paisagem que a poluição do ar das cidades não permite mais antever. No Atacama, o ar, a luz possuem uma densidade especial, um filtro – você olha e vê os milhões/bilhões de estrelas que os especialistas dizem existir no universo.

Ele é infinito, finito? É matéria de discussão em A Teoria de Tudo, de James Marsh, outro filme em cartaz. No Atacama, falando da luz e do esforço dos astrônomos para decifrar os mistérios do universo, Patricio Guzmán ilumina outra coisa – a luta daqueles que escavam na areia e na pedra, em busca de... evidências? Assim como lançava ao mar cadáveres, e às vezes as pessoas nem estavam mortas, para ocultar seus crimes – a tragédia dos desaparecidos –, a ditadura chilena, como máquina de matar e ocultar, também enterrava os mortos no deserto. Naquele areal imenso, os algozes não deixavam uma cruz, uma pedra, nada que identificasse os locais de desova dos torturados e assassinados. As famílias escavam, metro a metro. Uma busca interminável como a dos astrônomos. Nostalgia da Luz é de 2010, e estreia somente agora. El Botón de Nácar é deste ano. Que estreia logo. Teremos dois filmes de Guzmán entre os melhores do ano. Dois filmes de Guzmán como os melhores do ano.

‘A Astronomia, como tudo na vida, também é política’

Num encontro para debater o filme em Paris, diretor fala de seu desejo de honrar a luta das mulheres chilenas

Foi ano passado, depois de Berlim. O repórter passou alguns dias em Paris. Houve uma apresentação especial de A Nostalgia da Luz, seguida de debate com o diretor, num daqueles cinemas de arte/ensaio do Quartier Latin. Guzmán, sua mulher e produtora e, na plateia, um monte de exilados que exorcizavam o horror da ditadura de Augusto Pinochet. Guzmán pertence à geração de Manuel Littin. Participou, como cineasta/documentarista, do sonho do governo de Unidade Popular de Salvador Allende. Fez El Primer Año, La Respuesta de Octobre. Em 11 de setembro de 1973, o Palácio de La Moneda foi bombardeado, Allende morreu, Augusto Pinochet assumiu o poder, e iniciou a repressão brutal.

No início, na França, Guzmán continuou com sua obra de documentarista. Fez uma série – La Batalla del Chile –, dividida em três partes. Uma trilogia – A Insurreição da Burguesia, O Golpe de Estado, O Poder Popular. Seguiu ‘documentariando’ – Chile, La Memoria Obstinada, El Caso Pinochet, Salvador Allende, Nostalgia da Luz, O Botão de Nácar. O Instituto Moreira Salles lançou A Batalha do Chile em DVD. O Caso Pinochet já se abre com as imagens de escavação no deserto do Atacama, ao mesmo tempo observatório da humanidade e ossário dos que ousaram sonhar com um governo popular na terra das oligarquias do cobre e do vinho.

Uma mulher dá um depoimento contundente – “Gostaria que os telescópios não olhassem só para cima. Que olhassem para baixo e, atravessando camadas de terra, nos pudessem dizer, finalmente, onde eles estão (nossos mortos).” Guzmán mostrou A Nostalgia da Luz na seleção oficial do Festival de Cannes. “Acho que tudo começou quando descobri o observatório no deserto. Ao visitar o local, fiquei perturbado, e mais ainda quando encontrei aquelas mulheres e uma delas, Victoria, disse que queria me mostrar uma coisa. Ela me mostrou restos de ossos. Foi assim que começou.”

Pinochet ainda estava vivo, e poderoso, quando essas mulheres começaram a escavar no Atacama. “Foram um exemplo de fibra e perseverança moral. Foram caçadas, perseguidas, presas. Sofreram coação e violência, mas não desistiram.” Guzmán compara o Atacama a Marte. “Não tem uma gota de umidade e, pela composição de seus elementos, o solo é vermelho. Seguindo as mulheres, e lincando a luta delas com o esforço dos astrônomos, ficou claro que a astronomia pode ser política. É o tema de A Nostalgia da Luz. Tudo é política, e por isso não gosto que direitos humanos virem tema de festival. É compartimentar um tema, e uma luta, que devem ser de toda a sociedade.” / L.C.M.

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