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Nos 80 anos de Brigitte Bardot, livro faz retrato da mulher que ousou ser livre

Especial no canal Arte1 também presta homenagem à atriz francesa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 Setembro 2014 | 03h00

Em 1964 – há 50 anos –, Brigitte Bardot veio ao Brasil com seu namorado brasileiro, Bob Zagury. Ele a levou para conhecer Búzios. Brigitte encantou-se pela aldeia de pescadores, pela praia. Entre passeios à beira-mar e o assédio da imprensa, a vida dos moradores nunca mais foi a mesma. Búzios virou um point internacional e até hoje abriga aquela estátua em tamanho natural de BB, que contempla o mar. 

Na França, ocorreu a mesma coisa com Saint-Tropez, onde ela, garota, passava as férias com a família e onde Roger Vadim filmou ...E Deus Criou a Mulher, em 1956. Brigitte estabeleceu-se em Saint-Tropez e, quando abandonou o cinema para se dedicar à defesa dos animais, construiu uma casa, La Madrague. É nela que nesse domingo a estrela que passou como um furacão pelas telas da França e do mundo nos anos 1950 e 60 vai comemorar 80 anos. Isolada, como tem vivido.

A data será comemorada pelo canal Arte 1 com um documentário – Estilo Arte 1 – que vai ao ar no domingo, 28, às 11 horas e será reprisado às 15 horas e à meia-noite. Tudo sobre Brigitte Bardot em Búzios. Jean-Luc Godard, que a dirigiu em seu maior filme – O Desprezo, livremente adaptado do livro de Alberto Moravia –, foi preciso. “Chegou na hora certa”, ele disse do filme de Vadim. 

Em meados dos anos 1950, um novo estilo de vida estava surgindo com seus comportamentos e sua linguagem. Brigitte foi a sacerdotisa e a artífice da mudança. Nos 80 anos da mulher que se tornou conhecida como sigla – BB –, um livro novo ajuda a decifrar o mito. Chama-se Brigitte Bardot, seu nome, e a autora é Marie-Dominique Lefrebvre. A editora é a Record. O livro é apaixonante. Um tratado sociológico e, ao mesmo tempo, um retrato da mulher que ousou ser livre e libertou as mulheres de sua geração.

Antes dela, Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, já dava voz às inquietações da mulher dita moderna. Marie-Dominique compara Brigitte a sua mãe. Como a maioria das mulheres, ela dependia do casamento para se afirmar socialmente. E essa mãe não gosta particularmente de Brigitte, prefere a outra filha, Manouche. Brigitte, preterida, acha-se feia. E esculpe um novo corpo, dedicando-se intensivamente ao balé. Vira modelo fotográfica. 

Cooptada pelo cinema, filma muito, pequenos papéis, nada muito interessante. Mas as pessoas começam a prestar atenção na gamine de cintura de vespa e seios fartos. Faltava alguma coisa – o seu pigmalião, Roger Vadim. Para Brigitte, tudo começou com ele, e com ...E Deus Criou a Mulher. Filho de protofeminista, Vadim era um bom vivant que frequentava os meios intelectuais. Sua fama era de garanhão, um pênis descomunal e um apetite sexual inesgotável. Mas ele tinha o verniz que faltava à jovem Brigitte.

A família era burguesa, e Brigitte nunca passou fome como Sophia Loren, que também acaba de completar 80 anos. Vadim passa a selecionar as leituras dela e esculpe sua persona. E, depois de anos como roteirista e assistente de direção, quando ele resolve fazer seu filme, sua inspiração é... Brigitte. Como Marie-Dominique observa em seu livro, cada característica da personagem Juliette Hardy, uma órfã sensual e imoral, apaixonada por um homem, mas casada com seu irmão, foi inspirada nela – sua necessidade de afeto, o amor pelos animais, a negligência, a dicção arrastada. Com seu corpo andrógino, Brigitte seduz homens e mulheres. E em seus primeiros filmes, ela sempre dança, sensualmente. Começou ali uma verdadeira revolução. “Fui a primeira a ser despojada de todo artifício e a agir naturalmente”, Brigitte reflete. O sexo, para ela, não é pecado e Brigitte assume-se como Don Juan, ou mulher, Dona Juana.

Casada no papel com Vadim, ela declara que ama seu marido, mas durante a filmagem descobre que ama mais, ainda, Jean-Lu – Jean-Louis Trintignant, que divide a cena com ela. Nos anos seguintes, colecionará amantes. Na França, nos EUA, estudos sociológicos tentam dar conta do que essa mulher fez e continua fazendo. Brigitte não é só estrela. Movimenta a economia. Ninguém foi mais vezes capa de publicações como Elle, Paris Match, Jours de France. A imprensa é invasiva em relação ao mito, mas Brigitte serve-se dela. Seu estilo despojado de vestir-se, mas também de habitar, os carros, tudo passa a ser desejado pelas mulheres francesas de sua geração. Uma mulher-criança, eternamente insatisfeita, não pode ser mãe. O livro dá conta do fiasco que foi a maternidade de Brigitte e de como ela quis se desvencilhar do filho Nicolas (com o ator Jacques Charrier), nascido m 1960. Preferia os cachorros, que dão sem exigir nada em troca. Brigitte trabalhou com diretores importantes (Godard, Louis Malle e mesmo Henri-Georges Clouzot, que a dirigiu em A Verdade). A partir de um momento, prefere cantar a atuar e depois, nem isso. 

Depois de várias tentativas de suicídio, sempre no dia de seu aniversário, 28 de setembro, isola-se, cercada por seus gatos e cachorros. Vira a defensora dos animais. São todas essas histórias que o livro e o especial do Arte 1 resgatam.

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