Nos cinemas, "Amantes Constantes", de Philippe Garrel

Pintou uma fofoca ano passado emVeneza dizendo que Philippe Garrel não havia vencido o festivalpor causa de desacordo inconciliável no júri. Divididos entre ofilme de Garrel - "Les Amants Réguliers" - e "Good Night, andGood Luck", de George Clooney, os jurados elegeram "O Segredo deBrokeback Mountain", de Ang Lee. "Les Amants Réguliers" eramesmo a proposta mais ousada daquele ano e Garrel acabourecebendo o Leão de Prata, que equivale a um segundo lugar. Ofilme chega ao Brasil com o título, correto, de "AmantesConstantes". Em Veneza, Philippe Garrel mostrou-se blasé, como dehábito, mas não deixou de dizer coisas interessantes. É fácilnão gostar dele, com seu ar sempre distante, como se achasse asperguntas pouco dignas de sua inteligência gaulesa. Mas o queimporta, mesmo, é o filme. E este, ao contrário do diretor, ébem interessante. Aliás, ótimo. A começar pela fotografia em preto-e-branco de WilliamLubtchansky, também premiada em Veneza. Talvez seja o registromais adequado para captar o clima proposto por Garrel - o anoinsurgente, na França e no mundo, de 1968. Nesse ano, um mês emparticular: maio. E, nesse maio, a história de um grupo dejovens que se relaciona, com o sexo oposto e com a política.Garrel dialoga com outro filme, de temática semelhante, "OsSonhadores", de Bernardo Bertolucci. São trabalhos diferentes, inclusive em seus tratamentosvisuais (da cor intensa de Bertolucci ao discreto monocromatismode Garrel) mas convergem em alguns pontos. E, num deles, emparticular - a reavaliação positiva do maio de 1968. "Durantemuitos anos aceitamos que falassem mal desse período; cabe agoraa nós, que o vivemos, restabelecer o que teve de inquietante,inovador e progressista", disse Garrel. E ele sabe do que fala. Esteve nas barricadas doQuartier Latin, brigou e apanhou da polícia. Perdeu e ganhou comsuas posições de esquerda. "Gauchiste", no entanto nuncaembarcou num tipo de cinema monocórdio, didático, "proletário"no mau sentido do termo, aquele cinema autoritário que se julgano direito de converter os outros. Nada disso. Pelas vidas de François (Louis Garrel), Lilie (ClotildeHesme) e seus amigos, passa toda uma história ambígua dasmentalidades da época. De um lado, o sonho da revolução, mesmoque não se saiba direito o que isso queria dizer nem aonde irialevar. Era-se contra De Gaulle, a burguesia, os Estados Unidos -e pronto. De outro, aquele momento único na vida: a descobertada sexualidade, da amizade e da política. E, outro elemento àsvezes ausente na reavaliação dos sixties, as drogas. Tira-sepouca certeza de elementos às vezes contraditórios, mas entretodos eles, vemos seres humanos tentando acertar - e esta éoutra poderosa pulsão humana, em geral subestimada.Amantes Constantes ("Les Amants Réguliers", Fr/2005, 178 min.)- Drama. Direção Philippe Garrel. 14 anos. Reserva Cultural 2 -13h50, 17h20, 20h50. Cotação: Ótimo

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