Nos cinemas, <i>Olhar Estrangeiro</i>, filme de Lúcia Murat

Há seis anos Lúcia Murat vinha trabalhando, silenciosa epacientemente, no projeto de Olhar Estrangeiro. O filme queestréia hoje custou pouquíssimo, confessa a diretora de QuaseDois Irmãos, envolvida, atualmente, numa produção mais complexa(e custosa), Eu Prefiro a Maré - inovadora proposta de musicalbrasileiro contando a história de um casal de jovens da favelacarioca. Lúcia tem viajado muito para o exterior. Nessas viagensacumulou o que define como ?raiva?. Mesmo no Sundance, teoricamente um lugar de gente jovem,artistas independentes da estrutura do cinemão, ela flagrasempre o preconceito contra o latino - e o brasileiro. "Elessempre esperam que eu saia dançando samba. No fundo, acham que abrasileira é uma prostituta que vai dormir com todo mundo."Essa insatisfação, essa raiva foi crescendo dentro dela.A ofendida Lúcia, normalmente tão paciente, resolveu dar o trocoA idéia surgiu despretensiosa, como uma brincadeira. "Ah, vocêsnos vêem assim? Pois agora vão ver como a gente vê vocês." Lúciasempre soube que queria fazer alguma coisa no registro dodocumentário. O problema era saber exatamente o quê. "Precisavaencontrar o meu viés, porque o assunto é muito amplo e nãopoderia ficar falando genericamente. Preconceito generalizadoAfinal, esse preconceito égeneralizado e não se reduz ao cinema, embora este me interessemais, por ser meu campo de atuação." Foi um encontro casual comDudu Miranda, fotógrafo e câmera, que morou nos últimos doisanos em Nova York, que a colocou na pista. Como estrangeiro nosEUA, Dudu vivenciou de perto a questão e muitas vezes entrou emchoque com o clichê que mesmo os amigos construíam para ele, porser brasileiro. Por meio de Dudu, Lúcia chegou a Tunico Amâncio,autor do livro O Brasil dos Gringos, Imagem e Cinema. "O livro já foi uma pesquisa para mim, ao trabalhar como universo dos filmes que fornecem uma visão distorcida doBrasil. Com o Tunico e o Dudu descobri o rumo a tomar e pudecomeçar os trabalhos."Tunico Amâncio fez uma tese. Lúcia encampa a pesquisa e oconceito, mas não o formato. Foram seis anos de câmera dedigital na mão e entrevistas que Lúcia e Dudu foram colhendo emfestivais, no País e no exterior, sempre com o objetivo demapear esse olhar estrangeiro sobre o Brasil - e os estereótiposque ele constrói. Carmem Miranda, ao mesmo tempo que sebeneficiou dele para adquirir projeção internacional, foi vítima Ao mesmo tempo que colhia os depoimentos, Lúcia colhia osdireitos de utilização das imagens de filmes e entrevistados, umprocesso complicado, que muitas vezes envolvia negociaçãofinanceira (e ela não tinha dinheiro). Terminou conseguindo a liberação dos direitos para oBrasil (e para o foro livre representado pelos festivaisinternacionais). Na França, na Suécia e nos EUA, Lúcia localizoupessoas que participaram ou fizeram esses filmes e tentoudiscutir com elas o porquê de tantos personagens e/ou situaçõesequivocadas. Entre outros, deram depoimentos Michael Caine, JonVoight, Hope Davis e Zalman King, cujos nomes estão ligados afilmes como Feitiço no Rio, Orquídea Selvagem, O Campeão,Amazônia em Chamas, Próxima Parada: Wonderland, feitos entre1979 e 99, e o mais antigo O Homem do Rio, do francês PhilippeDe Broca, de 1964. Nesses encontros, Lúcia descobriu que oclichê, embora seja o mesmo, pode adquirir certas nuances. "Oeuropeu, tipo o velho Homem do Rio, é mais carinhoso. ZalmanKing, de Orquídea Selvagem, é barra-pesada." Com que direito essas pessoas projetam essa visãoesculachada da gente? Quem elas pensam que são? O troco aparecena tela. Zalman King achou que estava dando uma entrevista parauma reportagem e não gostou do filme que viu. Foi agressivo.Hope Davis, atriz do filme de Brad Anderson Wonderland, pelocontrário, ficou envergonhada. E Philippe De Broca, o únicodiretor de comédias da nouvelle vague, embarcou numa viagemnostálgica, com saudades do Rio que conheceu no começo dos anos60, em companhia de Jean-Paul Belmondo. Nas sessões de OlharEstrangeiro realizadas em festivais brasileiros, o público temcaptado a intenção de Lúcia e se divertido. Qual será agora areação no circuito comercial, mesmo num lançamento pequeno,seletivo?É bom colocar entre aspas, ou relativizar, o que Lúcia Murat dizao falar de ausência de pretensão. "Olhar Estrangeiro" encobreum outro nível de intenção. A antiga guerrilheira que refletiusobre seus anos de presa política em "Quase Dois Irmãos"continua encarando, no cinema, a subversão. A Hope Davis, queficou tão chateada ao descobrir que sua personagem, umabrasileira que falava espanhol, era um equívoco completo, elarespondeu - "Não liga não, que a gente está acostumada" É contraisso, essa baixa estima, que se insurge Olhar Estrangeiro. "Nãopodemos ficar tolerando essas coisas, mesmo quando sabemos queas pessoas não fazem por mal e, sim, porque já existe umestereótipo que elas simplesmente estão seguindo." Há umadimensão fortemente política por trás da brincadeira de LúciaMurat. Olhar Estrangeiro inscreve-se num projeto de resgate dacidadania do brasileiro. O olhar do filme é brasileiro sobre osestrangeiros. Olhar Estrangeiro (Br/2006, 71 min.) - Documentário.Dir. Lúcia Murat. 14 anos.

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