Nos cinemas, <i>O Guardião</i>, do argentino Rodrigo Moreno

Havia grande expectativa pelo único concorrente latino-americano no Festival de Berlim deste ano. El Custodio não decepcionou. O longa de Rodrigo Moreno que estréia nesta sexta-feira, com o título de O Guardião, foi recompensado pelo júri presidido por Charlotte Rampling com o Prêmio Alfred Bauer, para obras que abrem novas possibilidades para a arte cinematográfica O mais curioso é que O Guardião estréia justamente nesta sexta-feira, quando o público começa a ver outro vencedor da Berlinale de 2006 - A Caminho de Guantánamo - e quando também entra em cartaz o filme americano The Guardian, rebatizado como Anjos da Vida. Sem nenhuma ligação com a fantasia de H.G. Wells, Rodrigo Moreno conta a história de um homem invisível. Ruben, interpretado por Julio Chávez, é o guardião de seu filme. Trabalha como guarda-costas do ministro da ?planificação?, um ministério que não existe na Argentina e que o autor criou para contar a história desse ?sombra?. Em Berlim, e, depois, no Rio, onde participou de uma oficina de roteiristas, Moreno reconheceu seu débito com Akira Kurosawa, mesmo que O Guardião não tenha muito a ver com Kagemusha - A Sombra do Samurai. "Ninguém filmou o sombra como Kurosawa", ele concorda. Moreno participou de três laboratórios de roteiros antes de filmar O Guardião. Ele diz que trabalhou muito no aprimoramento do projeto, mas concorda com Antonioni; roteiros são páginas mortas. "São só uma intenção, uma utopia. O que importa é o filme, no qual o roteiro sofre todo tipo de transformação e interferência." Ao se lançar a este projeto tão ambicioso, no qual mais de um crítico viu uma promessa de rigor digna de Robert Bresson, Moreno diz que não pretendeu fazer um comentário social sobre a Argentina. "Achei que abordar um personagem lateral, um homem sujeito à existência de outro seria interessante, até para descobrir como se conta essa história." Ele se afastou deliberadamente de todo vínculo com a realidade mais próxima. "Queria explorar uma problemática mais profunda." O ministro é de segunda linha, um burocrata sem paixão, que foge ao figurino de corrupção e prepotência que o cinema (e a própria vida) esculpe para muitos ocupantes do cargo. O diretor, de qualquer maneira, não se furta de expressar sua opinião política, enfatizada no discurso vazio que caracteriza o personagem. Para o guardião, ele precisava de um grande ator que tivesse a capacidade de não atuar. "O personagem é opaco, não dou muitas informações sobre ele, não dei nem a Julio Chávez." A trajetória de Ruben, de qualquer maneira, é clara. O espectador percebe a solidão, o isolamento, o desastre da vida familiar e também a obsessão pelas normas e pelo bom desempenho. Tudo prepara o desfecho, que foi o ponto de partida do diretor-roteirista. Moreno, segundo ele próprio, fez um filme sobre a contradição. O Guardião (El Custodio, Arg-Fr-Ale-Uru/ 2006, 95 min) - Drama. Dir. Rodrigo Moreno.

Agencia Estado,

17 Novembro 2006 | 11h05

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