Nos cinemas, Estrela Solitária, de Wim Wenders

Wim Wenders já vinha dando sinal de vida após uma fase decepcionante, de filmes como Até o Fim do Mundo, mas é com Estrela Solitária que ele renasce como artista, fazendo lembrar o grande diretor que, nos anos l980, era chamado de sr. cinema, graças a obras como Paris, Texas, que lhe valeu a Palma de Ouro de l984. A lembrança é oportuna porque, se há um filme de Wenders com o qual a Estrela Solitária dialoga, é justamente Paris, Texas. Você se lembra da primeira parceria do cineasta com o dramaturgo Sam Shepard. Travis, o protagonista de Paris, Texas, emergia do deserto e com o filho partia numa viagem em busca da mãe do garoto. Pai, mãe e filho, outra família disfuncional está no centro de Estrela Solitária. O pai é esse astro decadente, especialista em papéis de caubói e cujos filmes já não fazem o mesmo sucesso (como os do próprio Wenders o que não deixa de ser uma referência autobiográfica) . Em crise ele foge do set e vai se abrigar na casa da mãe, a quem não vê há longos anos, e que lhe comunica que ele tem um filho. O herói parte em busca desse filho. Reencontra a mãe dele, uma garçonete com quem teve um caso durante uma filmagem numa pequena cidade do Meio-Oeste. O filho puxou ao pai - é um artista. E é rebelde, desajustado. Ao repórter do Estado no festival de Cannes no ano passado, Wenders contou que gostaria que Sam Shepard tivesse interpretado o papel de Travis, mas ele não se sentia pronto e foi a chance de Harry Dean Stanton, que criou o personagem e deu a Paris, Texas a densidade, o Pathos que faz a glória daquele grande filme. Em Estrela Solitária, foi o próprio Shepard, de novo roteirista, quem propôs ao diretor - ele queria fazer o protagonista. Wenders topou encantado. Não poderia ter feito melhor escolha. Shepard e Jessica Lange sempre tiveram um pacto. Nunca iriam trabalhar como atores nos mesmos filmes para que, como pais dedicados, sempre um deles pudesse estar ocupado com os filhos. As crianças cresceram, tornaram-se independentes. Wenders convenceu Shepard de que Jessica era perfeita para a parte da ex-mulher. Não se enganou. Existe, em Estrela Solitária, este momento magnífico em que Shepard vai ao encontro de Jessica. Conversam e o diálogo fala de família, abandono, sentimentos. Ela atira a pergunta - o que ele quer? Voltar? Em caso afirmativo, a volta é possível? Estrela Solitária trata de pais e filhos, de famílias disfuncionais, de relações complicadas. Há uma espécie de amargura conduzindo todos os personagens. A mãe, Eva Marie Saint, esquecida pelo filho; Jessica, a que foi abandonada; esse garoto revoltado por que foi criado sem a figura do pai. A melhor parte de Estrela Solitária é a que trata dessas figuras, mas Wenders e Shepard desenvolvem outra linha narrativa, que desequilibra um pouco o relato e o impede de atingir a perfeição de Paris, Texas. Como Shepard, no papel do astro, fugiu do set de filmagem, a companhia seguradora põe no encalço dele um investigador, interpretado por Tim Roth, que o segue como uma sombra. Essa enquete, digamos, policial talvez seja a homenagem de Wenders a uma América que o fascina. Não por acaso, ele fez nos EUA a cinebiografia de Dashiel Hammett e a cidade em que localiza a ação de Estrela Solitária é aquela que serviu de inspiração para o autor do detetive Sam Spade quando escreveu Colheita Vermelha (Red Harvest). Wenders como estrangeiro tem um olho especial para captar a América interiorana. A cena em que o filho atira seus pertences pela janela e Shepard senta-se num sofá no meio da rua, é emblemática. Ele vê passar aquele carrão todo espelhado, uma coisa tão bizarra que só poderia ocorrer nos EUA. Antes disso, na estrada, o diretor já criou aquele outro plano genial. Shepard conduz o carro e a um duplo movimento de lente e de câmera numa combinação de travelling e de zoom, a câmera avança para o carro, a lente traz o fundo para o primeiro plano e a sensação é de vertigem como se o carro e o herói dentro dele estivessem sendo achatados ou comprimidos. No encontro em Cannes, o repórter lembrou que, simultaneamente no começo dos anos 1970, Claude Chabrol em A Mulher Infiel e Arthur Penn em Deixem-nos Viver (Alice´s Restaurant) haviam terminado seus filmes exatamente do mesmo jeito. Wenders conhece os filmes de Chabrol e Penn, mas observou que, na verdade, todos eles imitaram Alfred Hitchcock, numa cena célebre de Um Corpo Que Cai (Vertigo) - Wim considera um dos grandes filmes de todos os tempos. Com os possíveis defeitos que possa ter, Estrela Solitária é um belíssimo filme. Marca o renascimento de um autor importante. É um road movie que, como Paris, Texas retoma a odisséia do ponto de vista de Ulisses, que aqui faz a ponte com o seu filho Telêmaco. Todos os temas se fazem presentes - família, amor, traição, abandono, redenção. Mas há um tema que, observou o repórter e Wenders concordou com ele, se superpõe e dá unidade a todos os demais. É o tempo que passa, o tempo perdido, reencontrado e recuperado. Wenders não é o Proust do cinema, até porque o seu filme não se passa no salões elegantes da belle époque que atraíam Marcel. O cenário é essa América bruta, interiorana, que vive de mitos como os do western (encarnados pelo caubói protagonista). Isso de alguma forma aproxima Estrela Solitária de outro filme deslumbrante, Três Enterros, de Tommy Lee Jones, que também estréia hoje, e até de O Mistério de Brokeback Mountain, de Ang Lee, mesmo que o tema desse último seja a impossibilidade e Wenders, trabalhando o tempo, queira falar de possibilidades.

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