Nos cinemas, "Dália Negra", com Scarlett Johansson

Por que ambientar uma históriaamericana nos anos 40? James Ellroy, tido por muita gente boacomo o mestre contemporâneo do noir, responde: "Era uma época degrande crise e corrupção nos EUA, mas mesmo assim, naquele tempo havia homens e mulheres com energia suficiente para levaremseus desejos até o fim." Ellroy deu essa resposta ao apresentaro filme de Brian de Palma baseado em seu livro "A Dália Negra". O escritor tem duas fixações: esses anos 40, que lheparecem tão intensos, e tramas de desespero e redenção, comcrimes escabrosos no recheio, que lhe recordam o assassinato daprópria mãe, ocorrido em 1968. Aliás, "A Dália Negra" é baseadotambém num fato real, um crime sem solução na Los Angeles dosanos 40, quando uma candidata a estrela de Hollywood apareceutrucidada. Um crime brutal, que ficou sem solução e obcecoupoliciais e jornalistas. Indo nesse sentido, Ellroy não poderia escolher melhordiretor para adaptar a sua obra do que Brian de Palma, cineasta,como se sabe, também obcecado pela história do cinema, e que écapaz de rodar um filme com tantas citações que acabamimetizando o estilo e a época dos diretores lembrados. Portanto do enredo ao diretor, tudo faz com que "Dália Negra" seja umaimersão na grande época do cinema noir, a parte melhor daprodução americana daquelas décadas, e na qual brilharam nomescomo John Huston, Edward Dmytrik, Howard Hawks, Robert Siodmak,entre outros. Sem falar de Orson Welles, naturalmente, quetambém se exercitou no gênero. De Palma e Ellroy precisavam também de uma atriz quefizesse as vezes de uma Rita Hayworth ou de uma Lauren Bacall,mulheres fatais típicas. E, nesse quesito, a escolha não deveter sido muito difícil. Bastava escolher a mais sexy e fatídicadas atrizes americanas contemporâneas e pronto - lá estavaScarlett Johansson disponível, em especial depois do papel quefez em "Match Point", de Woody Allen. Ela mesma, em entrevista,foi lembrada a respeito de suas antecessoras, mas preferiu dizerque não havia se inspirado em nenhuma delas para "compor apersonagem", que é como as atrizes costumam se referir a esseprocesso. Nem precisava mesmo, já que dispõe de todos osatributos naturais (e sobrenaturais) para se igualar às musas donoir. Na história, ela é Kay Lake, pivô do triângulo amorosoque envolve dois amigos policiais, Bucky Bleicerth (JoshHartnett) e Lee Blanchard (Aaron Eckart). Ambos se sentemperdidamente atraídos por Kay, mas, como se as complicaçõesmatrimoniais não bastassem, entra um quarto elemento na trama, atambém mais do que fatal Madeleine Lincott, vivida (e bemvivida) por Hilary Swank, que você viu em "Garota de Ouro", deClint Eastwood. Com Clint, ela fazia uma trágica boxeadora, semnada, ou quase nada de muito ostensivamente feminino, pelo menosno sentido mais convencional do termo. Em "Dália Negra", não:ela parece uma bomba de sexualidade, prestes a explodir.Milagres do cinema. Mas De Palma e Ellroy não poderiam se contentar com umasituação difícil, porém linear. Precisam de mais complicações. Eelas vêm na forma de um assassinato, que é o verdadeiro móbil dofilme: uma starlet, sósia de Madeleine, é encontrada morta, ocorpo trucidado, indicando tortura antes do assassinato. Ela é a"Dália Negra". Kay também é muito parecida com a partner daestrelinha pornô assassinada. E isso se descobre, mais tarde,num filmete de circulação restrita, isto é, pornográfico. Sósias, filmes particulares, busca de sucesso, ambição,busca desenfreada de dinheiro, pares disfuncionais - são temas aserem explorados em um ambiente mórbido, como costuma ser o donoir. De Palma busca também simetrias e semelhanças e não deixade lançar um olhar à "Dama de Shangai", de Welles, perito nosjogos de espelhos. Além disso, a trama vai sendo apresentada demodo não linear. Na verdade, vai se complicando e o sentido detudo será montado como um mosaico a ser decifrado peloespectador. Há todo o jogo de citações, que é de rigueur em De Palma como também a elegância da filmagem, alguns planos-seqüênciamuito bem montados e tudo o mais. Numa palavra: o filme é belo,do ponto de vista plástico. Nada disso impede que esse filme, interessante e atéestimulante, deixe de passar um certo sentimento de frieza. Écomo se De Palma não conseguisse, para valer, o mergulho quedesejou no universo do noir. Esse dependia muito dasensibilidade de uma época, de um "mood" particular que vinha daDepressão, e isso não pode ser imitado, a não ser como citaçãoou como clichê. Esse artificialismo acaba neutralizando oimpacto dessa "Dália Negra" que, no entanto, mantém ainda seuperfume exótico.Dália Negra (The Black Dahlia, EUA/2006, 121 min.) - Thrillerpolicial. Dir. Brian de Palma. 16 anos. Em grande circuito.Cotação: Regular

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