Nos cinemas, Tristão e Isolda, a lenda do amor impossível

Não há nada de mais nesta enésima versão para a tela de Tristão & Isolda, desta vez sob a batuta (bem, talvez a expressão seja exagerada) de Kevin Reynolds. Nada demais, mas também nada de menos. É versão digna de uma das grandes histórias de amor da humanidade, levada um dia ao paroxismo operístico por Wagner.História clássica: o britânico Tristão fica órfão quando os pais são assassinados durante uma invasão dos irlandeses. É adotado por Merke, seu tio, e, ao crescer, torna-se seu principal guerreiro. Durante um combate, Tristão (James Franco), dado como morto, é salvo por Isolda (Sophia Myles) que o cura com poções e o aquece com o calor do próprio corpo. Nu. Nasce a paixão. Circunstâncias políticas levam Isolda a casar-se com Merke (Rufus Swell), o tio do herói. Mas o desejo entre Tristão e Isolda revela-se maior do que as conveniências - e produz resultados desastrosos.O tom deve ser trágico, pois a história esboça uma situação sem saída. Os dilemas em jogo são, mais uma vez, clássicos: a paixão individual contra as razões de Estado; o desejo contra as conveniências familiares; o poder da carne contra o senso moral.Esses impasses pedem um tom carregado, mas Reynolds opta pela discrição, a partir mesmo do registro fotográfico empregado. O tom é ocre, quase o tempo todo, pois a respiração da violência, e depois da culpa, vence sobre a presença do desejo entre os amantes. E aqui talvez seja a principal falha do projeto - o excesso de pudor em situações nas quais se espera pelo menos alguma temperatura erótica. Não, não é preciso que nada seja explícito, nem grosseiro, mesmo porque o sugestivo muitas vezes tem mais força e poder do que aquilo que se joga na cara do espectador. O problema é saber o que se sugere e o que se mostra. De qualquer forma, a relação entre os amantes em Tristão e Isolda parece pudica demais para levá-los aonde têm de ir, à renúncia (pelo menos temporária) a todas as conveniências.Da mesma forma que o erotismo é apenas sugerido, também a violência passa sob relativo silêncio. Nesse mundo de paixões, entre Eros e Tânatos, Reynolds opta pelo registro discreto. Essa, que poderia ser uma virtude (e, em certo sentido é mesmo) também implica sua relativa fraqueza. E, de repente, mesmo que estejamos simpatizando com o filme, nos lembramos que é dirigido pelo mesmo cineasta de Rapa-Nui e Waterworld - aquele fantástico fracasso de Kevin Costner.Claro, ninguém deve ser condenado a priori por equívocos do passado. Mas, de certa forma, existe uma certa coerência na linha de conduta de Reynolds, naquilo que se poderia chamar de seu "estilo". Estilo que existe, mesmo no cinema comercial, pelo menos enquanto o diretor ainda manda alguma coisa e não deixa o projeto cair sob a gerência completa da produção. E não existe nenhum motivo para duvidar de que esses filme citados, e também Tristão e Isolda, não expressem a visão de mundo do diretor.E esse é o problema: Reynolds produz uma versão digna, como se disse, mas não consegue passar desse limite. Relata fielmente a lenda da Idade Média, ou de uma de suas versões, já que são muitas as variantes, mas não consegue mesmo (ou não quer) chegar à sua essência. Esse núcleo, doloroso e trágico, diz respeito a uma paixão fatal e sem remédio. E talvez, em sua versão mais dura, não se preste mesmo ao cinema comercial, que sempre tem de trabalhar com meias tintas. Enfim, Reynolds faz o que pode. Tristão e Isolda (Tristan & Isolde, EUA-Ing-Ale/2003, 125 min.) - Romance. Dir. Kevin Reynolds. 14 anos. Em grande circuito. Cotação: Bom

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