Nos cinemas, <i>Déjà Vu</i>, estrelado por Denzel Washington

Déjà vu é a expressão francesa que serefere àquele sentimento de que já vivemos o mesmo momento antes. Freud em pessoa se apropriou do termo e teorizou sobre ele.Enfim, há toda uma tradição literária e científica relacionadaao déjà vu. Ninguém em sã consciência poderia pensar que iriaser também o título de um filme de ação americano - e dirigidopor Tony Scott, ainda por cima. É verdade que se trata de umfilme de ação com muitas pretensões intelectuais, o que não sesabe se o desculpa, ou agrava seu caso. O protagonista é Denzel Washington, no papel do policialDoug Carlin. Acontece um atentado terrorista em New Orleans(depois do Katrina), no qual morrem mais de 500 pessoas. Uma dasvítimas, Claire (Paula Patton), no entanto, parece ter sidomorta duas horas antes da explosão. Investigando o caso, Dougentra em contato com um grupo de cientistas do FBI, criador deuma parafernália que permite ver o cotidiano de qualquer pessoa,com quatro dias de atraso. Assim, é possível reconstituir, dequalquer ângulo que se queira, tudo o que se passou na cidade,com essa defasagem no tempo. E, por falar em tempo, ossupercomputadores também parecem capazes, a troco de um riscoconsiderável, de encontrar uma maneira de mandar coisas, etalvez pessoas, ao passado. Bem, está aí aberta a possibilidade teórica, esta tãoantiga quanto o rascunho da Bíblia, de voltar ao passado parainterferir no presente, talvez para evitar algo desagradável quetenha se produzido e que possa ser modificado. Enfim, você podelembrar de todas essas histórias, a começar pelo clássico AMáquina do Tempo, baseada em H.G. Wells, e terminando com oExterminador do Futuro, com Arnold Schwarzenegger. Essasviagens no tempo, para a frente e para trás, convém lembrar,derivadas da possibilidade teórica aberta pela física moderna, apartir de Einstein. O curioso é que Déjà Vu se propõe essa travessia pormares estranhos no sentido de prevenir algo de muito concreto -um crime, um atentado terrorista, cujas razões não ficam claras.Isso sem se lembrar (ou talvez se lembrando e em seguida seesquecendo) de um filme bem recente, e bem melhor, que trataexatamente desse assunto - Minority Report, de StevenSpielberg. Ora, nesse filme de Spielberg a projeção era a de umtempo em que os crimes eram detectados antes mesmo de seremcometidos e assim se podia evitá-los. Os candidatos a criminososeram detidos antes que pudessem realizar os atos que desejavam eficavam devidamente congelados para segurança geral da nação.Assim, eram criminosos em potencial e não em ato. MinorityReport não pode nem de longe ser considerado um grande filme,talvez nem mesmo bom, mas pelo menos tinha esse mérito decolocar um discussão interessante em pauta - qual o sentido daresponsabilidade se alguém é detido antes mesmo de cometer umdelito? Onde fica a famosa liberdade individual, olivre-arbítrio das pessoas? Bem, se pode dizer, essa discussão era um subproduto dofilme de Spielberg. Certo, e também não é errado afirmar que umfilme se mede não apenas pelo entretenimento que proporciona,mas pela possibilidade de nos fazer pensar em coisasinteressantes, e talvez polêmicas, depois de assisti-lo.´Desperdício´ E, se é esse o caso, Déjà Vu deve ser consideradopouco mais do que uma nulidade, uma vez que não temos vontade dediscutir coisa nenhuma depois de vê-lo. Aliás, o desejo é deesquecê-lo o mais rapidamente possível. E não por causa de suaspremissas pseudocientíficas, porque estas, bem utilizadas, podemdar um ponto de partida para a ficção. Mas o que se nota no longa de Tony Scott é uma absolutaincapacidade de aproveitar uma idéia potencialmente interessantepara desenvolvê-la com um mínimo de criatividade. Pelo contrário o espectador deverá enfrentar uma exposição das maisintrincadas e confusas, sem que isso se justifique no contextoda história a ser contada. Não se entende, com o que tem a dizer que Scott leve mais de duas horas (exatos 128 minutos) paracontá-la. Essa duração, por mais que se diga que o tempo érelativo, não encontra justificativa interna para existir. Tudodura demais, tudo se arrasta. Fosse mais sintético, talveztivesse feito um filme melhor. Mas não, Déjà Vu se arrasta, com o detalhismo de algomuito intrincado, e que no entanto parece simples demais sereduzido à sua proposta: voltar ao passado para tentar evitaralgo ruim do presente. O problema é outro: é que esse tipo deproposta, se não for bem pensada, acaba caindo em ciladasinsolúveis, em absurdos lógicos que tiram a credibilidade dahistória. Cada ficcionista que se propõe voltar ao passado paraalterar qualquer detalhe precisa prever que isso trará mudançasenormes no presente. Nem sempre a história pode dar conta dessastransformações. E então dificilmente as contas conseguem fechar nesse sentido. Anão ser que se use o expediente que usou, por exemplo, ocurta-metragem Barbosa, de Jorge Furtado e Anna Luiza Azevedo,que foi o de mostrar a impossibilidade de alterar a história. Nocaso, a final da Copa do Mundo de 1950, quando o Brasil perdeupara o Uruguai por 2 a 1. O personagem volta ao passado paraavisar ao goleiro Barbosa onde a bola chutada pelo uruguaioGigghia iria e só contribui para que o gol realmente seja feito. Mas, claro, supor essa imutabilidade daria a Déjà Vuum caráter trágico que Tony Scott não poderia assumir num filmedestinado ao grande público. Seria dizer que nada se pode fazerem relação ao que está escrito e que só podemos cuidar do nossopresente, porque o passado já foi e o próprio futuro é nebulosoe, de certa forma, incontrolável. Com suas pretensões, levadasaté apenas a metade do caminho, Déjà Vu acaba sendo umdiscurso oco. Seu título tem valor de advertência - já vimosesse filme antes, e raramente ele termina bem. Déjà Vu (Deja Vu, EUA, 2006, 127 min.). Ação. Dir. TonyScott. 14 anos. Cotação: Regular

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