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Cena do filme 'O Poderoso Chefão', com Marlon Brando Paramount Pictures

Nos 50 anos de 'O Poderoso Chefão', Coppola revela desafios para realizar o filme

Cineasta foi homenageado com uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood e o Museu da Academia anunciou que terá uma galeria exclusiva para seu filme

Andrew Marszal, AFP

23 de março de 2022 | 16h47

Há 50 anos, O Poderoso Chefão quebrou todos os recordes de bilheteria, levou para casa o Oscar de melhor filme e apresentou milhões de pessoas a um mundo de mafiosos, assassinatos e cannoli. 

Para o diretor Francis Ford Coppola, com 29 anos à época, a adaptação do romance de Mario Puzo não parecia uma oferta impossível de recusar. 

"Fiquei muito decepcionado quando comecei a ler (...) Era, basicamente, algo que Mario Puzo havia escrito para seus filhos", disse Coppola durante a projeção do filme no Museu da Academia, em Los Angeles, na segunda-feira (21), por seu 50.º aniversário. 

"Quando me ofereceram a chance de fazê-lo, principalmente porque todo mundo tinha recusado, eu também recusei", lembra o aclamado diretor.

Felizmente, um jovem sócio chamado George Lucas insistiu em que ele aceitasse o trabalho, já que seu incipiente e contracultural estúdio cinematográfico American Zoetrope estava muito endividado. 

"Francisco, precisamos do dinheiro! Vão fechar a gente, você tem de aceitar esse trabalho", disse Lucas, conforme palavras de Coppola. 

O resto, como dizem, é história. 

Lançado em 24 de março de 1972 em um número incomumente grande de cinemas, O Poderoso Chefão  já era o filme de maior bilheteria de todos os tempos em setembro, superando ...E o Vento Levou.

Com ele, ajudou a inaugurar a era dos sucessos de bilheteria, que realmente decolou quando Tubarão, de Steven Spielberg, quebrou o recorde de arrecadação três anos depois. 

De acordo com o livro Como a geração sexo-drogas-e-rock'n'roll salvou Hollywood: Easy Riders, Raging Bulls (Intrínseca, 2009), de Peter Biskind, Coppola ganhou uma aposta da Paramount de que eles comprariam uma limusine para ele se o filme arrecadasse US$ 50 milhões. O Poderoso Chefão arrecadou US$ 130 milhões. 

Coppola se tornou o primeiro diretor superestrela, com o peso financeiro necessário para apoiar suas credenciais artísticas. 

"Foi o começo de uma nova era para os diretores", escreveu Biskind. 

Orçamento

Sob muitas formas, O Poderoso Chefão foi um sucesso improvável. 

Em 1972, os filmes de mafiosos estavam fora de moda. Quatro anos antes, a Paramount havia lançado The Brotherhood, estrelado por Kirk Douglas, e fracassou.

Mas o romance de Mario Puzo estava se tornando popular, e o estúdio tinha os direitos. A Paramount tinha, no entanto, problemas para encontrar um diretor. Figuras como Elia Kazan, Costa-Gravas e Peter Bogdanovich rejeitaram o projeto. 

Embora liderasse o movimento da Nova Hollywood de diretores jovens e contestadores, Coppola não tinha sucesso em seu nome e foi convidado, em parte, por sua herança italiana. 

"Se isso gerasse muitos protestos de ítalo-americanos ofendidos que considerasse que os italianos estavam sendo desprestigiados, eu teria ficado na mira", afirmou Coppola. 

Embora a Paramount quisesse uma adaptação barata e rápida, Coppola brigou por mais orçamento, insistindo em que o filme fosse rodado em Nova York, mas ambientado na década de 1940, e não como era hoje. 

"O orçamento foi de cerca de US$ 2 milhões, US$ 2,5 milhões. E porque eu queria fazer isso em Nova York em 1945, significava que, provavelmente, precisaria de pelo menos o dobro disso", comentou Coppola. "Algo que não os agradava", completou. 

"À sua maneira"

Não foi o único desafio que o diretor enfrentou. O produtor Robert Evans, um dos pesos pesados de Hollywood e que havia comprado os direitos do filme, desentendeu-se com Coppola sobre o elenco. 

O único grande nome do projeto (Marlon Brando) não estava em seu melhor, e Al Pacino era um desconhecido, e não o "homem alto e bonito" que Evans queria. 

"Al é muito bonito, mas à sua maneira única", brincou Coppola. 

Ele acrescentou: "Al Pacino era muito atraente. Eu me perguntava por que exatamente, mas ele era". 

"No entanto, quando sugeri Al Pacino para o papel, o pessoal na Paramount começou a se perguntar se havia escolhido a pessoa errada", contou.

O resultado foi o reconhecimento da Academia. O Poderoso Chefão ganhou o Oscar de melhor filme; Brandon, o de melhor ator; e Al Pacino foi uma das três estrelas da produção entre os indicados na categoria de melhor ator coadjuvante.

Um sinal de como seu legado permanece, Coppola foi homenageado esta semana com uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, e o Museu da Academia anunciou que terá uma galeria exclusiva para este filme. 

"O Poderoso Chefão teve muito mais sucesso do que qualquer um achou que pudesse ser", refletiu Coppola.

 

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Al Pacino sobre 'O Poderoso Chefão': 'Levei uma vida inteira para aceitar e seguir em frente'

O filme, que completa 50 anos nesta terça, teve praticamente todo o elenco reprovado pela Paramount Pictures

Dave Itzkoff, The New York Times

14 de março de 2022 | 20h00

É difícil imaginar O Poderoso Chefão sem Al Pacino. Sua atuação discreta como Michael Corleone, que se tornou um respeitável herói de guerra apesar de sua família corrupta, passa quase despercebida na primeira hora do filme – até que finalmente ele se afirma, gradualmente assumindo o controle da operação criminosa Corleone, além do próprio filme.

Mas também não haveria Al Pacino sem O Poderoso Chefão. O ator era uma estrela em ascensão do teatro de Nova York com apenas um papel no cinema – no drama sobre drogas Os Viciados, de 1971 – quando Francis Ford Coppola lutou por ele, contra a vontade da Paramount Pictures, para interpretar o reflexivo príncipe em seu épico sobre a máfia. Mais de meio século de cruciais papéis cinematográficos se seguiram, incluindo outras duas participações como Michael Corleone em O Poderoso Chefão Parte II e Parte III.

O Poderoso Chefão estreou em Nova York em 15 de março de 1972 e, 50 anos depois, você pode imaginar todas as razões pelas quais Pacino não queria mais falar sobre isso. Talvez ele ficasse envergonhado ou irritado pelo fato de essa única atuação, logo no começo de sua carreira no cinema, ainda dominar seu currículo, ou talvez ele tenha dito tudo o que há para dizer sobre o assunto.

Mas em uma entrevista por telefone no mês passado, Pacino, agora com 81 anos, foi bastante filosófico, até saudoso, ao discutir sobre o filme. Ele continua sendo um fervoroso admirador do longa e do quanto Coppola e seus colegas de elenco fizeram para apoiá-lo. Ainda está impressionado com a forma como o filme, sozinho, construiu sua carreira.

“Estou aqui porque fiz Chefão", disse Pacino, falando de sua casa em Los Angeles. “Para um ator, é como ganhar na loteria. Na verdade, eu não tive nada a ver com o filme a não ser desempenhar o papel.”

Como lembrou Coppola, Pacino era o ator que viu interpretando o papel desde o início, independente de seu magro currículo.

“Quando realmente li o livro O Poderoso Chefão, fiquei imaginando Pacino no papel”, disse Coppola em uma entrevista separada. “E eu não tinha uma segunda escolha. Foi, para mim, sempre Al Pacino. Essa é a razão pela qual eu fui tão decidido de que ele deveria interpretar Michael. Esse era o meu problema.”

Mas, para o ator, o grande desempenho de sua vida também trouxe fardos, como ele aprenderia nos anos seguintes.

“É difícil explicar no mundo de hoje – explicar quem eu era naquela época e como aquilo foi como um raio que caiu do céu”, disse Pacino. “Senti que, de repente, algum véu foi levantado e todos os olhos estavam em mim. Claro que havia outros no filme. Mas O Poderoso Chefão me deu uma nova identidade com a qual foi difícil lidar.”

Pacino falou ainda sobre ser contratado, o peso de seu legado e por que ele nunca mais interpretou outro personagem como Michael Corleone. Estes são trechos editados da nossa conversa.

Quando você recebe uma ligação pedindo para falar sobre O Poderoso Chefão, existe alguma parte de você que pensa, ah, Deus, de novo não? Alguma vez se torna tedioso?

Bem, não. Eu já espero isso. Espero falar sobre quais coisas funcionaram e quais não. Tenho a sensação de que alguém vai me criticar. Só penso: OK, já fiz isso. Mas é legal. É melhor do que falar comigo mesmo sobre isso.

Como surgiu o papel de Michael Corleone?

Naquele momento da minha vida, não tive escolha. Francis queria que eu fizesse o personagem. Eu tinha feito só um único filme. E não estava tão interessado em fazer cinema como fiquei depois. Minha cabeça estava em outro lugar. Eu me senti deslocado nos primeiros filmes que fiz. Lembro-me de dizer ao meu amigo Charlie (seu mentor, professor de atuação Charlie Laughton): Uau, eles falam sobre isso ser real, mas não é. Porque há fios ligados em você de todos lugares. E, ainda por cima, você tem de fazer isso de novo! (Risos.) Você faz e eles dizem, bem, vá de novo, faça de novo. É real e não real ao mesmo tempo. O que leva algum tempo para se acostumar.

Quando você e Coppola se conheceram?

Para dar um pouco de história, Francis era aquele cineasta que tinha a Zoetrope (sua produtora, a American Zoetrope), e pessoas como Steven Spielberg e George Lucas e (Martin) Scorsese e (Brian) De Palma formavam um grupo com ele. Eu me lembro de ter visto alguns deles quando Francis me pediu para ir a São Francisco depois de me ver em uma peça na Broadway. Você conhece essa história? Estou contando velhas histórias agora (risos).

Está ótimo, é por isso que estamos aqui.

Ele me viu no palco (na Broadway, em 1969, na peça Does a Tiger Wear a Necktie?), mas eu não o conhecia. Ele havia escrito o roteiro de “Patton” naquela época e me enviou uma história sobre uma maravilhosa história de amor que ele havia escrito (e que nunca foi produzida). Ele queria me ver. Isso significava que eu tinha que pegar um avião e ir para São Francisco, e eu não estava acostumado com isso. Então pensei, existe alguma outra maneira de ir? Eu não posso dizer a esse cara para vir até aqui, posso? Então resolvi aceitar o desafio e fui. Passei cinco dias com ele. O filme parecia ser realmente especial. Mas fomos rejeitados, é claro. Eu era um ator desconhecido e ele havia feito alguns filmes, Agora Você é um Homem e Caminhos Mal Traçados. Então voltei para casa e nunca mais ouvi falar dele.

Mas você foi, não? Quando foi isso?

 Os Viciados ainda não tinha estreado. E recebi uma ligação de Francis Coppola. Primeiro, ele diz que vai dirigir O Poderoso Chefão. Pensei, bem, ele poderia estar passando por um pequeno colapso ou algo assim. Como deram a ele O Poderoso Chefão?

Você não achou que fosse possível ele fazer o filme?

Tenho de dizer: já era um grande negócio. Era um grande livro. Quando se é um ator como eu era na época, nem põe os olhos nessas coisas. Você está em um determinado momento da vida em que não será aceito nesses grandes filmes – não ainda, pelo menos. E ele disse que não só iria dirigir o filme (caindo na risada), como queria que eu interpretasse. Desculpe, não quero rir aqui. Parecia tão ultrajante. Lá estava eu, falando com alguém que parecia ter enlouquecido. Achei melhor fazer ele pensar que eu estava acreditando. E ele queria que eu fizesse Michael. Pensei, OK, vou concordar com isso. Respondi: sim, Francis, ótimo. Sabe aquele jeito com que as pessoas falam com alguém quando está perdendo o juízo? Dizem: “Sim! Claro! Sim!" Mas ele não estava enlouquecendo. Era a verdade. E me deram o papel.

A Paramount se opôs à ideia de você interpretar o papel.

Bem, eles rejeitaram todo o elenco! (Risos). Eles rejeitaram Brando. Rejeitaram Jimmy Caan e Bob Duvall. Houve conflito.

Recentemente, assisti a alguns de seus testes de tela para O Poderoso Chefão e você parecia ter esse olhar de cachorro encurralado quando te pedem para repetir de novo e de novo.

Sim. Eu sempre tive esse olhar (risos). Foi uma fachada que me fez suportar essas audições. Porque grandes atores estavam fazendo testes para o filme. Mas aqui está o segredo: por alguma razão, ele me queria e eu sabia disso. Dava para sentir isso. E não há nada igual quando um diretor quer você. É a melhor coisa que um ator poderia ter, na verdade.

Quando você começou a filmar O Poderoso Chefão, trabalhando ao lado de pessoas como James Caan e Robert Duvall, que tinham muito mais experiência cinematográfica, e Marlon Brando, que você admirava muito, como fez para se firmar?

Refleti sobre o papel. Eu só não conseguia verbalizar isso na época. Hoje, sim. Pensei que seria um personagem muito eficaz se viesse do nada. Essa foi a minha visão. Eu não conseguia descrever isso porque não sabia como dizê-lo. Mas eu poderia pensar. E, ao ler o roteiro, senti que estava mapeado para mim.

Como assim?

Ele não aparece muito. Está lá, mas não aparece. Acho que um processo de aparecer aos poucos até fazer aquele discurso em que diz que vai pegar aqueles caras (o traficante Sollozzo e o policial corrupto Capitão McCluskey), e todos começam a rir dele.

Ou seja, Michael estava sendo subestimado e isso era algo que você poderia se identificar e usar a seu favor?

Exatamente. Mas vou lhe dizer, eles não poderiam ter sido mais amigáveis, todos eles. Eu era jovem, desconhecido e eles eram tão reconfortantes. Havia uma espécie de amor ali. Eles entenderam, especialmente Brando. Mas os outros também. Todos estavam se tornando aqueles irmãos mais velhos e conselheiros que interpretam no filme. Esses tipos de emoções e cores vieram à tona, tanto na performance quanto na vida. 

 

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Cena do filme 'O Poderoso Chefão', de Coppola, com Marlon Brando no papel principal. Paramount Pictures

Aos 50 anos, um novo ‘O Poderoso Chefão’ na tela

Longa de Francis Ford Coppola volta aos cinemas na quinta-feira com cópia remasterizada

Luiz Zanin Oricchio , Especial para o Estado

Atualizado

Cena do filme 'O Poderoso Chefão', de Coppola, com Marlon Brando no papel principal. Paramount Pictures

O Poderoso Chefão começa no escuro. Ouve-se apenas uma linha melódica, tocada num único instrumento – o tema de Nino Rota escrito para o filme. Em seguida, entra uma voz: “Eu acredito na América”. Um rosto surge na penumbra e começa a contar sua história. A filha sofreu uma tentativa de estupro e foi barbaramente surrada por dois homens. O caso foi ao tribunal, mas os agressores saíram livres. O homem está ali para “pedir justiça”. Durante essa fala, a câmera vai recuando e o interlocutor aparece, de costas.

Ninguém esquece essa abertura de O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, que volta aos cinemas na quinta-feira, dia 24, em cópia restaurada, 50 anos após sua estreia. Em 22 de março, estará disponível em plataformas digitais. 

O desenho visual da abertura é magnífico – a fotografia é de um mestre, Gordon Willis. Joga toda a cena na penumbra e revela aos poucos a figura principal do quadro, o capo, Don Vito Corleone, interpretado por Marlon Brando. É a festa de casamento da filha do “Padrino”. Nesse dia, segundo a tradição siciliana, ele atende a pedidos. 

 

 

O sentido do diálogo entre Corleone e o homem é muito claro. “Por que você não me procurou antes, por que buscou a polícia e a justiça? Porque tinha fé na América. Pois é, nada foi feito, sua filha está no hospital, com o rosto deformado e os malfeitores continuam à solta e assim permanecerão a depender das instituições do país”. Já o Padrinho (lembre que o título original é The Godfather) se encarrega de tudo. Sob as asas do Padrinho, ninguém se sente desguarnecido. Desde que lhe beije a mão e seja leal. E que, eventualmente, no futuro, possa retribuir o favor que agora recebe. 

Ao estrear, em 1972, O Poderoso Chefão foi um choque. A própria frase inicial de Bonasera (Salvatore Corsitto) parece uma ironia, uma vez que, na época do lançamento do filme, pouca gente se atreveria a acreditar de fato na América, um país ainda enterrado na Guerra do Vietnã e em meio a uma fabulosa revolução de costumes que assustava as partes mais conservadoras da população. 

Encantada, a exigente crítica da New Yorker, Pauline Kael, escreve na época da estreia: “É um melodrama popular com raízes nos filmes de gângster da década de 30, mas expressa um novo realismo trágico e é totalmente extraordinário”. 

 

 

O chamado “filme de gângster” floresce nos Estados Unidos durante a década de 1930. Provavelmente, o boom de gênero está associado com a proibição de venda de bebidas alcoólicas, que induziu um espetacular comércio clandestino e fez a criminalidade subir às alturas. Filmes como Inimigo Público (1931), de William Wellman, Alma do Lodo (1931), de Mervyn LeRoy, Scarface, a Vergonha de uma Nação (1932), de Howard Hawks são considerados arquétipos do gênero.

Essas aventuras na época da Proibição repercutem até mais tarde. Foi famosa a série de TV Os Intocáveis (1959-1963), com o justiceiro Elliot Ness interpretado por Robert Stack. Em 1987, Brian De Palma fez o filme de mesmo título, com Kevin Costner no papel de Ness. A obra inclui até mesmo um pastiche da famosa cena da Escadaria de Odessa do clássico soviético O Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Eisenstein.

Mas, nesses casos, o ponto de vista é o da polícia, ou seja, do Estado. Já no típico filme de gângster, o foco é sobre o bandido. Mesmo que ele seja retratado como uma espécie de aberração, um desajustado em contraste com a sociedade sadia, esse protagonismo chegou a incomodar. Era preciso reservar a esses anti-heróis desfechos bem negativos para acomodar a ficção à moral vigente: a morte em combate com os homens da lei, a prisão ou a pena de morte. O crime é um desvio, que altera a órbita normal da sociedade. Uma vez eliminado o criminoso, o mundo volta ao seu eixo. 

Esse gênero preparou a entrada em cena do “film noir”, com a tradução para a tela dos romances de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. O protagonista agora é o detetive particular, cujo tipo ideal foi encarnado por Humphrey Bogart. Alguns se tornaram clássicos, como Relíquia Macabra (1941), de John Huston, Até a Vista, Querida (1944), de Edward Dmytryk, À Beira do Abismo (1946), de Howard Hawks. O noir é um gênero ambíguo. O detetive flutua no limite entre a legalidade e a ilegalidade, o certo e o errado. É cético. Pode ter um fundo moral, mas não acredita nas pessoas, e menos ainda nas instituições. 

Num filme de passagem, O Segredo das Joias (1950), de John Huston, a atenção principal se detém sobre o grupo que vai assaltar uma joalheria. Trata-se de uma história de assalto fracassado, que humaniza os criminosos. Suas vidas particulares são retratadas e o desfecho trágico de um deles (Sterling Hayden) desperta a simpatia do público. Sentindo-se perdido, um advogado corrupto, Alonzo Emmerich (Louis Calhern), murmura a frase significativa: “Ora, o crime é apenas uma forma marginal do esforço humano”. 

De modo que, em parte, o caminho para O Poderoso Chefão já fora aberto por seus antecessores. Coppola dá um passo a mais. Partindo do best-seller de Mario Puzo, mescla o realismo a certo tom operístico e melodramático ao retratar o mundo da máfia. Finca seu ponto de observação no interior de uma família. Não de uma “famiglia” mafiosa caricata, mas de uma família qualquer, com seus problemas, grandezas e a soma de alegrias e desgraças que vão compondo uma dinastia, geração após geração. 

Certamente Don Vito é um homem de poder. A relação com os filhos, Michael (Al Pacino), Sonny (James Caan), Fredo (John Cazale) e Connie (Talia Shire), é a de um patriarca à moda siciliana, devotado aos seus, exigente e terno. Como construiu um império, mesmo que do crime, também tem responsabilidades com a sua comunidade. Dá proteção e apoio, exige lealdade total – como se viu naquela primeira cena, com o dono da funerária, Bonasera, que vai pedir vingança pela agressão à filha. 

 

 

Depois da cena inicial, segue-se a festa de casamento de Connie e Carlo (Gianni Russo), sequência que dura bom tempo, com cantos, danças, brindes, comes e bebes. Estamos num ambiente ítalo-americano. Não poderiam faltar a polícia e os paparazzi à porta da mansão. Nem o ator e cantor das multidões Johnny Fontane (Al Martino), figura decalcada em Frank Sinatra, que, em baixa na carreira, também tem um pedido a fazer ao pai da noiva. 

Na parte que segue à festa, veremos uma amostra do lado violento do Don, que, por intermédio do seu consigliere, Tom Hagen (Robert Duvall), precisa convencer um produtor recalcitrante a dar a Fontane o papel num filme que poderá trazê-lo à tona de novo. A frase ficou famosa, “Don Corleone faz uma oferta que o senhor não pode recusar”. Não pode mesmo. O desfecho da “oferta” é brutal.

Isso para dizer que Coppola não pode ser acusado de romantizar o ambiente e os malfeitos da máfia. Algumas cenas de violência, como o assassinato de um dos filhos, são levadas a níveis operísticos. Bem como o primeiro crime de sangue em que Michael se envolve, liquidando a sangue frio, numa cantina, dois inimigos do pai, um gângster rival e um tira corrupto. 

O balanço entre violência e ternura familiar parece tão perfeito que nos deixamos levar por esta obra nada maniqueísta. Se o lado humano figura em primeiro plano, seu caráter criminal não fica para trás. O estilo da filmagem, a mise-en-scène perfeita trabalhando no quadro do cinema narrativo, a música, a intensidade do conjunto, a força operística dos momentos mais agudos, a densidade dos personagens – tudo isso nos conquista.

Nos seduz, mas também deixa espaço para reflexão sobre o que está sendo exposto na tela. Aquele limite tão estreito entre o legal e o ilegal, já presente em filmes de gângsteres mais antigos, e em todo o cinema noir, aqui parece abolido. Por outros meios, Don Corleone conduz os negócios da família como um empresário realista ou um político pragmático. 

É metódico, planejador, arrojado, sabe negociar e conhece seus objetivos. Pode ser cruel ou conciliador. Implacável, porém generoso. É um grande dirigente, o que faz de O Poderoso Chefão uma parábola pouco disfarçada sobre o funcionamento mais geral da sociedade e, em particular, do mundo dos grandes negócios. 

Esse desmascaramento de um mecanismo torna essa obra-prima um filme político como poucos. Esse aspecto, diga-se, irá se acentuar nos Chefões 2 e 3.  

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Nos bastidores de ‘O Poderoso Chefão’, brigas, desajustados e a verdadeira máfia

Livro detalha como foi a produção de um dos melhores filmes de todos os tempos

Glenn Frankel, The Washington Post

27 de dezembro de 2021 | 12h00

O diretor tinha no currículo quatro longas-metragens nada extraordinários e um punhado de filmes de soft-porn. A maior estrela era uma ex-divindade em fim de carreira e pouco confiável que não conseguia decorar suas falas, estava profundamente endividada e encarando o terceiro divórcio. O outro protagonista era um ex-mensageiro que abandonara a escola e que os executivos do estúdio achavam muito baixo, muito velho e muito inexperiente para o papel. E o homem que supervisionava a produção era um narcisista insuportável com um crescente vício em cocaína e uma esposa glamorosa que estava prestes a trocá-lo por Steve McQueen.

Eles brigaram muito entre si e com os questionáveis gerentes da Paramount Pictures, excedendo o orçamento, o prazo e a paciência de todos os envolvidos. Mas, no final, esta equipe de desajustados entregou uma verdadeira obra-prima: O Poderoso Chefão, que o American Film Institute classifica como o segundo maior filme americano de todos os tempos (atrás apenas de Cidadão Kane, caso você esteja se perguntando).

A produção deste clássico é uma história que já foi contada, recontada, psicanalisada e explorada até o osso - veja, por exemplo, The Godfather: The Corleone Family Cookbook, apenas um volume de toda uma biblioteca de livros derivados. O filme de 1972 revitalizou Hollywood, elevou Francis Ford Coppola à categoria dos grandes diretores, resgatou a carreira de Marlon Brando e ajudou a criar uma nova geração de estrelas de cinema: Al Pacino, James Caan, Robert Duvall e Diane Keaton. O longa gerou duas sequências, uma delas brilhante (O Poderoso Chefão: Parte II), a outra meio mais ou menos (O Poderoso Chefão: Parte III). Mas será que realmente precisamos ler mais uma história de como Brando tingiu o cabelo com graxa de sapato preta, encheu as bochechas com bolas de algodão e baixou o tom de voz em duas oitavas para o teste de tela que o levou ao papel principal?

Mark Seal, que há anos escreve sobre filmes na Vanity Fair, claramente acredita que sim. E depois de resistir à ideia o máximo que pude, devo confessar que seu livro, Leave the Gun, Take the Cannoli, mesmo com esse título de piada interna, “Deixe a arma, pegue os cannoli” (uma fala improvisada no filme), me cativou com sua energia, extensa pesquisa e entusiasmo de tirar o fôlego.

São os personagens esquecidos que costumam deixar os livros de filmes mais intrigantes, e a história de Seal ganha corpo quando ele apresenta Mario Puzo, o autor sempre falido e frustrado com vício em jogos de azar e massas com alto teor de carboidratos que, num último esforço para escapar da falência, decide escrever um romance barato sobre a máfia. Apesar de sua origem ítalo-americana, Puzo não sabia quase nada sobre a máfia quando começou o projeto e fez muitas pesquisas conversando com crupiês de blackjack e operadores de roleta nos cassinos dos hotéis Sands e Tropicana em Las Vegas. “Nunca conheci um gângster de verdade”, confessou ele tempos depois.

O épico de mais de quatrocentas páginas capturou a crueldade e a brutalidade dos mafiosos, mas também seu senso de honra e sua devoção a suas famílias. “Foi um golpe genial de Puzo transformá-los em homens de família”, escreveu a crítica Maria Laurino no Wall Street Journal. E Puzo também transformou a máfia numa metáfora para a América - sua ganância, violência, ambições e traições. O romance, publicado em 1969, virou um grande best-seller: só o contrato pelos livros rendeu a Puzo US$ 410 mil. Mas Robert Evans, o playboy bonitão e agressivo que tinha a tarefa de mudar a sorte da Paramount, já havia comprado os direitos cinematográficos por meros US$ 12,5 mil, com outros US$ 50 mil se o filme fosse feito.

A Paramount não ficou muito entusiasmada. Filmes de máfia em geral eram um fracasso, entre eles o péssimo Sangue de Irmãos, recentemente lançado pelo estúdio. Mas Evans e o vice-diretor Peter Bart perceberam que a melhor maneira de resolver o problema seria contratar um diretor ítalo-americano. Eles escolheram Coppola, então aos 30 anos de idade. Ele estava profundamente cético com o projeto: “Eu era jovem e não tinha poder nenhum, então eles perceberam que poderiam simplesmente mandar em mim”, disse ele a Seal. Mas, assim como Puzo e Brando, ele também estava profundamente endividado depois de abrir seu próprio estúdio independente. Ele embolsou os US$ 175 mil dos honorários de diretor e, ainda que relutante, começou a trabalhar.

O estúdio, sempre pensando nos custos, queria atualizar a história dos anos 1940 para um cenário contemporâneo e mais barato, todo filmado nos fundos da Paramount. Coppola conseguiu reverter essas opções, além de sabotar as ideias de elenco mais bizarras do estúdio - entre elas Ernest Borgnine como Vito Corleone, papel que foi para Brando, e Robert Redford ou Ryan O’Neal como Michael Corleone, o filho mais novo de Vito e seu sucessor, papel que acabou indo para Al Pacino. Os executivos do estúdio odiavam a ideia de chamar Brando, que desperdiçara a década anterior fazendo filmes meio obscuros. Eles fizeram com que Brando pagasse uma carta de fiança de US$ 1 milhão para garantir que ele não atrasaria as filmagens e insistiram que ele abrisse mão de seu cachê habitual por uma pechincha de US$ 50 mil. Ele concordou de má vontade - e ganhou o Oscar de melhor ator.

Coppola insistiu na verossimilhança, chegando a supervisionar a cor, a qualidade e a trajetória do sangue nas cenas sangrentas de execuções. Muitas cenas eram visualmente operísticas - Coppola e o diretor de fotografia Gordon Willis mantinham a câmera numa posição fixa, criando um quadro pelo qual os atores entravam e saíam. Willis usou filme subexposto e luz baixa para produzir composições ricas em tons escuros.

Enquanto Coppola criava mafiosos cinematográficos, o produtor Al Ruddy negociava com um de verdade: Joseph Colombo, chefe de uma das cinco maiores famílias do crime de Nova York e fundador da Liga dos Direitos Civis Ítalo-Americana. Ruddy concordou em excluir os termos “máfia” e “Cosa Nostra” do filme e transferir os lucros da estreia em Nova York para o fundo hospitalar da liga. Em troca, Colombo deu sua aprovação ao projeto e proporcionou cooperação e tranquilidade dos poderosos sindicatos da cidade.

As batalhas mais duras foram entre Coppola e os executivos do estúdio, que estavam sempre ameaçando demiti-lo. “Foi a época mais terrível da minha vida”, diz ele a Seal. Ele teve uma briga feroz com Evans por causa das quase três horas de duração do filme, da música e do tom sombrio. Depois, Evans brigou com o conselho de classificação da Motion Picture Association of America, cujos censores exigiram cortes em três cenas consideradas excessivamente violentas. As cenas permaneceram; o filme recebeu classificação indicativa para maiores de 17 anos.

Tanto Coppola quanto Evans temiam que o filme fosse um fracasso. Mas uma prévia mudou tudo. Quando o filme acabou, relata Seal, fez-se silêncio. Nenhum aplauso. Nada. O público ficou pasmo com aquela obra de arte - continua pasmo desde então. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Novo 'Poderoso Chefão', que Coppola reeditou e melhorou, chega aos cinemas e plataformas

'O Poderoso Chefão – Desfecho: A Morte de Michael Corleone' é a terceira parte da saga da família Corleone revisitada 30 anos depois de seu fracasso; veja trailer e vídeo com Coppola

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

02 de dezembro de 2020 | 14h00

No início do ano, quando os estúdios Paramount anunciaram que o diretor Francis Ford Coppola retrabalharia o filme O Poderoso Chefão III, criou-se uma grande expectativa. Afinal, o longa rodado em 1990 é considerado o pior da trilogia sobre a família Corleone, muito aquém das duas primeiras partes que são obras-primas. Desde a pálida atuação da filha do diretor, Sofia Coppola (hoje, uma renomada cineasta), até o desfecho insatisfatório, o filme deixava a desejar.

Não mais – a partir desta quinta, 3, quando O Poderoso Chefão – Desfecho: A Morte de Michael Corleone estreia nas salas de cinema (e, no dia 8, chega às plataformas digitais NET NOW Claro, Sky, Apple TV, Google Play, Vivo, Oi, Xbox Video, PlayStation Store), Coppola não apenas recupera seu trabalho como finalmente oferece o longa que desejava. O próprio diretor, aliás, aparece antes do início da projeção, explicando suas escolhas. “Graças à gentileza da Paramount Pictures de me deixar revisitar este projeto, eu o reeditei e dei a ele um título que não é exatamente novo, mas é o título original”, comenta.

Coppola foi, na verdade, diplomático ao se referir à bondade do estúdio – a produção foi acidentada e a Paramount não aceitou que o longa tivesse como subtítulo A Morte de Michael Corleone, como desejavam Coppola e o roteirista Mario Puzo. O estúdio também ofereceu um salário minguado para Robert Duvall, excelente como o conselheiro da família Corleone, Tom Hagen – naquelas condições, o ator não aceitou participar do filme. Assim, era inevitável a fraca recepção (se comparada às sequências anteriores) e ao fracasso no Oscar: apesar de sete indicações, não venceu em nenhuma.

No título original, consta a palavra “coda” que, em português, se transformou em “desfecho”. “Em termos musicais, uma coda é uma espécie de desfecho. É um resumo. E era isso que gostaríamos que esse filme fosse. Você verá um filme com um começo diferente, um final diferente. Muitas cenas foram reposicionadas e penso que o filme ganhou uma nova vida. O que, de fato, serve para elucidar o que os dois primeiros filmes significaram”, continua o diretor, quase irreconhecível, pois está mais magro, com a barba grisalha.

De fato, comparada ao longa que estreou em 1990, a nova versão começa exatamente com a cena que, na anterior, surge quando já foram transcorridos 40 minutos de projeção. Com isso, Coppola foca precisamente na relação insidiosa entre o poder da Igreja e o dinheiro corrompido. Se, os minutos iniciais antes reforçavam a importância da família e da religião para os Corleone até chegar naquele ponto, o cineasta, que hoje está com 81 anos, torna a relação o ponto central da trama.

É curioso como Coppola não escondeu, ao longo dos anos, sua insatisfação com as decisões unilaterais do estúdio em relação ao título do filme e também com a forma com que a trama é inicialmente narrada – em comentários que figuram em versões em DVD de O Poderoso Chefão III, o diretor explicita sua decepção com a falta de liberdade criativa (“naquela época, meu poder de decisão estava em baixa”) e revela que pretendia iniciar a narrativa com a cena que ora figura na nova versão, “em que o arcebispo Gilday (Donal Donnelly) relata a Michael Corleone (Al Pacino) como o Vaticano teria se metido em dificuldades financeiras”.

Coppola conta que seu colaborador Walter Murch, porém, sugeriu que seria melhor tratar antes da vida familiar e particular e depois entrar nos negócios. “Ao invés de dizer ‘não é nada pessoal, são apenas negócios’, é como se dissesse ‘não são negócios, mas assuntos pessoais’, o que definiria melhor a postura de Don Corleone. Então, decidimos começar com a cerimônia em que Michael é condecorado pela Igreja pelas generosas doações.” 

Com o novo formato, o longa que, ao longo dos anos, foi criticado pelo desenvolvimento lento e que mais parecia uma recauchutagem de seus predecessores imaculados, ganhou mais agilidade e precisão. E, ao reposicionar a cena (que, de uma certa forma, remete ao início do pioneiro O Poderoso Chefão), Coppola acerta ao deixar às claras a intenção do mafioso: Michael está saldando a dívida da Igreja Católica para legitimar os negócios da família Corleone e, não à toa, se tornar um dos homens mais ricos do mundo. Por ser um filme pródigo em excelentes diálogos, a cena termina com Gilday se lamentando: “Parece que, no mundo de hoje, o poder de absolver dívidas é maior que o poder de perdoar”. Ao que Michael retruca: “Nunca subestime o poder do perdão”.

Naquela fase da vida, Michael é um homem atormentado e em crise – exatamente como Coppola, no início dos anos 1990, quando acumulava fracassos e despertava a desconfiança da crítica, que previa encerrado seu talento. “Foi um momento em que me sentia como ele, tentando entender o que era mais importante que fama e dinheiro, e, ao decidir fazer o terceiro filme, só poderia ser com um Michael Corleone mais velho. Naquela época, eu já sabia, como ele, que a realização é ver os filhos e a família prosperarem.”

É em busca disso que Michael luta, no final da existência. Para isso, aceita a contragosto a carreira de cantor de ópera do filho Tony (Franc D’Ambrosio) e concede à filha Mary (Sofia Coppola) a presidência do instituto beneficente da família. Depois de uma vida cumprida à risca as regras de um jogo de poder (em que se sentiu obrigado até a matar um de seus irmãos), Michael busca a expiação e, quem sabe, paz.

Coppola também alterou o final do filme, que não convém aqui revelar. Apenas não foi possível “melhorar” a interpretação de Sofia. Em sua defesa, porém, a atriz Diane Keaton, que vive Kay, ex-mulher de Michael, disse, ao ver a nova montagem: “Mary tem como pai o líder de uma organização criminosa. É insegura, quieta, um tanto assombrada. Sofia foi fantástica”.

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