Marcos Mendes/Arquivo/AE
Marcos Mendes/Arquivo/AE

Nossas mazelas nas telas

Com 'Corumbiara', Vincent Carelli joga luz sobre um episódio constrangedor do passado do Brasil

Pablo Pereira, do estadao.com.br,

16 de agosto de 2009 | 12h36

Há quase 15 anos conheci Vincent Carelli, o ganhador do maior prêmio de cinema no festival de Gramado na noite de sábado, 15, com o documentário Corumbiara. Nosso primeiro encontro ocorreu nas matas do sul de Rondônia, eu como repórter do Estado, atrás da história de índios isolados ameaçados de extinção, ele como cineasta, documentando a ação de um grupo de abnegados da Funai que tentava proteger o que sobrara de uma raça brasileira, numa batalha que já durava anos.

 

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Andamos por três dias, a pé, dormindo em redes, à mercê dos insetos e de jagunços, numa área bem próxima, se consideradas as dimensões amazônicas, daquela na qual ocorrera, também num mês de agosto, o terrível massacre de Corumbiara, uma brutalidade contra acampados, que resultou na morte de 9 sem-terra e 2 PMs.

 

Vincent era um homem estranho. Àquela época, em 1995, já tinha morado em meio a índios, carregava marcas da vida na selva no corpo e, naquela empreitada de três dias dormindo na mata, ao encontro de índios acuados, foi vítima da vida dura de mateiro: passou duas noites em rede, gemendo no escuro, acometido por uma violenta infecção intestinal - que até hoje suponho ter sido uma contaminação ao beber água em riacho na mata.

 

Com sua câmera, baterias extras, e outros badulaques dessa gente maravilhosa, que vive gravando imagens - para depois nos refrescar a mente sobre nossas mazelas sociais mais chocantes -, Vincent superou as dores, manteve-se na marcha diária em fila indiana, e gravou em vídeo a expedição até o momento do encontro com um casal de viventes, que a Funai identificou como remanescentes dos kanoê, um povo já contactado por expedições de Rondon.

 

A história dessas três noites sob o manto da mata amazônica foi contada em reportagens publicadas no Estado, e parte virou referência sobre os kanoê no Instituto Socioambiental, que lembra o episódio em seu site.

 

As fotos para o Estado foram feitas pelo paciente Marcos Mendes, companheiro daquela jornada nos confins amazônicos, também carregado de lentes e apetrechos.

 

Agora, com alegria, quero reencontrar Vincent Carelli coroado pelo Kikito em alguma tela de cinema. Seu trabalho joga luz sobre mais um episódio constrangedor do passado do Brasil: a força das armas usada contra grupos sociais e étnicos, miseráveis e desprotegidos, abandonados pelo Estado brasileiro no fundão do país.

 

Dá-lhe Vincent!

 

Espera-se, agora, alguém que também nos refresque a memória no cinema com o vergonhoso massacre de Eldorado dos Carajás, onde 19 pessoas foram assassinadas num confronto com a polícia do Pará. Por coincidência, também como jornalista do Estado, andei por lá naqueles dias. Mas essa é outra história - que também ficaria muito bem numa tela grande.

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