Nos cinemas, Mulheres do Brasil, de Malu de Martino

Quarta-feira foi um dia de muitas emoções para a equipe de Mulheres do Brasil, o longa de Malu De Martino, produzido por Elisa Tolomelli, que estréia hoje em todo o País. No horário do almoço, parte dela foi a Brasília assistir a uma exibição do filme para funcionárias do Palácio do Planalto, no quadro das comemorações do Dia Internacional da Mulher. À noite, a diretora e a produtora estavam em Maceió para mostrar Mulheres do Brasil numa exibição especial para as rendeiras que fornecem o quadro para o episódio alagoano. Malu nem se importou de remontar o filme, numa versão autocensurada, especialmente para a sessão. "Mulheres têm impropriedade até 16 anos e nós vamos exibir o filme em praça aberta, para uma platéia formada por crianças e adolescentes, além do público adulto", ela explicou ao repórter, numa entrevista por telefone, a caminho de Alagoas. Documentarista, diretora do curta Ismael e Adalgisa, Malu tem consciência de haver aprendido muito no processo de realização desse filme. Afinal, Mulheres do Brasil foi feito em cinco cidades (Salvador, Maceió, Curitiba, Rio e São Paulo), com equipes e patrocínios locais. Elisa Tolomelli, que ministra cursos de produção pelo País, costurou parcerias regionais. "O fato de termos trabalhado com equipes locais, inclusive com a preocupação de formar mão-de-obra, motivou muita gente e também deu autenticidade a cada episódio." A mistura de documentário e ficção também rendeu bons dividendos, assegura a diretora. "Pela própria duração de cada história, em torno de 20 minutos, sabia, desde o começo, que não conseguiria aprofundar todos os temas, mas a pontuação documental deu mais consistência ao conjunto." Ela sabe que, trabalhar com uma narrativa episódica, implica um risco - o da falta de homogeneidade. É muito difícil evitar que alguns episódios saiam melhores do que outros. Mas ela acha que conseguiu, com Elisa, "uma certa unidade". Começa com o episódio de Salvador, com Camila Pitanga como a garota de programa que vira amante de um político e, após o rompimento litigioso com ele, cai, literalmente, na vida. A garota de Curitiba, Carla Daniel, é atraída por um radialista que pensa ser o homem de sua vida e também se prostitui. Deborah Evelyn faz a amiga. Em Maceió, uma jovem pesquisadora descobre, com Dira Paes, a força das mulheres rendeiras. No Rio, uma porta-estandarte (Roberta Rodrigues) cai na avenida e pensa que, por isso, seu mundo ruiu, mas a história continua. No episódio paulista, uma divorciada (Bete Coelho) tenta retomar a carreira e a vida afetiva. Esta última história fecha um círculo que remete à trama inicial. Estruturas narrativas circulares produzem impacto em filmes como Tempo de Violência (Pulp Fiction), Amores Brutos, O Círculo e Crash - No Limite, que acaba de ganhar o Oscar. A narrativa circular de Mulheres do Brasil pode não ter essa riqueza toda, mas não é só o desfecho que faz a ligação - Malu distribuiu pequenos toques e observações que fazem a ligação das histórias. Ela define o recurso como "as nossas dicas no estilo Onde Está o Wally?" As atrizes foram fundamentais no projeto. A que seria a madrinha de Mulheres do Brasil, Christiane Torloni - com quem Malu fez Ismael e Adalgisa -, precisou, por absoluta falta de tempo, desligar-se da produção, mas agregou Roberta e Carla. Com todas, Malu trabalhou uma coisa que persegue em seu cinema, que é a naturalidade. Ela não tem pudor de assumir que Mulheres do Brasil foi feito com a proposta de entreter. "Gosto de falar de coisas que estejam próximas do universo do público. Por mais superficiais que sejam nossas histórias, elas tocam em temas profundos - solidão, perversão, ilusão, desilusão. Só não pude trabalhar a naturalidade com a Bete, que entrou no projeto depois, mas creio que a teatralidade da atriz serve à personagem que amarra o filme." O resultado é simpático, apesar dos clichês, e episódios como os do Rio e Curitiba vão além disso - são bons. Mulheres do Brasil (Br/2006, 113 min. ). Drama. Dir. Malu De Martino. 16 anos. Em grande circuito. Cotação: Regular.

Agencia Estado,

10 de março de 2006 | 10h57

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