Nollywood ultrapassa Bollywood

Em 1993, o nigeriano Okechukwu Ogunjiofor e seu parceiro Kenneth Nnebue tiveram um a idéia. Em vez de vender a fita de videocassete virgem por US$ 1, por que não gravar alguma coisa nela e vendê-la por US$ 3? Esta alguma coisa foi o filme Living in a Bondade (algo como Vivendo com um Encosto), que contava a história de um homem que assinou um pacto com o diabo para enriquecer. Ogunjiofor escreveu o roteiro, chamou os amigos para atuarem e com uma câmera na mão produziu o filme. A idéia vingou e Vivendo com um Encosto estourou de vender. De lá para cá, o cinema nigeriano vive um boom sem precedentes. Abusando da recente tecnologia digital, que permite captar imagens sem maiores técnicas, editá-las em computadores minimamente equipados, queimá-las em milhares de CDs em curto espaço de tempo e distribuí-las nas barracas de milhares de camelôs, 1,2 mil filme foi produzido em 2004 no país africano, segundo números divulgados pelo Atlas da revista Cahiers du Cinéma. Batizada de Nollywood, a "indústria" cinematográfica nigeriana deixou para trás a Bollywood indiana (934 filmes em 2004) e a Hollywood norte-americana (611). Disponíveis em locadoras por 50 centavos de dólar ou vendidos em camelôs pelos mesmos US$ 3 cobrados em 1993, as produções atingem a marca de até meio milhão de unidades comercializadas - número espantoso para filmes com custo médio de produção US$ 15 e 25 mil. Além do enorme mercado consumidor (são 140 milhões de habitantes), o cinema nigeriano é sucesso nos vizinhos e já atingiu outros continentes. "Há um imenso comércio com cidades como Milão, Amsterdã, Frankfurt, New York, Londres, Barcelona...", diz Amaka Igwe, principal expoente do cinema nigeriano. O ator Wesley Snipes esteve na Nigéria no ano passado para entender como é possível uma produção deste tamanho em um país sem estúdios. Mesmo sem apoio governamental, sem sistema regulador, sem estruturas corporativas, o cinema nigeriano se tornou um dos maiores empregadores e a segunda maior "indústria" da Nigéria - movimenta US$ 200 milhões -, atrás apenas da exploração do petróleo. Até 2004, não havia sequer uma sala de cinema no país. Todas foram fechadas pelos sucessivos governos ditatoriais. Os filmes são passados dentro de casa ou em pequenos ambientes com cadeiras dispostas aleatoriamente na frente da televisão. A audiência local não está extremamente preocupada com áudio impecável, tramas cabeça ou obras de arte. Não há também um embasamento técnico para atores, produtores e diretores. "Os temas falam diretamente para o seu público, são narrativas construídas a partir de e para realidades sociais locais", explica Ronaldo Lemos, coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas, que batizou o fenômeno de "Cinema Povo Nigeriano". O cinema nigeriano fala da desigualdade social, arrisca na comédia, mas prefere histórias sobre bruxaria. Nos enredos, é comum o praticante da bruxaria se dar mal ou encontrar a salvação ao se converter ao cristianismo. Lemos compara o fenômeno nigeriano com o atual momento vivido na indústria cinematográfica brasileira, que discute a obtenção de verbas para o financiamento do cinema. "A discussão aqui ignora este aspecto que transforma a produção audiovisual: o avanço tecnológico e o modo pelo qual as periferias se apropriam dessa tecnologia para produzir, distribuir e assistir a suas próprias narrativas visuais", diz. "É um modelo que se adapta às condições dos países em desenvolvimento e produz autonomia econômica e cultural."

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