Nos cinemas, "Pintar ou Fazer Amor", dos irmãos Larrieu

"Pintar ou Fazer Amor". O título dofilme dos irmãos Arnaud e Jean-Marie Larrieu se refere a duasações como se fossem excludentes. O ideal seria Pintar e FazerAmor, mas, na verdade, o filme, que estreou nesta quinta-feira, também é duplo. A primeira parte, a da pintura, propriamente dita, é a melhor. A dupla de diretores cria uma espécie de sensualidade da imagem, por meio das paisagens, da iluminação. Na parte transgressora do filme, a de fazer amor, a coisa fica mais complicada. Foi o que a reportagem observou a Jean-Marie, em Cannes, em 2005, um pouco influenciado pela reação do jornalista, que acusou a dupla de diretores de fazer, não amor, mas ?du cochon? (pornografia). Talvez, tenha sido exagero, pois "Pintar ou Fazer Amor"trata do desejo de uma forma pouco freqüente na produçãocinematográfica. Jean-Marie e Arnaud Larrieu deram umaentrevista a um pequeno grupo de jornalistas, mas, desta vez, oque é raro, os irmãos meio que se dividiram e o repórterterminou falando mais com Jean-Marie. "Pintar ou Fazer Amor"conta a história de um casal burguês. O marido é pintor. Os doisvão para uma casa-estúdio isolada. Ali perto, mora outro casal.O cara é cego. As duplas começam a freqüentar-se, até mesmo nosentido do conhecimento carnal. Jean-Marie diz que o título dofilme é irônico. "Partimos da idéia de que seria interessantenos interrogarmos - o que ocorre quando acaba a vida social?Também queríamos mostrar que coisas excepcionais podem ocorrer apessoas comuns. Nossos personagens podem viver confrontados comgrandes questões, como a Arte, o Amor, o Desejo, mas não sãoheróis, nem mesmo pessoas de formação erudita. São pequenosburgueses medíocres de província que atravessam esses grandessentimentos e isso era interessante de representar." Nos filmes anteriores, os irmãos haviam trabalhado comatores pouco conhecidos. Em "Pintar ou Fazer Amor", reuniram umtime respeitável do cinema francês atual - Daniel Auteuil,Sabine Azéma, Sergi López. Jean-Marie diz que foi um prazercompartilhar a experiência com eles. Antes de chegar aos atores,e aos astros e estrelas, Arnaud e ele filmaram muito animais. Éum trabalho delicado, que exige observação e uma certa distância Foi assim que trabalharam com o elenco de "Pintar ou FazerAmor". Sabine disse que o método foi perfeito porque ela éextrovertida e os irmãos foram introvertidos, e também porqueDaniel (Auteuil) e ela são como pássaros, representandoconjuntamente. Para Jean-Marie, o filme não é maldoso. Atransgressão, como ele diz, é doce. Num filme sobre pintura, noqual um personagem é cego, o erotismo das paisagens éfundamental. "As paisagens, para mim, pelo menos, eram comocorpos nus. Lamentei muito que tivéssemos de cortar a cena naqual William (o cego) diz que as paisagens são como corpos nusque temos de atravessar. É o meu sentimento."Um filme límpido sobre o ponto cego do desejo Não há como ficar indiferente quandoestão na tela atores como Daniel Auteuil e Sabine Azéma. Sãoatores, não bonecos. Isso quer dizer que sempre que estão emcena algo de interessante acontece, de maneira explícita ousugerida. Há muito silêncio, há muito jogo de reticências eelipses significativas até entrar em quadro o verdadeiropersonagem deste "Pintar ou Fazer Amor" - o desejo humano e asvariantes paradoxais. Auteuil é William e Sabine é Madeleine, casal demeia-idade pronto para uma entrada tranqüila na velhice. Maisainda porque William se aposentou (era meteorologista) eMadeleine busca na pintura uma distração. Moram no campo, numlugar maravilhoso, e tornam-se amigos do prefeito Adam (SergiLopez) e da primeira-dama, Eva (Amira Casar). Por um momento,nota-se falta de sutileza neste filme de Arnaud e Jean-MarieLarrieu: Adão e Eva, o homem e a mulher primevos, tocados eunidos pelo pecado original. Mas esta alusão bíblica não durasenão um momento, e logo estamos de novo imersos na delicadezada campanha francesa, no bucólico de uma cidadezinha minúsculaao norte do país, na convivência de seres humanos em aparênciaapaziguados. Essa visão campestre evoca alguma coisa de Renoir e,talvez, de Rohmer. Existe alguma coisa de lírico, silvestre efresco que, depois, será quebrado pela insinuação na histórialinear do elemento ambíguo do desejo. É como se o espectador,até um certo ponto do filme, estranhasse a ausência de conflitona trama (uma exigência hollywoodiana, tida como indispensávelpelo gosto médio) e se perguntasse aonde aquela história poderiair. Como se essa hipotética ausência de conflitos conduzisse oenredo a uma irremediável monotonia campestre. Mas, depois que tudo começa a se transformar (e nãodiremos o quê), o filme passa a funcionar como uma espécie dethriller do inconsciente, no qual o espectador é levado a seperguntar sobre os motivos do comportamento dos personagens.Como sabemos, para certo tipo de pergunta, não existem respostas pelo menos respostas claras, unívocas, irretocáveis. Tudo o quese pode fazer é formular hipóteses. Estas caberão à capacidadede imaginação do espectador - a quem, afinal, o filme édestinado. Esse thriller sexual-existencial, talvez, nãofuncionasse tão bem não fosse a sobriedade da filmagem, clara,límpida, sem penduricalhos. Capaz, portanto, de dar todo orelevo a uma história em aparência calma, mas que sugere algunsturbilhões abaixo da linha d?água. Existem também algumasalusões, resisto até a chamá-las de simbolismos, como os citadosnomes do casal, Adão e Eva, e também o fato de que o personagemde Sergi López seja cego. Há um ponto em que o desejo não sedeixa descobrir, mesmo que se olhe para ele de todos os lados. Éo que lhe dá força e mobilidade, afinal.

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