Nos cinemas, filme dos irmãos Dardenne

Quando jovem, Luc Dardenne queria ser jogador de futebol. Ele chegou a jogar, como líbero, no Standard de Liège, cidade na qual nasceram o irmão Jean-Pierre e ele, na Bélgica. O Standard continua no coração de Luc. Em Liège, os irmãos Dardenne têm a sede de sua produtora, mas a certeza de que seria sempre um jogador medíocre fez com que ele desistisse do futebol. O cinema tomou seu lugar, na vida dele e do irmão. O futebol perdeu um jogador, mas o cinema ganhou, em contrapartida, um grande diretor - dois grandes diretores. Basta assistir a A Criança, que estréia amanhã em São Paulo. O filme ganhou a Palma de Ouro no ano passado, a segunda da carreira dos irmãos belgas (a primeira foi por Rosetta, em 1999). A Criança é magnífico. Está sendo um privilégio para a reportagem participar do júri que este ano outorgará a Caméra d?Or para o melhor filme de diretor estreante, no Festival de Cannes. Os irmãos Dardenne presidem o júri, que assiste a pelo menos três filmes por dia, todos os dias. A convivência é intensa. Eles são dois, naturalmente, mas a identidade é tão grande que, às vezes, provoca confusão. O próprio diretor artístico do festival, Thierry Fremaux, no jantar de confraternização da Caméra d?Or, confundiu-se e os chamou de um jeito trocado: Jean-Luc e Pierre. O futebol passou como vocação na vida de Luc, mas continua sendo uma preferência dele e do irmão. Quando o assunto, com os Dardenne, não é o cinema, você pode ficar certo de que será o futebol. Luc conta como surgiu a idéia de A Criança. "Vimos uma mulher que puxava uma criança na rua. A criança chorava, mas ela parecia não ligar e a arrastava como se fosse um saco. Tudo começou dessa imagem. Ficamos pensando na relação daquela mãe com o filho, construímos uma história e chegamos à conclusão de que seria interessante contá-la pelo ângulo do pai, transferindo para ele o abandono do filho". Jean-Pierre acrescenta que o abandono do filho é uma prática antiga na história da humanidade, embora a venda da cria talvez seja mais recente. O pai de A Criança vende o filho e, face à reação violenta da mulher, tenta reavê-lo. "Nossa pergunta foi - o amor de Sonia será suficiente para provocar a consciência de Bruno? Será suficiente para fazê-lo amar o filho que rejeitou? Não temos certeza, mas o material parecia bom para ser trabalhado, e foi o que fizemos." Como sempre, eles construíram a história e os personagens juntos, depois Luc escreveu sozinho a primeira versão do roteiro, que enviou ao irmão. A partir daí, trabalharam juntos nas nove versões do roteiro e na realização. Eles não dividem as funções no set. Há sempre um que se ocupa do elenco e da equipe técnica, enquanto o outro controla o resultado da cena no monitor, mas Luc e Jean-Pierre alternam constantemente as duas posições. Qual é a lembrança mais bela desse filme? A Palma de Ouro, outorgada pelo júri presidido por Emir Kusturica? "Nossa lembrança mais forte, e eu tenho certeza de que falo também por Luc, foi o prazer que tivemos em ensaiar as cenas com os atores jovens, que fazem a dupla principal. Já havíamos feito A Promessa com Jerome Renier e ele foi a primeira escolha para o papel. A atriz Déborah François surgiu num trabalho de casting, depois de tentarmos muitas jovens talentosas. Todo dia nos sentávamos com eles para repassar diálogos, improvisar cenas. Um dia alguma coisa se passou, um olhar de Jerome para Déborah, um gesto, quem sabe uma palavra, e sentimos que ali estava o tom necessário para a história." Os irmãos Dardenne gostam de filmar nos mesmos locais - "O importante é lançar um olhar sempre novo sobre o décor mais conhecido." E eles acham que só a interpretação não constrói o personagem. "Precisamos de gestos, de objetos para dar vida a nossos personagens. Bruno, por exemplo, não seria completo sem o celular", observa Luc. De volta ao futebol, eles estão ligados na Copa, como todo mundo. Luc acompanha a equipe da Inglaterra, embora saiba que ela esteja desfalcada e só terá seu astro Wayne Rooney nas quartas de final, se chegar até lá. Jean-Pierre prefere a Azurra, a equipe da Itália, mas ambos acreditam que o Brasil chegará à final e poderá conquistar o hexa. Luc sonha com uma final entre Brasil e Holanda, para ver a malícia do Brasil frente à nova versão do carrossel holandês. E ambos prometem: "Nos convidam muito para visitar o Brasil. Após o próximo filme, no ano que vem, iremos."Matéria alterada em 26/05/06, às 10h30

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